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BO ! (aramaico)

novembro 15, 2019

FOBIAS

Por Marco Antônio de Araújo Bueno

Para Dalton Trevisan

- João, sabia que se você não mata uma cobra você nunca mais vai ter sossego?
- Por quê?
-Que ela sempre vai poder atacar alguma criança!
-Mas isso vale para qualquer animal peçonhento!
Aranhas marrom...
Sapos...
(ela tinha fobia de batráquios ...)
- Sapos? Sapos ... sapos não existem.
-  Ai, João, você é engraçado, você parece louco!

outubro 21, 2019

Do verso



     
Por Marco Antônio de Araújo Bueno
       Pedra Branca, Outubro/2019

      Quando se respira somente a réstia do fazer,
      Faze como o Cabral proferiu: "Mais vale...
      O fazer que o não fazer"; pois, atento ao tédio,
      Dele não se fará entendido, olvido ou fodido;

      Que a coisa é clara: veredas arreganham-se ao verso   
      Aturdido que há de se comprometer com a poesia.
      E como no fuçar em dicionários, essas presenças sumidiças,
      Algo de prenúncio há de vir, distraído, vagabundo.

      Então dar-se-á a alquimia, essa sim - a que respira!
      Nada a temer do que a machuque ou fira,
      Apenas uma espécie de compender.

      E nessa circunspecta busca de poesia,
      Com-penetrada, alusiva, fria,
      A canção, distraída, far-se-á poesia.

     

agosto 05, 2019

MOTEL DOS VIANDANTES


                                                 MOTEL DOS VIANDANTES

                                                 Por Marco Antônio de Araújo Bueno
                                                 Ilustração por: Grisele Morantt




A veneziana creme denota algum crepúsculo lá fora, ao fundo do quarto. Recostado em um travesseiro largo contemplo minhas pernas soerguidas pelas tiras de metal nas polias, ao alto. Não tenho a menor ideia de onde estou nem o porquê daquela posição ridícula; esforços em vão... lembranças opacas, cabeça oca. Ela entra.
- Como se sente, amor? Devo ligar a TV, é hora do seu jornal. Ligo agora?
- Que porra de lugar é esse? Estou formigando, dor na nuca. Onde você estava?
- Fui providenciar sua Dolantina; você exigiu aos berros, não se lembra?
- Não me lembro de nada. Como cheguei aqui?
- Querido, não se faça de bobo, você está no pós-cirúrgico, foram três dias de UTI! Você já até conversou com o neuro, falou da batida ...da escuridão... lembra?
-Eu não me lembro de nada, só fragmentos, sensações... dor.
- Eu vou ligar o jornal.
(“... que estacionou no meio fio e foi multado/ O professor de Antropologia Armando Ferraz Cutello, 64 anos, resgatado de um barranco no km 37 da BR-101 está na Santa Casa depois de uma cirurgia de seis horas e seu estado de saúde é estável. O corpo mutilado da jovem encontrada a poucos metros foi removido para o Necrotério Municipal...”)
Observo o embrulho pontiagudo que ela encostou na mesinha ao lado da cama. A expressão dela é serena, quase mística. Apalpa a minha aliança com a mão esquerda e, com a direita baixa o volume com o controle. – Sua dieta é liquida até segunda ordem, a dor vai melhorar certamente; a Dolantina vem vindo, diz sorridente.
Confusão mental, tento mexer os dedos; vácuo total, dor lancinante. Então a seringa e a sensação imediata de conforto, placidez... quase euforia.
Alguns estilhaços de memória, um bem-estar de nirvana, mais lembranças: a luz baça do outdoor-MOTEL DOS VIANDANTES. Retrovisor... a placa familiar de um carro familiar. No encalço? Sirene recalcitrante e um ruído da “Voz do Brasil: (...) Cai o Ministro da Saúde... Apagão.
- Quer abrir seu presente? (o tom amaciado, de uma felicidade contida, de um suspense difuso). Oferece-me o embrulho pontiagudo. “Por quê precisaria de um guarda-chuva neste lugar, Helena?”; tento alguma descontração que testemunho nos músculos e tendões. Não obstante – ei-la, a bengala. E o prenúncio pontiagudo.
A face angelical de uma bordadeira grega, as rugas dos cinquenta e seis, um brilho sinistro no jeito de me olhar: - As notícias não são boas mas não são desanimadoras; veja se gosta do desenho dela. Será, agora, a sua companheira inseparável, como eu...
Examinam-me a perna esquerda enquanto, inundado por um relaxamento excitado, examino a bengala. Com um arrepio que me percorre da cervical à últimas terminações nervosas que ainda pressinto noto o relevo incrustado na porção inicial da curvatura do objeto. Não há dúvida – é uma vértebra. Uma vértebra sacrococcígea; tão estranhamente... familiar...
 A última sacrococcígea que apalpei, eufórico e relaxado como nessa viajem de Dolantina tinha um frescor jovial dos vinte e seis anos...
- Professor Armando, como se sente hoje? Cumprimente sua própria esposa pela cirurgia. A colaboração dela foi crucial!
Na TV do finalzinho do jornal: “(...) o cadeirante foi atropelado quando estava a caminho da Igreja...”

