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setembro 16, 2009

"DESLOCALIDADE"- uma distopia saída do forno

“Deslocalidade”

Por Marco Antônio de Araújo Bueno

Todos nós aqui, que escolhemos ficar por aqui, conhecemos este litoral por “localidade”; um consenso, uma forma simbólica de garantirmos certa sobrevida junto ao inóspito. Meio abstrato enquanto referência territorial, seus contornos são dados pela imaginação, mais que pelas balizas naturais ou pelo próprio pedaço de oceano ali em volta. Alguns dizem “ah, aquela localidade...”, e isso apenas contribui para adensar a aura cartográfica daquele recorte, ardilosamente próximo dos perigos do mar. Falaram também no risco radioativo, no geológico, mas temem mesmo, garanto, é a fantasmagoria sobre aleijões que aparecem de repente, aqui ou ali, sobreviventes genéticos, assustadores de incautos. Sobre estes seres, necessário for, contarei depois.
Não sou um nativo e, mesmo assim, quase todas as lideranças, acanhadas ou hostis, respeitam minha presença e meu jeito de viver. Estou sempre distraído, perambulando e cantarolando num tom quase inaudível, porém ritmado e resoluto. Meu semblante não interroga, não interfere. E sabem que não ando a esmo. Sabem que tenho meu lugar na localidade, apesar de ser um nômade e um sobrevivente, como eles todos. Cultivei também uma aura em torno do meu deslocamento incessante. E a temem, assim como temem qualquer inseto, qualquer planta que exale determinação de viver. Se minha andança ritmada tem um propósito, não é maior que o de permanecer vivendo. Meu tarefário não se sobrepõe ao de qualquer outro ser, aberrante ou não.Não me compadeço nem me enojo. Principalmente, não me entrego ao tédio. Isto os assusta.
Pois bem, matei um ser. Ou uma experiência abortada e tornada monstro que saltou sobre mim nas escarpas onde busco provisões, pois, do oceano, só espero catástrofes. Matar um coiso por aqui, lancetar um pós-humano de linhagem não seriada, equivale a retirar um espinho cravado entre as costelas. O seguir adiante alivia a dor, o tédio; nunca pesa, como se dizia um dia – moralmente. Desta vez, nas escarpas, foi diferente, algo de substância moral anda assombrando-me, tortuoso como o desenho labiríntico das encostas. Caminho mais pesado desde então, contorno algumas aldeias e, não raro, me pego confuso, despistando minhas próprias pegadas. Do mais prazer que obtinha quando, acolhido nalgum desvão, contava sobre refluxo das marés e, solicitado a decifrar códigos entre virilhas de fêmeas jovens, ejaculava como menino, hoje - medo.
Aquela localidade codificara um padrão tácito de moral e, nele, apoiava-se um padrão de convivência, obscuro, porém regular. Observava tais padrões, e até os animais peçonhentos, até os coisos, ao modo deles, respeitavam meu deslocamento nômade, noticioso de presságios do oceano, alentador pelo cantarolar truncado e tão pulsante. Acima de tudo, respeitavam-me pelos meus registros – o álibi das minhas interações. Eu lhes infundia alguma pureza pelo rigor dos relatos, pela magia da sonoridade que hes espantava o tédio. Pisava com firmeza por causa desse respeito; hoje, por causa do espectro que matei pelo caminho, ando esquadrinhando o espaço com tentáculos lentos e o meu rigor narrativo tem migrando para cuidados obsessivos, quase hipocondríacos. Meus dispositivos de registro, a cada pouco, mais reticentes, lacunares.

setembro 07, 2009

Embrionário Grupo de Estudos Poéticos

Destinatários da Stalker & Grupo Sesc




Só para dizer da mais recente roda de leitura que o Sesc-Campinas vem trazendo (via Heloíza Pisani, p. ex.)a do escritor (ex-Cronópios, poeta, músico)Edson Cruz tornou-se embrião de um grupo de estudos quinzenal. A idéia surgiu no final de agosto e pegou de jeito escritores (Guilherme Salas, Luiz Contro),cartunistas e performers (Alan Carline)e fotógrafos e cinegrafistas, com Ale Toresan, aqui na foto que não é dele. Na dele, Edson recebe a Portal Stalker. Bom ledor!

setembro 03, 2009

Duelo a quem duelo_micronarrativas

9. “Estética da Desfaçatez”

Presidente, outrora empichado, chafurda, senador, no chafariz niemayeriano - sobe-e-desce coerência...


