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BO ! (aramaico)

junho 28, 2011

FOLHA [MINUETO]

Foto por - Alexandre Toresan

FOLHA

Por Marco A. de Araújo Bueno


João nada,
Stela olha;

João fala,
Stela molha;

Stela molha,
João falha;

Stela folha,
João cala.

junho 01, 2011

HORA E VEZ DA PARDOCA


Hora e Vez da Pardoca

Por Marco A. de Araújo Bueno

Do trivial ao pitoresco e, deste, ao fabuloso, vai um passo, no caso aqui, um vôo; de pássaro. Pássaros sempre foram emblemáticos de algo menos cotidiano que eles. Dinossauros eram pássaros. Tenho voado baixo e curto pela vida e hoje me sinto dinossauro, contemplativo do trivial, herbívoro em apetites. Em processo moroso de extinção, minha presença não comove, não molesta. Não pia. Às vezes, enlouqueço, só.

Quando a viuvez dilata o espaço, uma aposentadoria, também precoce, dilata o tempo e quando a geografia urbana, por sua vez, comprime o habitat de um homem, o dinossauro do vinte e dois vira ornitólogo, menos por diletantismo que por sobrevivência psicológica. Jardinagem que não seria, nem filatelia já que gosto de olhar para o fora, para o vasto possível de se ver do meu apto.22. É de onde me resta ser apto para evitar a tortura do ruído mais escandaloso, o do relógio de pulso. Portanto, como bom meirinho que fui, convoco gentilmente o trinado que resiste em volta de meu engradado. Solicito-lhes o piado, o farfalhar e toda a algazarra polifônica que, outrora, vicejava aqui, que era um grande pomar cheio de árvores seculares e veios d’água, hoje, vingados em esquadrilhas de pernilongos e na umidade que causou minha rinite crônica.

Antes de mais nada, o extinto pomar frondoso vingou-se pelo irritante e monocórdio piado do pardal, cujo estilo taquigráfico passou a predominar sobre o das maritacas, saíras e bem-te-vis, seus muito eventuais coadjuvantes. Não me incomoda na escuta, já seletiva, nem no meu esforço de classificação. Mas criou um caso com a senhora da casinha geminada que, isso sim, exigiu-me intervenção vigorosa e, sobretudo, operou a passagem do pitoresco ao fabuloso, fazendo ressurgir o meirinho em mim.

Estranhei que me procurasse tão cedo naquela manhã:-Ah, é com você mesmo, mineirinho, me salva desse problema que estou tendo com uma pardoca, já que estuda os passarinhos. Tem que ter uma solução, um jeito de espantar pardal que fica piando todo santo dia, justo às sete da manhã! Sabe que antes das nove eu não estou nem pra Jesus Cristo em pessoa, que Deus o tenha, e se essa diaba dessa pardoca me pia fininho, na altura do seu apartamento, às sete, e fica lá repetindo um phíiiii agudo, comprido, aí eu acordo e passo o dia insonada! Claro, respondi corrigindo que eu não era “mineirinho” mas já fui meirinho, e se ela precisava de uma intimação que eu, na condição de oficial de justiça e apenas estendendo a mão pelo gradil da varanda lhe fizesse chegar às patinhas, entregá-la-ia, sem constrangimentos, brinquei. Mas, retrucou a quase centenária senhora - A coisa é muito séria! O que sabe sobre pardais?

-Pois saiba que vivem no Brasil há pouco mais de cem anos. Vieram trazidos da França na virada do século dezenove, no começo da República.

-Não tem cabimento, ora! Pássaros cinzentos de cantar enjoativo, sem graça. Pra quê trazer da Europa com tantas rolinhas, patativas, tucanos que a gente tem de sobra aqui mesmo?

-Por causa disso mesmo, pra evitar que pássaros exóticos afugentassem capital estrangeiro. Idéia do Sr. Rodrigues Alves para atrair investidores cosmopolitas. Os pardais dariam um ar, digamos...parisiense, mais familiar ao Rio de Janeiro da época, é!

-E que tal uma atiradeira, quando a pardoca vem me acordar aqui no fio?

