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BO ! (aramaico)

julho 25, 2006

"Gordo"_Crônica Jul2006_Coluna "COTIDIANO" da revista "Showroom"

““Gordo!”




Acho que estamos às voltas com um novo patamar ético,
quero dizer - nas nossas escalas de valor. Acho que achei, pelo
menos, uma palavrinha, um adjetivo potente e explosivo que aponta
para a pontinha deste fenômeno. Foi por acaso, vinha dirigindo para o
consultório após o jogo contra o Japão. Trânsito tumultuado, eufórico
e nervoso. Gente querendo escapar da folia da comemoração e muito
mais gente tentando impedir que isso fosse possível. Então, por um
pequeno trecho do caminho, mais fluído e tranqüilo, senti que havia
uma” pedra “: uma garota cortou a frente do motorista da pista ao lado
e ouviu dele um desaforo imbatível: -” Gorda! “. E então ocorreu o
mais inusitado, o tal fenômeno. Veio de um “comemorante” trincado de
todas as marcas de cerveja: - “É gordo, mas faz!”.
Era o ano de 2006 (disso eu sabia) e rolava um
campeonato mundial de futebol muito mundializado e, quanto a isso, eu
já tinha outras referências temporais mais remotas - achava que havia
começado no início dos anos noventa do século passado e remetia a
protagonistas estranhos ao mundo do futebol, como uma “dama de ferro”
e um ex-ator, então presidente dos EUA. Mas na vida das minhas
fatigadas retinas, jamais esquecerei a fisionomia da garota
ofendida...mas nem tanto, e isso me intrigava. Lá estava ela, vestida
com a camisa nove e mais as estrelas de todas as marcas de banco,
petrificada e perplexa, entre um desaforo tão moralmente estético e
uma apreciação atenuante, tão benevolente quanto eficaz.
Um paradoxo, caro leitor! Estivera diante de um
curioso impasse de natureza estritamente...ética, vá lá. O desaforo
do motorista - amortecido, neutralizado quase, pela lógica da velha,
mas nem tanto, política de resultados. E eu todo intoxicado pela
mídia do espetáculo, confuso no meio da galera e filosofando
bovinamente, extemporâneo, pra japonês ver. É que o “homi”, não é que
fez, e depois fez de novo? Em plena Quinta-feira gorda e eu lá,
abafando uma gargalhada e analisando um fenômeno novo que acabara de
presenciar: fulminante dieta moral recompensa auto-imagem de mulher
xingada com tanta crueldade, apesar de sua quase anorexia sarada.
Muita corneta estridente saldando o meu pavilhão auditivo; martelo no
estribo e minha paciência na bigorna.
Agora que já é inverno, férias escolares (essa moçada
precisava descansar mesmo, já que este ano não dará trégua...) e eu
sobrevivi às profundezas das minhas análises porque subi os vidros e
coloquei o “Inverno” das “Quatro Estações” do Vivaldi no toco pra
seguir caminho, agora sim, podemos passar uma régua no pagode e
pensar com serenidade nas conseqüências da tal Cláusula de Parreira,
de Barreira, perdoe. Aquela que oferece ao candidato da oposição o
dobro do tempo de propaganda televisiva, sobre o da situação. Que
situação! Isto sim é “show”, porque “show” é ganhar e ganhar é
muito “show”. Ocorre que ninguém é “mané” a ponto de jogar pra
perder; perder seus curraizinhos regionais, além da própria eleição
presidencial...seria coisa de “mané”, num país sobre cujas
prefeituras municipais, a corrupção campeia, perdoe, vigora, num
patamar estatístico além dos 70%. Parece mesmo que o que não mata,
engorda e o que engorda é “matador”...De “mané” só sobrou o
Garrincha, para o orgulho do nosso Pavilhão. Mas não pra saúde dos
nossos fatigados ouvidos, nossas Trompas de Eustáquio.
Portanto, leitor, que entre a “Primavera” do Vivaldi
pela primavera eleitoral. Até porque o nepotismo fará entrar pra
máquina estatal, muitas primas e primas das primas de muitos
candidatos, assim, eleitos. Se futebol é caixinha de surpresas,
política é coração de mãe; acolhe e alimenta seus diletos.
Especialmente, permite gerá-los em suas Trompas de Eustáquio, de
Falópio, perdoe, pela última vez, gordo leitor. E não se ofenda,
porque lhe ofereço este “gordo” como uma espécie de “valor agregado”,
de sortilégio. Uma lembrança da Copa, na redenção da cozinha.
Pois assim começou essa conversa, com a idéia de uma
espécie de salto para um novo patamar ético que se deu pela inversão
de sinal de um valor estético, sob um pano de fundo caótico da Copa
do Mundo, marcada pela lisura da bola e pela altura da grana, grama,
mil perdões!
Apesar de todo o ceticismo quanto à lisura –não da
bola, o jogo da linguagem não é apenas um termômetro, um
estetoscópio, uma balança...vá lá. Em que pese todo o atual cenário
de lambança generalizada, significados novos emergem do cotidiano
mais pueril, mais prosaico mesmo. Doravante (que palavrinha mais “pra
cima”, não!), quando alguém gritar - “Gordo!” este estigma vocabular
não vai soar como antes. Soará, talvez, como...suor, como superação
de lágrimas. Só o tempo poderá mostrar as condições de emergência
desse novo “gordo”, nem que seja pela autópsia dos bastidores
do “show-resultado”. Será preciso mastigar bem a palavrinha renovada,
até para extrair de seu entorno algum saber, ou qualquer sabor, o que
dá no mesmo.
Será preciso investigar a que ganhos leva o ganhar.
Ou descobrir o que o “professor”, o “homi” mastigava metodicamente lá
do banco (de reservas, do jogo) para gritar suas palavras de ordem. E
se há uma palavra de ordem no momento, esta palavra é “votar”.
Sempre, e sem muitos advérbios de modo. Tudo o mais é burrice. Pura
burrice!
- “Dê show!”, mastigou o “Homi”...
Aliás, perdoe.