{ Explico: O escritor e exímio microcontista Marcelino Freire está publicando um microconto por dia no Twitter. Equidistante e equivalente, proponho-me à cotejar tal produção, com meus micros de dez palavras, numa proporção de 10/01; ou seja, a cada dez dele, um meu. Ele está no Trigésimo; este é meu nono. Melhor de tudo - duvido que ele saiba da quixotesca empreitada. Ele pretende chegar ao milézimo. E "Eu não sou Pelé nem nada".

agosto 26, 2009

Minha posição na mesa redonda do lançamento da Stalker

Reitero (já a tinha defendido em debate com Roberto Causo na livraria Cultura, por ocasião da Neuromancer, Abril, sexta/13 -lembram-se?)minha forma de inserção nesse encontro entre o maisntream e a literatura de gênero que, corajosamente, o Projeto Portal encampa e problematiza, sob a serena loucura de pedra do Nelson de Oliveira:

agosto 24, 2009

Poema "engajado"

(Robert Frost disse: 'Eu nunca escrevo exercícios, mas às vezes faço poemas malogrados e a esses então chamo de exercícios.')
“Pneumotórax”

Acetábulo displásico:
Fêmures dardejando
Bacia pouco acolhedora;
Nem um tango argentino,
Tampouco um cigarrinho amigo
Oferecido na trincheira.

‘Meu pai também tinha?’

Um ilustre destinatário da Stalker



Dr.Antônio Carlos Giampietro examina a Stalker em Feira. Ex diretor clínico do Hospital Psiquiátrico Cândido Ferreira, na ocasião, presidido pela legendário Décio Pinto de Moura, o mestre e amigo Giam, cuja envergadura humanista faz equivaler o, hoje referência em saúde mental - Cândido Ferreira, ao Hospital da Praia Vermelha no RJ, onde a junguiana Nice da Silveira criou o Museu do Inconsciente, com obras artísticas dos internos.Gilles Deleuze: "A Literatura é uma saúde". É.

agosto 19, 2009

"Wharia Avariada"-Conto I da Stalker

“Wharia Avariada”

I

Sempre nos advertia que seu relato não seria nada amigável, mas nada aborrecido, replicávamos. Pegamos nossos rotores e deslizamos em direção ao solário onde, com tamanha transparência e nitidez jamais seríamos notados. Despiu-se.
-“Muito bem, por quê está aqui?”
-“Porque me forçaram.”
-“Sem ironias, isso não é um inquérito. Se cooperar, Task e eu seremos breves. O relatório do Softcare mostra avarias crânio-faciais. Internação voluntária.”
A campânula, toda blindada, reverberou um gemido gutural assustador, depois, silêncio. Tive um pico de pressão e Task crispou seus dedos trêmulos no cabo.
-“Relaxa, rato branco, eu nem comecei, eu nem comecei ainda.” Ria-se.
-“Wharia, podemos interromper e induzi-la à parada crítica. Seu rosto...
-“Meu nome é M’sharia, inpostor, sou paquistanesa de trinta gerações!”
-“Que substância lançaram no rosto, por quê lesaram seu rosto?
- “Porque eu toquei o vergalhão dele com gosto, e ele gostou, ruiu!Ruiu!
Task sussurrou algo, levantou-se e ela o imobilizou com o cabo.Gelei.
-“Agora vou contar tudo, enquanto o rato escuta com todo gosto, não?”
-“Muito bem, não acionei os sensores. Quero escutar sua história, tudo.”


II

Passados uns quatro ciclos, não mais às voltas com pesquisa no Departamento de Cyberantropologia, reenconto Wharia numa das alas do próprio Softcare. Acenou para mim com alguma leveza até, aproximou-se: -“Trabalho aqui, que ironia, não? Sub-coordenadora do grupo de Sexualidade e Robótica de Terceira Geração, cadê seu rato branco?”. Repliquei que fora desativado e se a robótica que estudava não seria a de trigésima geração. Andei catalogando arquivos criptografados sobre o trabalho de um tal Bateson, G. Face à provocação (chequei a suposta origem proto-paquistanesa dela; procedente...) a reação foi inusitada – deu de ombros. Como não me fez advertências desagradáveis, caminhamos juntos pela ala norte e conversamos sobre interface, etc., o que não foi nada aborrecido: “- Como anda a libido dos seus ciborgues?” “-Libidinosa, como a sua, talvez mais matizada”. –“Com as matrizes tão pouco oxidadas que aplicam neles...” – “Está equivocado, muito equivocado, eles referem desejo. Expandimos a memória original. E isso é confidencial, libidinosamente... confidencial, compreende?” Sorriu-me, pela primeira vez. Dei de ombros e ela replicou, ácida: “- Mas que gestuária mais pós-humana, não? Que tal uma bebida gelada? Relaxa, não vai oxidar suas matrizes retrógradas...”. Aceitei, é claro, e mergulhei, gelado, naquele inusitado virtual.


