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abril 14, 2006

"O Ceni e outras cenas"_ crônica publicada Mar/06

“ O Ceni e outras Cenas “


Por Marco Antônio de Araújo Bueno

Todo mundo discute futebol. Eu, exultante, comemorarei.
Todo mundo fala de política. Eu, enfastiado, tripudiarei.
Todo mundo persegue a bomba. Enrolado não comerei. Todo mundo vai ao circo.
Eu também.
E já que “ A bola não é a inimiga/ como o touro, numa corrida”, e que, quando parar de rolar na Alemanha, estaremos respingados de todo o sangue simbólico de uma corrida eleitoral virulenta (sem trocadilhos com a aviária), invoco o João Cabral para comemorar uma alegoria chamada Ceni, o goleiro que ousou inverter a lógica poética dos versos que diziam: “(...) usar com malícia e atenção / dando aos pés astúcias de mão” . Não tão assim, é claro, uma inversão exata, anatômica. Há muita poesia numa saída de bola com endereço certeiro, quase digital. E uma emoção indizível num certo brincar com a lei da gravidade, nas cobranças de falta, fora da área. É que o goleiro , enfim convocado, convoca todas as suas vísceras no ato de tocar a bola, de sair a conduzi-la até a metade do campo, de catimbar o adversário com o cavalheirismo de um neurocirurgião- tensão sob medida e fidelidade total ao rito. E a bola passeia com saliva, acarinhada por boniteza e também...”por percisão”. Vai dar gosto de ver e, mesmo que o paciente acabe “evoluindo” para óbito, se poderá dizer da cirurgia, que terá sido um sucesso.
Terá sido uma homenagem à pupila, que também é redondinha e vem sendo esquartejada por uma violência retangular. E mesmo que o poeta diga que a bola tem reações de bicho, gente gosta é de carinho frontal, que acaba ganhando do “carrinho” por trás e o assunto já rolou, matuto, para outra esfera, sem trocadilhos também, deu pra sentir? É viscoso tematizar o futebol sob um temporal de palavras, metáforas turbinadas. Mas já dá pra ver a cara de quem quebrou as pernas no jogo político. Engraçado...tentaram derrubar o alambrado, mas torcida não invadiu o campo e o povão ficou na dele, matutando, matutando. Qual dos atores da cena política terá sido um completo bufão?
Quem mesmo será tido como líder, ao final de 2006, se não levarem pra casa a bola do jogo? Eu não descarto nada, nem a idéia de transmitirem a Copa por computação gráfica.
A estória da bomba é mais ficcional, quer dizer, se faz alguma diferença isso de ser história. Digamos que a bomba aqui seja metáfora, já que tanta metáfora virou bomba...retangular.
A sensação gelada já tinha passado, quando aconteceu a coisa da bomba, aquela sensação de precipitação de tantas neves na TV a plasma, que me fez “zapear” em busca de um locutor mais pra rádio de pilha que pra banco de dados. É que rolava um jogo catimbado também, quase uma guerra, quando percebi a urgência daquela bomba, a idéia da bomba plasmada na tela.
Antes um pouco, a figura de um ex-presidente, de altíssima definição, pela textura de tantas neves sobrepostas à cabeleira co-gelada (não corrijam!), pela fala fácil e oblíqua e cheia de ambigüidades que sibilava, textualmente, em rapidíssima entrevista: “ Política é conversa!”...
E eu retrucava, matuto, silente...ah, conversa,né, o que conta é o poder...,resistindo à idéia de ver um senhor tão honoris-causa (própria?), inteligente como um príncipe (de Maquiavel), retocado como um produto clintoniano ( não corrijam, apesar da tentação...), enfim, tão sabedor de que a arte política é filha da arte retórica, de vê-lo falando que política é conversa, como se conversa fosse diálogo e não conversa mesmo, no sentido de “conversinha” fiada, de conversa pra “touro” dormir. Tem boi na linha, pensei, ah tem. É muita desfaçatez, e tripudiei e odiei ouvir aquilo que parecia um desvio de rima, tanto para o poeta, quanto para o neurocirurgião.
E quanto à bomba? Enriqueceu heim!? Não, me responderam, “ não é tão dispendiosa assim, a bomba, mas requer cuidado ao transportá-la ao veículo”. Era um Sábado de carnaval, eu andava meio distraído mesmo, meio sonolento. E pensei ver uma passista da “Gaviões” sambalizando chamuscada pelos cantos da avenida. Mas foi verídica esta estória, houve algumas gambiarras em carros alegóricos, etc., nada sério, se comparado às gambiarras da ala da imprensa que vem chamuscando a evolução da democracia no país, mas isto é outra estória.
Toda essa coisa de sobreposição de imagens, de noticiário fragmentado em plena folia do terrorismo internacional, muita gente embriagada de tudo e poucos seres abstêmios neste carnaval, tudo isso conspira e deixa a narrativa um pouco confusa. Mas é da natureza da crônica equilibrar muitos vetores de significação, pratos recheados de guloseimas parodiadas que imitam a vida, assim como a vida imita a arte.
Importante mesmo, é o reconhecimento, é reconduzir as pessoas aos seus devidos lugares, já que notáveis se mostram as suas legítimas habilidades e competências. Reconfortante!
Estou falando do Ceni, o goleiro artilheiro, se é que me faço entender, mas o faço sem olvidar da artilharia pesada em volta. A propósito, na manhã do Domingo de carnaval, lá estava a bomba intocada, em repouso na geladeira. Plasmada como bomba de chocolate, ora...
Só uma curiosidade semântica: se aparecerem “fantasmas” numa TV a plasma, como acontecia nas valvuladas, a Parapsicologia os consideraria “Ectoplasmas”? Deixa pra lá.
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