julho 08, 2019

POL- PSICANÀLISE ONLINE LACANIANA: AGENDA/TABELAS

Marco Antônio de Araújo Bueno - Doctoralia.com.br

julho 04, 2019

O GRITO NA ALMA DO SILÊNCIO_ensaio breve






O grito na alma do silêncio


Texto por: Marco Antônio de Araújo Bueno

Pesquisa: Grisele Morantt


A pedofilia é um fenômeno tanto universal quanto histórico.  Na Grécia antiga, por exemplo iniciavam-se os efebos, meninos, submetendo-os à penetração pelos seus preceptores, seus mestres.
Muito embora o Tabu do Incesto seja um fenômeno simultaneamente cultural e natural (observado em todas as culturas e interditado variamente nestas culturas), a pobreza material e as condições precárias das habitações instauram os abusos dentro das famílias nucleares (vide "Sexo e Temperamento" da antropóloga Margareth Mead). Nas classes A e B não é diferente, por razões mais sutis.
Aquele que abusa sabe, de alguma forma, poder contar com a cumplicidade silenciosa do abusado, face ao constrangimento de seu super-eu e ao temor, fantasioso ou real,  de ter contribuído ou facilitado fantasiosamente com as investidas do abusador; também pelo medo de ser castigado ou até mesmo rejeitado pelo adulto mais velho de voz social mais ativa.
Em consequência, o abusado recalca sua vergonha, fadada, com frequência, ao que Freud chamava Compulsão a Repetição. Vale dizer: o abusado reedita a cena do abuso para poder elabora-la ou torná-la "ego”- sintônica.
São comuns os sintomas:  anorexia/ bulimia (associada à figura paterna, via de regra), enurese noturna, fobias generalizadas e "timidez" ou introversão exagerados.
A superexposição visual a pornografia e à nudez associada ao contexto sexual favorecem a aceitação do abuso em situações de baixa autoestima. Uma criança "intui” à maneira dela, que há ‘algo de errado’(R. Laing) nas investidas/ aceitações de bolinação e, mais tarde na vida, tente a ressignificá-las como colorido emocional herdeiro do sentimento de culpa.
Crianças são, conforme escrevia Freud diante da rígida moral Vitoriana, seres sexualizados em sentido amplo ( as fases "oral, anal, uretral” etc. de seu desenvolvimento psicológico) mas, apenas quando transpõe o que herdou do complexo de Édipo, ou seja da relação triangular com os pais, conseguem atribuir significação aos afagos e carícias que caracterizam os abusos. E esse sutil ‘dar-se conta’ permanece recoberto por sentimentos de raiva, medo, nojo, até encontrarem uma escuta profissional que lhes ofereçam amparo e reconstrução simbólica pertinente.

A precocidade com que acedem a intimidades, visualidades e discursos é um traço da hipermodernidade, escreve Gilles Lepovitsky (As pulsões (equivalentes simbólicos dos instintos animais) percorrem um caminho natural no desenvolvimento da libido ou sexualidade infantil. Quando precipitadas ou aguçadas precocemente, porém, desencadeiam feridas profundas no aparelho psíquico ou na alma das pessoas que foram objeto de abusos.

E é dessa matriz erótica que se deriva as dores morais e os padrões de repetição que marcarão a vida adulta de maneira indelével.
Abaixo alguns depoimentos coletados nos comentários do filme “O silêncio de Melinda”



maio 25, 2019

PREDIÇÃO CINZA _Microconto Deca-dez palavras


   Da série inédita de micronarrativas ao parâmetro da tese de doutorado (Unicamp/2008): Micros da Pedra Branca/Abril/Maio de 2019:

"Brevidade e Epifania na Micronarrativa Contemporânea"

maio 05, 2019

O CORPO SIMBÓLICO DO MEU FILHO- artigo

O CORPO SIMBÓLICO DOS MEUS FILHOS


Por Dr. Marco Antônio de Araújo Bueno

Para o www.escavador.com.br
Palhoça, Maio/2019


EM SE PENSANDO  no "Tirar a própria vida" logo vem à tona as questões atuais da Medicina Paliativa etc. Não é disso que se trata aqui, mas também não é do suicídio que desejo falar: é do ritual hipermoderno de se circunscrever em torno de uma prática que descrevo como "encenação compartilhada de futuro".
Sim, de futuro do presente, ou do presenteísmo que se pode exercitar nas redes, com vistas a minorar algumas dores da alma e a ansiedade delas decorrente. Também não falo da excitabilidade de uma fase pós-depressiva que pode incitar novo quadro depressivo, por conta do excesso de fármacos ou do desgaste   existencial que uma depressão clínica promove. É de algo de exis-tencial e ritualizado que se trata aqui - um mal-estar que leva jovens a planeja-rem coletivamente, nas redes, o seu singular "tirar a vida". Existe!
A ruptura com a "verticalidade" do século XX (o do paradigma do Pai-patrão e tal) do 'lá em cima' (que Nietzsche derrubou) e do para baixo (que se revestiu de tanto glamour) já se operou nesse início do XXI. O "spleen" do IX decaiu com a própria literatura (que não seja a narcísica da autoajuda) e não tem mais o poder de inflamar nenhuma imaginação (pós Cyber-punk, automutilação , a 'decadence' e os 'paraísos artificiais' não  mais excitam mais); a nova ordem mental exige menos adrenalina do que as pautas culturais oferecem, do que as substâncias e chás prenunciam, do que as anfetaminas garantiam, então o 'real' ganhou atrativos mais berrantes que o sangue, o esperma e os fluídos químicos de qualquer natureza. Presumir a transcendência virou um jogo de avatares mais concretos, mais matizados e que se pode ensaiar por aqui mesmo, mais na virtualidade que na virtuosidade. Morrer com estilo, com todo um pré-compartilhamento e um agenciar a morte própria com requintes menos paradisíacos e mais delicados do que se podia supor na era das máquinas-de-costura".
       