III




“-Achei curioso perguntar do Task, recordar-se dele...”
“-Ele ficou bem assustado com a minha cena, não?”
“-Talvez viajasse nos contornos de suas belas próteses, excitado, talvez.”
“-Mas que conversa solta para um cético, um desplugado, não?”
“Ora, o solário, o meio líquido do cabo. Desejo e medo, você sabe, não?”
“Não me subestime, impostor. Sei que essas cargas não se anulam, daí...”
“Daí você quer conferir, empiricamente, bem solta. Sorriso e prudência!”
“Equivocado, de novo. Já fiz isso, faria de novo. Excitado, impostor?”
“Há algo de memória num vergalhão? Se houver, suponho que haja m...”
Senti ventosas abruptas deslocando-me no espaço, vertigem e dor. Reagi com golpes marciais e ativei as câmeras próximas. Mais um equívoco – Wharia tomou-me se assalto no centro exato de um escotoma – opacidade total, coreografada. Amor..., amortecido pelas fisgadas lancinantes de fratura exposta somada ao odor vaporizado – a
substância gasosa -, ei-la, agindo em meu rosto como agiu no molestador de Wharia...
“-M’sharia, este é o meu nome pós-humano, impostor! E eis seu desejo!”
“-Por quê estou aqui, e não me forçaram? “Pela memória”, replicou-me...

agosto 07, 2009

Cortesia da Portal Stalker-um dos quatro contos meus

Baseado de Assis

Escrevi esse conto para a Stalker, baseado no eixo narrativo de um outro, dos anos 60!Não dos anos sessenta do século passado, é claro;a concepção que norteia o Projeto Portal é plasmada na prospecção, no futuro.Refiro-me ao século retrasado!O título dele - "Segunda Vida" - alude a virtualidades como "Second Life", avatares, errepeges. Futuro. Nem Futuro do Pretérito; Futuro premonitório, no campo da narrativa, da fantasia ficcional. Esculpido a Machado. Machado de Assis.Avancei no tempo para alcançá-lo e cheguei a este, baseado em Assis, o brucho que se defuntava na ficção, e voltava pra contar. O que conto ficou assim:







“Tempo Virtual, Mate Real”




Logo que percebeu como tratavam aquele que o aguardava na recepção disparou a tomar providências. Trataram-no por Senhor e se isso não era um código de segurança, era sinal para acionar dispositivos adicionais de etiqueta, protocolos de natureza diplomática. O Senhor que o aguardava não abriria mão de suas prerrogativas, das armas e brasões que o precediam. Mesmo sabendo da farsa daquele cerimonial.
Apresentou-se cordialmente, sentaram-se. Notou que o Senhor evitava o confronto visual e mantinha certa rigidez nos gestos; que não se apartava de seu caixilho 9.0, atrelado ao pulso, por um cordão metálico incrustado de minúsculos ornamentos verdes. – “Relíquias do auspicioso clã, Senhor? bonita peça!” , gracejou para quebrar a formalidade. Mas o Senhor respondeu que não, que se tratava de material explosivo.
Configurava-se uma situação de risco, agora sim, mas não tinha como apartar-se do ilustre visitante para os expedientes cabíveis; um “com sua licença, volto num instante” soaria como um “vou chamar a segurança”. Enxadristas vibrariam com a perspicácia resoluta daquele mate real já anunciado. A saída exigia compostura e raciocínio antecipatório.Uma varredura seletiva em seu repertório de alternativas afins.
Havia, para ganhar tempo, um recurso muito eficiente quando se tratava de representantes de aristocracias e portadores de mutações genéticas que potencializavam a estima pessoal e a vaidade. –“Esses caixilhos 9.0, Senhor, um grande privilégio prevalecer-se de dispositivos tais que permitam inibir nossos sensores, esses, também de última geração, que detectam roteadores de tempo real. O valor dessa máquina!”.
Afastando as mãos como se contornasse o caixilho, expressão mais relaxada no rosto, Senhor mordeu a isca, não sem antes desferir uma ofensa de natureza institucional: - “Seus sensores têm a vulnerabilidade típica das instâncias censoras, aguçam nosso ímpeto de desafiar, de descobrir as falhas do sistema...” A expressão não era de riso; era um esgar malicioso de quem já conta com os louros. Vitória por mérito...
Cintilava nos olhos de ambos um indelével desejo de astúcia, de reconhecimento meritório de astúcia de um – o Senhor -, que demandava aplausos da platéia entusiasta que julgava ter no outro, e deste outro que exalava um devir de sobrevivência e instigava: -“Em nossas idades-Terra, Senhor, meninos é que somos nessas circunstâncias, ávidos por imaginar proezas dessas engenhocas, ardemos de contentes!”.
Senhor, abrindo o painel do caixilho, exultava: -“E já que explodiremos juntos, mal me contenho em excitar sua imaginação: imagina o recurso que usei para enganar seus sensores”.-“ Não alcanço!”. –“Uma singela máscara de interface na área do relógio.”, e abriu o código fonte, inclinando o corpo para o exato quadrante coberto por uma das câmeras de vigilância. O outro ergueu os braços, solerte; -“Desenvolvedor!”
Ao erguer os braços, porém, a câmera registrou o dedo indicador direito apontando para o alto e o esquerdo para o painel do caixilho que escancarava o hackerismo, agora, detectado e desfeito com recuso tão singelo quanto o concebido pelo desenvolvedor – uma intervenção no relógio do sistema e subsistemas coadjuvantes tornava virtual toda a sequência do tempo transcorrido desde a chegada do Senhor...
Quando, já no final daquela troca de amenidades tecnológicas, algo nefasto apontava para o imponderável da missão do Senhor, este, lacrando seu caixilho, retesou-se e proferiu, solene: -“ Hora do fim, colega!”-“Ora, ora, temos tempo, Senhor, uma câmera flagrou e desabilitou a contagem. Para todos os efeitos, não tivemos este encontro porque o Senhor não entrou aqui. Prefere seu chá com leite, seu avatar gosta?”

