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BO ! (aramaico)

janeiro 23, 2011

NOVEMBRO/3001 - CONTO MATRIZ DA NOVELA HOMÔNIMA (no prelo)

Novembro / 3001

O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão…
Chico Buarque de Holanda
Geni e o Zepelim


ESTAS ANOTAÇÕES PODERIAM servir a propósito bem delimita-do. O registro, porém, colhido graças a um desses humanos nada propo-sitivos (com quem estive envolvido de forma delituosa), jazia numa pasta de avulsos que mantenho com desleixo de arqueólogo, hoje, errante e dispersivo. São fragmentárias, avulsas. Se as coloco sobre uma mesma lâmina aqui, não terá sido por razões metodológicas, mas por diversão.

E, se diversão tornou-se palavra-de-ordem nesse presentismo que nos escalda num hedonismo de final de milênio, seria falacioso julgar meu empenho como mero sintoma de milenarismo. Derrocada de valo-res, desorientação generalizada e toda a promiscuidade inaugurada pela era do pós-humano, para além de sintomas típicos, de pré-determi-nações típicas, tornam a diversão, aqui, uma estratégia transgressiva.

Dito isto, fodam-se as categorias científicas de análise, os paradigmas ensebados e presunçosos que teimam em dar conta das representações simbólicas de cavernas e florestas. Habitamos cavernas de silicone trans-lúcido e as florestas não existem mais; então, que eu me ocupe da histó-ria singular de cada árvore que agoniza, sem teorias e fiel à minha própria perspectiva dos seres e coisas que me cerqueiam.

Sei que, de fato, a vida dos humanos não é mais precocemente ceifa-da e a nossa longevidade aumentou, comparativamente. Mas me ocorre que isso se deva à nossa condição de dependência prolongada na pri-meira fase, o que abastece o mercado de cuidados com a infância — à sua mais absoluta revelia —, e mantida pela medicina predatória na ter-ceira, o que desautoriza a nossa mais justificada ânsia de morrer.

Sei também que passo dois terços do meu tempo presumido de vida, quase imune ou refratário às demandas da grande ordem de mercado que configurou o rol das escolhas desde quando viveu minha bisavó-de-genoma. Mas me ocorre que, se percebo assim minha ligação com o consumo, se me percebo agindo no mundo material de um modo meio extemporâneo, isso me custou o preço de uma constante vigília.

Sei, por fim, que choquei as expectativas de meus ascendentes (não gerei descendentes; sei que soa extemporâneo este vocabulário, depois do fim da família nuclear) ao mostrar-me espaçofóbico. Extrapolar a órbita da Terra, nas excursões mais comezinhas no período da tutela educacional,causou-me horror.Optei por fincar raiz no meu quadrante. E tenho relações ambíguas com pós-humanos; outra linha evolutiva.

É um paradoxo desconfortável isso — parecer aos olhos de humanos e pós-humanos, ou ser, por eles, interpretado como produto de uma robótica ao avesso, como um retardado cibernético —, o que explica o meu enquadramento na classe dos Desviantes de Grau II. Fosse de Grau I, teria entrado para o PRP (Programa de Reabilitação Primária), para ser um agente compulsório da doxa estatal de conduta.

Fosse o que enquadram como Terciário, seria perseguido pelos contra-bandistas de órgãos, pelas milícias tribais que habitam o litoral ou, uma vez pego, seria designado para as tropas que trabalham por soldo míni-mo, na função de roteador de DSP (Dispositivos de Segurança Máxima), ou seja, um morto-vivo, sem qualquer pertença ou perspectiva de amparo nem inserção estatutária. Sou um limítrofe social, inominável.

Meu perfil é o de um criminoso em potencial, aos olhos do Estado Mundializado, ou de pária, que pratica delitos na sombra e à margem da delinqüência com alguma pertença institucional, como os mandatários do capital privado ou dos que possuem privilégios de urbanidade na Polis ou na Polícia. Se é que me compreendem agora, resta-me alguma dignidade pessoal; algum estilo, até…

Na esteira desse meu perfil, e com a observação que faço de crianças humanas, de linhagem darwinista clássica (quanto às de linhagem híbri-da, portadoras de aplicativos cibergenéticos, essas me confundem —, focadas demais, nada dispersivas, vacinadas no pós-epidêmico surto mundial de TDAH, Transtorno do Distúrbio de Atenção e Hipera-tividade, síndrome forjada, em parte, nos próprios laboratórios que desenvolveram a vacina), de crianças comuns que escaparam à vigilância sanitária, delas mimetizo o modus vivendi — ocupadas, sempre, com o que seja divertido em si, capturadas, livre e intensamente, num constante estar distraído —, o que lhes torna possível escapar aos condicionamen-tos, tutelados ou subliminares, que as idiotizem e as tornem adestradas; dóceis. Delas tiro meu molde, ocupando-me — distraído.