Se ela tomou no pessoal, o pior estaria por vir. Sete e pouco( eu levanto às cinco) um apito de festa de criança me interrompe o estudo. Eu tinha uma teoria sobre os barulhos do edifício: quanto mais ruidosos, maior minha privacidade. Mas o mecanismo do relógio de pulso e pequenas alterações de movimento na casinha geminada que sobreviveu à explosão imobiliária, ah não, eu não suportava ouvir! E quando, dias depois, corri à varanda sobressaltado por um estrondo meio arquejante e meio abafado, como de ave de porte maior, alternando-se com um apito insistente, e me deparei com aquela cena insólita...Difícil descrever a soma de sensações: ela abria e fechava uma sombrinha multicolorida apontada para a pardoca atônita, enquanto trinava o apito infantil e socava o pé numa folha de amianto salpicada de pedregulhos. Ato contínuo, municiei-me da velha Remington, papel timbrado e carbono e carimbo, fiz o cabeçalho de praxe e disparei, na linguagem taquigráfica dos pardais minimalistas: ”Conto pouco/canto mais, aliás/E o que conto não conta/Ou conta pouco aos demais//Canta pouco o piado/pontiagudo dos pardais/Ócio percussionado só/Opiácios sazonais/Mas, desumanos somos/Se nos somamos, quintais?” Assinado - Pardoca.

Semanas depois, a senhora lamuriava-se - A pardoquinha se foi! Será que morreu? Esses passarinhos costumam migrar...

Meus poucos colegas ornitólogos não sentiram minha falta quando troquei nossos encontros bimestrais por alguns saraus. Ou seriam...sarais?

maio 31, 2011

ACABAMENTO - MICRO ou MINI ?

"Acabamento"

Por Marco A. de Araújo Bueno

Despediu-se em definitivo; pedra em cima, tomou-se de rumo.Voltou apenas para dizer do relativo do gesto, da insuficiência da linguagem e que, sobre a lapidação da pedra, a propósito, mudara de provedor e etc.; ah, também que o etecétera era provisório e que o contrário de "rumo" poderia ser “amor” mas era "omur" mesmo.

maio 27, 2011

OSTRANIÊNIE

{ PREENCHA OS ESPAÇOS ABAIXO COM ESCRITORES }

O ESCRITOR, ESSE ESTRANHO

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O ESCRITOR, ESSE ESTRANHO





























Alguns acham que escritores são seres estranhos. Solitários, reflexivos, diferentes... O talento é inato. A natureza outorga ou não. Como as velhas fórmulas mágicas que as bruxas utilizavam em seus caldeirões - o dom e a técnica são os componentes primordiais que necessitam amalgamar-se para dar nascimento a esse estranho ser chamado escritor. Esse ser que tem um pouco de anjo e um pouco de demônio. Porque os escritores, todos eles, não importa seu tamanho, nem sua estatura - física e mental - são perigosos.

Um escritor é visto sempre como alguém diferente, como um inovador, um criador de casos, um questionador, um desobediente, um sonhador, um louco com idéias perigosas.Aos olhos do público, até o menor dos escritores - até um liliputiense* - tem a coragem de querer deixar suas pegadas no mundo. Parafraseando Platão, podemos afirmar que o escritor "quer ser mais ser".

(Crônica de Isabel Furini publicada no Bonde).

* A escritora argentina Isabel Furini, por 'liliputiense', aqui, certamente refere-se à minha estranha figura segurando um relógio extemporâneo refletido ao infinito no espelho, digamos -
MICRONARRATIVO

maio 20, 2011

O PRETO - [CONTO QUE VIROU UM CURTA]

Ilustração: Alan Carline

“O Preto”