julho 19, 2009

Habemus STALKER


O Ficcionistee mentor do Projeto Portal (www.projeto-portal.blogspot.com )Nelson de Oliveira. Um é nosso, outro será sorteado aqui no Festina Lente entre os interessados a resenhar contos. Tenho quatro "breves" sci-fi. Trata-se de um movimento. Que se tome posição!

julho 08, 2009

"Equalizando a Relação"-Microconto dez palavras

“Equalizando a Relação”

Ela quer: "Sinta saudade;liga sempre!"Ele fantasia...cinta-liga! {Quarto microconto de dez palavras, no esquema de paridade 10/1 com M.Freire no Twitter. O danado está no 16. Como, a cada de dez dele, proponho-me publicar um (de dez palavras), chegamos a um múltiplo curioso. E eu tenho alguma dianteira, nesse tour du force, onde meu efort é de anumar uma equivalência com equidistância. Bom exercício de concisão sob o olhar instantâneo de twiteiros.

junho 25, 2009

Fotos do trimestre de Rodas de Leitura Sesc no PQP

Ao acessar o www.postoqueposto.blogspot.com deparo-me com um painel fotográfico(créditos ao renomado fotógrafo Elexandre Toresan)em editorial de Daniel Serrano.
Louvo mais uma veza iniciativa do Sesc Campinas de trazer escritores como Marcelino Freire, Maurício de Almeida, Joca.R.Terron, além de inovar com o dinâmico sistema de curadoria que costurou as oficinas de Fabrício Carpinejar, Cíntia Moscovich, Adriana Lunardi e Luiz Ruffato. Como decorrência, a consolidação dos vínculos literários e afetivos entre os autores retratados no painel. Breve, um link.

junho 23, 2009

www.projeto-portal.blogspot.com

Está para sair a terceira edição do projeto de ficção-científica em portais impressos.

O primeiro foi Solaris, o segundo Neuromancer, e agora é Stalker.

O objetivo do projeto é aumentar a demanda por ficção-científica no país e tem coordenação de Nelson de Oliveira, autor de Geração 90 (Boitempo), Subsolo Infinito (Cia das letras), Algum Lugar em Parte Alguma (Record) e outros (http://urbanalenda.blogspot.com).


200 leitores formadores de opinião serão escolhidos para ler e resenhar os dez contos de diferentes autores, em sua maioria escritores e artistas já publicados.


No website existem vídeos, releases, resenhas, biografias, notas da imprensa e outras informações do gênero: http://projeto-portal.blogspot.com

Agradecemos a divulgação da iniciativa!
(Redigido pelo autor do blog, Sérgio Tavares)

junho 05, 2009

Microcontos (dez palavras) para Tweeter

“Aca(l)mada”


Tua mãe se adoentava e trazia homens pra sarar dela.

{Desde ontem, o danado do Marcelino Freire - que andou lendo Mcs meus em oficina do Sesc Campinas e...gostou deles - estará publicando 1 microconto por dia no Tweeter até chegar a mil! Embarco nessa com proposta equivalente e equidistante: a cada dez dele publico um meu, até enloquecermos todos. Prometo jogar a toalha no caso de perceber, nos meus, um comprometimento da narratividade ou um descambar para o aforismo, o anedótico puro, etc.}