Passo meus ciclos em campo, coletando informações difusas, quanto mais qualitativas melhor (não as quero transformadas em bits, compar-tilhadas), e fragmentos de biografias marginais, periféricas, que não pos-sam ser exportadas para quaisquer arquivos de sistemas operacionais. São registros manuscritos com pontas de 0,3 milímetro, que passam por cri-terioso sistema codificado de notação. Aprendi a desnaturalizar minhas sensações mais banalizadas e corriqueiras ao mover-me entre párias e marginais sem me comover com a precariedade da existência deles. Eles, por sua vez, trombam comigo como quem anda a esmo, um excêntri-co; uma toxina ou um mal necessário com que contemporizam. Somos a mútua contraface de sobrevivência um para o outro, clandestinos de pouca fala. Não há julgamentos de lado a lado nem ofensas judiciosas.

Não obstante, não se iludam. Não se trata de tolerância, de convívio harmonioso com o que seja a diferença. Que não se subestime, pelo caráter fragmentário deste registro, seu propósito subjacente — o de ser confessional. Pós-humanos, com quem guardo sentimentos ambíguos, ou representam obstáculos para mim (e são eliminados; meu perfil de criminoso…), ou estabeleço com eles uma relação de comensalismo, ou seja, nossas existências justificam-se mutuamente. Se me entendem me-lhor agora, meu envolvimento delituoso não é brando, apesar dos meus valores extemporâneos — exterminei a vida de um deles, da falange litorânea dos mortos-vivos, tão logo que, ao passar da distração ao ato, percebi meu foco ameaçado. Foi no mercado negro do setor energético, ou químico, como queiram. Mas esta parte requer algum prelúdio.

Arqueólogo em tempos de arquivos seqüestrados, de suportes pere-cíveis ou deletados, de sucateamento massivo dos caixilhos 9.0, enfim, da mais irresponsável pulverização de pistas e rastros e sítios na contumácia da digitalização; arqueólogo com abstinência de massa documental, ao se aproximar do lixo civilizatório todo reciclado em pós-lixo, de tal modo aos dejetos aspira, que se transforma em dependente químico de… Va-lores. Outro paradoxo — minha subsistência caótica aproximando-se do limite acaba por subvertê-lo. Sublime transgressão! Importante registrar a transformação de fenótipo a que me conduzi. Ou de genótipo, se é que a radioatividade agiu tão logo… Não raspo as sobrancelhas, por exemplo; protejo-me dos UVs. Ao contrário do que se pensaria, não é porque cometa delitos nas sombras. Sem nome.

Poderia acrescentar os delitos menores que pratiquei no litoral até que me foi dado operar o grande salto, mas seria menos importante que narrar as circunstâncias de submundo que me levaram a conhecer Cleo-cênio, o pós-humano, quase andróide, especialista em Física e Química Quântica. Em todo caso, para infiltrar-me no tráfico de material radioa-tivo precisei cometer delação, queima de arquivo, felação etc., além de rou-bo de água potável, pequenos subornos e grandes quantidades de subs-tâncias ilícitas que estocava sob o calçamento milenar dos lugarejos litorâneos de alto risco, dada a incidência de tsunamis etc. Por debaixo da geometria perfeita desses paralelepípedos que reluziam ao sol escal-dante, quase insuportável — preciosos containers acondicionando nano-cápsulas poliméricas de duzentos e cinqüenta nanômetros de Qa aguar-davam, fotoprotegidas, blindadas como a pele dos mulas.

Um dos mulas era justamente Cleocênio — o Cléo —, andrógina criatura sobre cuja competência não pairava a menor suspeita, se um sexívoro apetite o tornasse portador de uma obsequiada compulsão de cumprir meus comandos mais limítrofes ao operar a distribuição do Quantônio pela malha metroviária urbana. Refiro-me ao mesmo radioisótopo que a ciência recente inscreveu na Tabela Periódica de Elementos, os mandatários — em suas planilhas de investimentos; os políticos em seus discursos conspiratórios e a Polícia em sua receita não tributável. Fotoprotegido, o Qa circulava das reservas estatais para recep-tadores em plataformas de metrô, iguais àquela em que Cleocênio pre-cisou se explodir, face à vigilância implacável do renomado projeto Segmento Dezenove, o que o tornou um morto-morto.

Se é que me compreendem, por fim, eu — um humano extempo-râneo, sem nome, com seu arquivo truncado, ao se perceber visível pelo serviço de inteligência, tão sofisticado quanto corruptível, que investi-gava o deslocamento de um seu não-semelhante, explode-se em infla-cionada visibilidade. Apaga mais um arquivo pós-humano e refugia-se no litoral inóspito com o segredo do Quantônio. Constitui-se, singular como não antropólogo na clandestinidade nos confins da face oposta do espaço sideral — o oceano —, como uma criança comum; capturado, livre e intensamente, pelas distraídas regularidades e pelo movimento ondulatório do eterno e inesgotável tornar a ser constante, tão distraído e agora tão focado no brilho de tão poderoso duplo radioisótopo, ei-lo ali-mar Quantônio.
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