Sim, evito mesmo contar o que se passou com aquele humano que, por causa da Síndrome do Ultravioleta, ficou conhecido como “o Preto”. Trago ainda nítidas as sensações de horror que me provocaram os detalhes horripilantes da história de suas últimas horas de vida na Terra. Alguns, inclusive, registrados, em seus detalhes escabrosos, pelo dispositivo sensório que portava como condição para prestar serviços naqueles antigos complexos de escambo de mescadorias-refugo, de resíduos arcaicos da tecnologia da época da convergência de meios digitais.E nada tinha que ver com a pigmentação da pele, da produção de melanina dele, mas com o GPS; não aquelas engenhocas também antigas de localização, e sim com a sigla que remetia a fenômenos relacionados ao Gradiente de Pressão Social , se é que se recorda dessas tentativas ingênuas de compreender-se a velha desigualdade social. O Preto habitava regiões esquecidas pelas reformas mais comezinhas, falava num dialeto alheio à linguagem universal e deslocava-se até o Complexo Sigma por infectos veículos de superfície, sujeito à chuva ácida e às aberrações climáticas de então. Consta que agia como um desafiador dos protocolos vigentes e era dono de uma coragem quase proverbial.
Assim foi que não se intimidou com a valentia robótica de seu parceiro de bancada naquele Box-37/anexo - 15, o tal que fazia fundo com toda a tubulação e a capilaridade da planta baixa do complexo, onde agonizou em cenas que fundiram a escatologia do drama pessoal dele, com o escoamento dos dejetos todos, mais a amônia que vazava, fora de controle.Às vezes viajo no tempo e imagino que ele tenha sido um emblema extemporâneo do tipo de estigma racista ancestral dos tempos em que nos restava alguma fatia da camada de ozônio; delírio de pesquisador melancólico. É que essa história, além de repugnância e náusea, causa-me tristeza, também extemporânea.
O Preto ficou para mim como o signo de uma resistência ao que me estremece pelo obscurantismo, ao que me assusta pela dilatação da experiência diante do insólito, da coisa cotidiana que se transforma num pesadelo, numa monstruosa combinação de infortúnios. A luta visceral dele resultou na crueza da exposição de suas próprias vísceras aos olhos e às narinas de uma escória mercantilista, robotizada, oriunda da imundície atolada nas práticas mais abjetas. Não por acaso ele retorna sempre à fantasmagoria desses submundos, como massa disforme de sangue pisado ou como um guerreiro nobre, em estado eterno de putrefação. Pois ele, conta-se, não se intimidou nem com o GPS que o desfavorecia de forma truculenta, muito menos com as ameaças de agressão de seu parceiro de Box, no Sigma. Enfrentava o primeiro perseverando no incômodo com certo cinismo, até. O outro, ele enlouqueceu de pavor, com a renitência da presença insuspeita de seu próprio cadáver insepulto por dias intermináveis de angústia, suspense e coexistência com a sensorialidade do repugnante, do asqueroso.
O martírio dele foi uma vingança requintada, ele era durão, você pode pensar; não foi bem assim. A princípio ele era maleável, dócil até, quando o parceiro explicava-lhe as regras tácitas que regiam as transações no local, advertindo-o que ele até poderia atingir alguma cota nas operações, desde que não atravessasse o limite. Que limite?
Ele próprio não sabia, nunca saberia. As transações já chegavam pré-agenciadas e o local físico servia apenas para inspeção visual e tátil da mercadoria. Isso mudava o rumo da negociação, às vezes. Aí entrava o carisma do Preto, que falava baixinho, macio, quase que integrando sua corporeidade às muambas, dando-lhes significação adicional, vida própria. Uma prática milenar, aperfeiçoada pela cultura oral; comum aos sobreviventes que chegavam a mimetizar a geografia mais áspera e a ambiência mais hostil conferindo-lhes alguma simpatia, infundindo-lhes algo de mágico. A sossegada magia dos distraídos, daqueles que vivem de domar o susto de viver rente à vida, ao vão das coisas. O Preto não se sabia assim. Sabia que não era daquela estirpe e que morava longe. Também sabia que não tinha medo de trombar com a vida. Não teria medo de ameaças torpes, insinuadas. Vivia sob pressão – mão estendida para o afago, punho cerrado para o soco – continuava a viver, continuava sempre. Continuou ouvindo que, continuando assim, catapultavam-lhe para outro satélite, para mais longe. Ouviu pela tarde toda que morreria de porrada, que lhe quebrariam os ossos e lhe vazariam os olhos. Quando sorria de medo vago, o parceiro gozava ao contar-lhe como o faria mastigar os próprios dentes, depois que lhe extirpasse os testículos em tração lenta e meticulosa. Então desviava o rosto pro longe e o parceiro mirava a sua jugular e lhe falava de sangue espirrando lentamente e regando seus úmeros retorcidos, como um chafariz. O parceiro era mestre em luta com seres intergalácticos e gostava de anatomia.
Houve algum daqueles recorrentes descontroles horários e o poente demorava a chegar. Os demais agentes foram deixando o Box -37 e os dois ficaram insuportavelmente silentes; um respirava pelo diafragma, o outro, pelo nariz até que o sentisse fraturado num golpe seco. Penso que, neste momento, o sensor acusou alteração no batimento cardíaco do Preto. O que se seguiu é indescritível no que tange aos sons que um humano pode emitir em circunstâncias de dor apenas imaginadas. A pressão arterial despencou e uma música eletrônica pulsante mal abafava estrondos impressionantes. Seguidas fraturas de galho seco, atestou um perito, pela escuta. O corpo parecia arremessado seguidamente contra parede a uns três metros, com uma fúria incontrolável, mecânica. Então, rangido de escada em caracol, pesado e, apenas dois dias depois, pelo vão da escada, alguém notou a massa amorfa, a bola de sangue pisado pelo vão da escada. Mesmo com as perfurações, os olhos pareciam esgazeados.
Sim, a Segurança recebera uma denúncia anônima dois dias antes, um gradil da área externa comum aos boxes fora arrombado. Mas não havia testemunhas. Não consta que o agressor tenha acessado os bastidores do Box nesses dois dias. Nada consta quanto aos operadores da Segurança do Sigma que desapareceram desde então. Nenhum filete de expressão na face estertorada de quem descobriu a bola humana em que se transformou o Preto. Tal como o parceiro, que, por dois dias, manteve-se sentado diante de seu monitor, catatônico como sempre, quem viu o Preto nunca mais viu mais nada.
Inverossímil, porém, é forma como descreveram seu desaparecimento, dois dias depois, num outro poente irregular – dirigiu-se à área externa e ricocheteou desbussolado como uma bexiga de gás até sumir da vista. Estranho isso...