Não se costura mais as angústias nas sessões de psicoterapias, convencionais ou alternativas, não se recorre a qualquer cerzimento das psicanálises, muito menos a bandagens das cognitivo-comportamentais.
A dor aplacar-se-á não mais no 'aqui-e-agora' dos imediatismos hedonistas, nem nas transcendências neopentecostais que, hoje, colam na ultradireita, até na Espanha, tão conservadora, tão tradicionalmente...vitalista! A coisa está mais "chã" como diria uma paciente do Cândido Ferreira, em Campinas, onde trabalhei por quarenta anos, e quando tinha uma vaga ideia de que se tirava a própria vida para se interromper uma dor insuportá-vel. Da morte?
Da morte ninguém sabe, ainda. Mas se sabe do encenar a própria morte de forma ri-tual, acolhida na ordem simbólica (como o diria Lacan) e plausível, já que tudo se dá como se a humanidade tivesse retrocedido à infância dos tempos, e, na infância, predomina a crença mágica na reversibilidade de tudo!
Eu vejo telejornalismo sim, todos os dias, e ainda comparo sua performance de emissora a emissora e escuto um vaivém de declarações e iniciativas que me retiram o chão. Penso que seja algo pontual, ninguém convive com isso! Mas se, em oito meses de bufoneies o meu entorno simbólico tantas vezes recrudesceu em tantas reflexões importan-tes, como a minha saúde por exemplo, ou o futuro da educação do meu filho e a minha velhice etc. Se vejo tudo a minha volta mudando de estado a cada pouco, por quê um jovem não suporia a reversibilidade de seu próprio 'status' existencial?
Seja para o que for, urge que adultos que maternalizem ou paternalizem jovens atentem para essa plasticidade deles na percepção do tempo, do espaço e do próprio corpo. A chamada "deep-web já vem ganhando até bitcoins com essa questão. E a gente polician-do os faces deles. Sem encará-los!
 



abril 28, 2019

Texto: Marco A. de A. Bueno (cf. tese de Doutorado II /Unicamp : "Brevidade e Epifania na Micronarrativa Contemporânea"

Ili.(foto) : Grisele Morantti

HUMANIDADES_SONHO (Palestra)


 Palestra conferida na Faculdade de Psicologia da UnC - Universidade do Contestado - Canoínhas-SC
  (a convite da Coordenadora Jaqueline Conceição; Cadeia da profa. Carol, Teorioa e Técnicas Psicanalíticas) E, 12 de Abril de 2019.



abril 27, 2019

Tropo brevíssimo (FACCISMO!)

A


Grisele Morantt, minha mulher desde 2018, via militância política anti-fascismo ( é suplente de vereança em Canoínhas-SC, onde nasceu e trabalhou nas Saúde por 10 anos!) e eu. E as "lâminas"
de divulgação de meu trabalho com Psicanalista Lacaniano e Ficcionista há mais de quarenta anos!

fevereiro 19, 2019

INSÔMNIA...



  "Às três horas da manhã, a angústia se veste de branco...", verso subtraído de um poema antológico de Vinicius de Moraes - algo familiar, algo elítico e  enigmático...Insônia interruptiva?


    

julho 02, 2013

AO LEITOR PÓS-HIPÓCRIRA

AO LEITOR PÓS-HIPÓCRITA

                                                    QUARTIER LACAN MADRUGADA

Por Marco Antônio de Araújo Bueno

Caso você vingue, vinda duma tronco
(doutra via qualquer que não a darwinista)
então terei passado – eu, que a alcanço em cheio
(nas suas próteses neurais, no seu exoesqueleto).
(Como terei sido a seus olhos holográficos?)
Alguém que fugiu da linguagem binária e se deu!
(Alguém provindo das profundas sinapses e glias.)
De que forma, mãos robóticas, apalparia meus gânglios?
Se ainda não a penso e farei rir toda a sua geração
(sem distinção de credo, cor d’olhos ou genoma)
é porque teremos sido seres entristecidos –
você, duma tronco, entretecida à base de divisão.
(Eu, ainda assujeitado, porém incompleto!)
E nós dois decompostos em nome duma soma.


[VERSÃO PARA PUBLICAÇÃO NA ANTOLOGIA 'HIPERCONEXÕES']15:23 30/06/2013