maio 06, 2011

INDRISO AO AMOR PARENTAL



Baixou o bonezinho e os olhos
Depois calou-se, em desapego;
Suspendeu contato e identidade.

Então um rio agitado passou entre nós.

De que matéria é feita a origem...a matriz...
Voz solenezinha - 'Não sabemos se você é o meu pai'.
Subiu uns olhos; amarrotou o boné. Suspirou...

Então o rio estagnado virou espelho d'água.

abril 24, 2011

ROTOSCÓPIO I - [FOCO: GONÇALO TAVARES/2010]

ROTOSCÓPIO I

[Philosophemas]

Por Marco A. de Araújo Bueno

Mas de onde vem esta manhã que, apesar de tudo,

não nos abandona? Somos privilegiados.

O mar é mais catastrófico na televisão

E nos sítios onde felismente não estamos.

A terra treme debaixo dos outros

E o sol mantém uma imoralidade média e

{neutra

Sobre grandes assassinatos (...) *

· Canto V ; 44

· Gonçalo M. Tavares

· “Uma Viagem à Ìndia”

· Editorial Caminho, 2010

março 18, 2011

BEM NO CENTRO DO CENTRAL PARK

ILUSTRAÇÃO - Por Felipe Stefani *

BEM NO CENTRO DO CENTRAL PARK

Por Marco A. de Araújo Bueno

Bem no centro do Central Park
Duma cidadezinha provinciana
Eu te interpelaria, assim:
Ei, olhos vesgos:
Saiba que teu magnetismo atroz
Provém desse estrabismo sim !

Que isso vem desde James Dean-
O astro- e, passando pela sestrosa
Atriz de Luz Del Fuego – a Santos
(pós-marqueza, pois sim!) ,
Incendiou o Fidel Castro e,
Inda hoje, enfeitiça a mim ?

E tu, erguendo a lata de energizante:
Well-Welch, vich, poeta do instante,
Dum bardo, o the best!
Te isnpiras uma Readers Digest,
Ou este tédio sem fim
Bem no centro do Central Park ?


* Ilustrador do blogue coletivo De Chaleira

fevereiro 16, 2011

PRÓLOGO MAIS

PRÓLOGO MAIS

Por Marco A de Araújo Bueno

As coisas sobre cuja ciência nada sei – eu as desejo intocadas, encantoadas.
Exercem sobre mim tamanho fascínio, de tão assustadoras e ingênuas, que as prefiro flutuando alhures, sem captura plausível. Não ouso corromper o encanto e o espetáculo que elas encenam quando querem, quando caseiam. Ou quando as fazem casear aqueles que, de bom grado, aceitaram a roupagem de nome e etiqueta com as quais as desnudaram e exibiram.
E não porque sejam sacanas – uma madame Courier e o Rádium dela, o Moëbios e sua ‘banda’; o Einstein com sua sedutora E=M.C 2. Nem Lacan com os matemas, algoritmos.
Nem é casual que assim seja, pois o lingüista Saussure mostra que a relação entre os nomes e aquilo que buscam representar, embora arbitrária, é necessária à significação. Que seja.
A filosofia de toda ciência é um inventário de pequenos a enormes constrangimentos. Gaston Bachelard tanto o soube que dizia das teorias – são a constante reforma de uma ilusão.
Se as desejo intocadas, encantoadas, é justo por fazer da ilusão, a própria condição desse desejo.
Quando, casualmente, surpreendo uns marmanjos do saber – e suas simplificações sedentárias – ou uns ajumentados jovens pensadores (e sua prepotência estressada), quando os flagro tagarelando, excitados, sobre os signos das coisas, cuja representação, convencionaram existir, não raro, também fico excitado.
Tudo se dá como se, por vulneráveis frestas de sentido, eu perscrutasse, ‘voyeur’, a intimidade de um puteiro; ou a própria devassidão dos...adultos.
Será desse despropósito das palavras (não me apraz colocar um Manoel de Barros em nota de rodapé) e pelo fio de humor de um L.F.Veríssimo que, para logo mais (e com muito menos) cruzarei pontes de Safena para atingir plantações de falácias em meus textos. Malgrado.∞









fevereiro 08, 2011

PRIMEIRO POEMA SENTADO

Primeiro Poema Sentado - (Vi-me)

Por Marco A. de Araújo Bueno







PRIMEIRO POEMA SENTADO

Por Marco Antônio de Araújo Bueno



E quando deito a mão no texto,

Espreguiçando interjeições;

E quando estico os travessões

A incestuar uns meus vocábulos;

E quando tudo se coliga

E se tensiona no espreguiço,

Eu me desato e vou à lona,

Insatisfeito de capricho.

Eu me aboleto à Barcelona,

Em vã desforra minimal

Que, em sua forma de cadeira

(E conteúdos ancestrais)

Em pós-modernas intenções,

Só bem me acolhe se me oprime

As tantas vísceras demais;

Que não derrapem no seu couro.

janeiro 23, 2011

NOVEMBRO/3001 - CONTO MATRIZ DA NOVELA HOMÔNIMA (no prelo)

Novembro / 3001

O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão…
Chico Buarque de Holanda
Geni e o Zepelim


ESTAS ANOTAÇÕES PODERIAM servir a propósito bem delimita-do. O registro, porém, colhido graças a um desses humanos nada propo-sitivos (com quem estive envolvido de forma delituosa), jazia numa pasta de avulsos que mantenho com desleixo de arqueólogo, hoje, errante e dispersivo. São fragmentárias, avulsas. Se as coloco sobre uma mesma lâmina aqui, não terá sido por razões metodológicas, mas por diversão.

E, se diversão tornou-se palavra-de-ordem nesse presentismo que nos escalda num hedonismo de final de milênio, seria falacioso julgar meu empenho como mero sintoma de milenarismo. Derrocada de valo-res, desorientação generalizada e toda a promiscuidade inaugurada pela era do pós-humano, para além de sintomas típicos, de pré-determi-nações típicas, tornam a diversão, aqui, uma estratégia transgressiva.

Dito isto, fodam-se as categorias científicas de análise, os paradigmas ensebados e presunçosos que teimam em dar conta das representações simbólicas de cavernas e florestas. Habitamos cavernas de silicone trans-lúcido e as florestas não existem mais; então, que eu me ocupe da histó-ria singular de cada árvore que agoniza, sem teorias e fiel à minha própria perspectiva dos seres e coisas que me cerqueiam.

Sei que, de fato, a vida dos humanos não é mais precocemente ceifa-da e a nossa longevidade aumentou, comparativamente. Mas me ocorre que isso se deva à nossa condição de dependência prolongada na pri-meira fase, o que abastece o mercado de cuidados com a infância — à sua mais absoluta revelia —, e mantida pela medicina predatória na ter-ceira, o que desautoriza a nossa mais justificada ânsia de morrer.

Sei também que passo dois terços do meu tempo presumido de vida, quase imune ou refratário às demandas da grande ordem de mercado que configurou o rol das escolhas desde quando viveu minha bisavó-de-genoma. Mas me ocorre que, se percebo assim minha ligação com o consumo, se me percebo agindo no mundo material de um modo meio extemporâneo, isso me custou o preço de uma constante vigília.

Sei, por fim, que choquei as expectativas de meus ascendentes (não gerei descendentes; sei que soa extemporâneo este vocabulário, depois do fim da família nuclear) ao mostrar-me espaçofóbico. Extrapolar a órbita da Terra, nas excursões mais comezinhas no período da tutela educacional,causou-me horror.Optei por fincar raiz no meu quadrante. E tenho relações ambíguas com pós-humanos; outra linha evolutiva.

É um paradoxo desconfortável isso — parecer aos olhos de humanos e pós-humanos, ou ser, por eles, interpretado como produto de uma robótica ao avesso, como um retardado cibernético —, o que explica o meu enquadramento na classe dos Desviantes de Grau II. Fosse de Grau I, teria entrado para o PRP (Programa de Reabilitação Primária), para ser um agente compulsório da doxa estatal de conduta.

Fosse o que enquadram como Terciário, seria perseguido pelos contra-bandistas de órgãos, pelas milícias tribais que habitam o litoral ou, uma vez pego, seria designado para as tropas que trabalham por soldo míni-mo, na função de roteador de DSP (Dispositivos de Segurança Máxima), ou seja, um morto-vivo, sem qualquer pertença ou perspectiva de amparo nem inserção estatutária. Sou um limítrofe social, inominável.

Meu perfil é o de um criminoso em potencial, aos olhos do Estado Mundializado, ou de pária, que pratica delitos na sombra e à margem da delinqüência com alguma pertença institucional, como os mandatários do capital privado ou dos que possuem privilégios de urbanidade na Polis ou na Polícia. Se é que me compreendem agora, resta-me alguma dignidade pessoal; algum estilo, até…

Na esteira desse meu perfil, e com a observação que faço de crianças humanas, de linhagem darwinista clássica (quanto às de linhagem híbri-da, portadoras de aplicativos cibergenéticos, essas me confundem —, focadas demais, nada dispersivas, vacinadas no pós-epidêmico surto mundial de TDAH, Transtorno do Distúrbio de Atenção e Hipera-tividade, síndrome forjada, em parte, nos próprios laboratórios que desenvolveram a vacina), de crianças comuns que escaparam à vigilância sanitária, delas mimetizo o modus vivendi — ocupadas, sempre, com o que seja divertido em si, capturadas, livre e intensamente, num constante estar distraído —, o que lhes torna possível escapar aos condicionamen-tos, tutelados ou subliminares, que as idiotizem e as tornem adestradas; dóceis. Delas tiro meu molde, ocupando-me — distraído.



Passo meus ciclos em campo, coletando informações difusas, quanto mais qualitativas melhor (não as quero transformadas em bits, compar-tilhadas), e fragmentos de biografias marginais, periféricas, que não pos-sam ser exportadas para quaisquer arquivos de sistemas operacionais. São registros manuscritos com pontas de 0,3 milímetro, que passam por cri-terioso sistema codificado de notação. Aprendi a desnaturalizar minhas sensações mais banalizadas e corriqueiras ao mover-me entre párias e marginais sem me comover com a precariedade da existência deles. Eles, por sua vez, trombam comigo como quem anda a esmo, um excêntri-co; uma toxina ou um mal necessário com que contemporizam. Somos a mútua contraface de sobrevivência um para o outro, clandestinos de pouca fala. Não há julgamentos de lado a lado nem ofensas judiciosas.

Não obstante, não se iludam. Não se trata de tolerância, de convívio harmonioso com o que seja a diferença. Que não se subestime, pelo caráter fragmentário deste registro, seu propósito subjacente — o de ser confessional. Pós-humanos, com quem guardo sentimentos ambíguos, ou representam obstáculos para mim (e são eliminados; meu perfil de criminoso…), ou estabeleço com eles uma relação de comensalismo, ou seja, nossas existências justificam-se mutuamente. Se me entendem me-lhor agora, meu envolvimento delituoso não é brando, apesar dos meus valores extemporâneos — exterminei a vida de um deles, da falange litorânea dos mortos-vivos, tão logo que, ao passar da distração ao ato, percebi meu foco ameaçado. Foi no mercado negro do setor energético, ou químico, como queiram. Mas esta parte requer algum prelúdio.

Arqueólogo em tempos de arquivos seqüestrados, de suportes pere-cíveis ou deletados, de sucateamento massivo dos caixilhos 9.0, enfim, da mais irresponsável pulverização de pistas e rastros e sítios na contumácia da digitalização; arqueólogo com abstinência de massa documental, ao se aproximar do lixo civilizatório todo reciclado em pós-lixo, de tal modo aos dejetos aspira, que se transforma em dependente químico de… Va-lores. Outro paradoxo — minha subsistência caótica aproximando-se do limite acaba por subvertê-lo. Sublime transgressão! Importante registrar a transformação de fenótipo a que me conduzi. Ou de genótipo, se é que a radioatividade agiu tão logo… Não raspo as sobrancelhas, por exemplo; protejo-me dos UVs. Ao contrário do que se pensaria, não é porque cometa delitos nas sombras. Sem nome.

Poderia acrescentar os delitos menores que pratiquei no litoral até que me foi dado operar o grande salto, mas seria menos importante que narrar as circunstâncias de submundo que me levaram a conhecer Cleo-cênio, o pós-humano, quase andróide, especialista em Física e Química Quântica. Em todo caso, para infiltrar-me no tráfico de material radioa-tivo precisei cometer delação, queima de arquivo, felação etc., além de rou-bo de água potável, pequenos subornos e grandes quantidades de subs-tâncias ilícitas que estocava sob o calçamento milenar dos lugarejos litorâneos de alto risco, dada a incidência de tsunamis etc. Por debaixo da geometria perfeita desses paralelepípedos que reluziam ao sol escal-dante, quase insuportável — preciosos containers acondicionando nano-cápsulas poliméricas de duzentos e cinqüenta nanômetros de Qa aguar-davam, fotoprotegidas, blindadas como a pele dos mulas.

Um dos mulas era justamente Cleocênio — o Cléo —, andrógina criatura sobre cuja competência não pairava a menor suspeita, se um sexívoro apetite o tornasse portador de uma obsequiada compulsão de cumprir meus comandos mais limítrofes ao operar a distribuição do Quantônio pela malha metroviária urbana. Refiro-me ao mesmo radioisótopo que a ciência recente inscreveu na Tabela Periódica de Elementos, os mandatários — em suas planilhas de investimentos; os políticos em seus discursos conspiratórios e a Polícia em sua receita não tributável. Fotoprotegido, o Qa circulava das reservas estatais para recep-tadores em plataformas de metrô, iguais àquela em que Cleocênio pre-cisou se explodir, face à vigilância implacável do renomado projeto Segmento Dezenove, o que o tornou um morto-morto.

Se é que me compreendem, por fim, eu — um humano extempo-râneo, sem nome, com seu arquivo truncado, ao se perceber visível pelo serviço de inteligência, tão sofisticado quanto corruptível, que investi-gava o deslocamento de um seu não-semelhante, explode-se em infla-cionada visibilidade. Apaga mais um arquivo pós-humano e refugia-se no litoral inóspito com o segredo do Quantônio. Constitui-se, singular como não antropólogo na clandestinidade nos confins da face oposta do espaço sideral — o oceano —, como uma criança comum; capturado, livre e intensamente, pelas distraídas regularidades e pelo movimento ondulatório do eterno e inesgotável tornar a ser constante, tão distraído e agora tão focado no brilho de tão poderoso duplo radioisótopo, ei-lo ali-mar Quantônio.