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maio 20, 2011

O PRETO - [CONTO QUE VIROU UM CURTA]

Ilustração: Alan Carline

“O Preto”


Sim, evito mesmo contar o que se passou com aquele humano que, por causa da Síndrome do Ultravioleta, ficou conhecido como “o Preto”. Trago ainda nítidas as sensações de horror que me provocaram os detalhes horripilantes da história de suas últimas horas de vida na Terra. Alguns, inclusive, registrados, em seus detalhes escabrosos, pelo dispositivo sensório que portava como condição para prestar serviços naqueles antigos complexos de escambo de mescadorias-refugo, de resíduos arcaicos da tecnologia da época da convergência de meios digitais.E nada tinha que ver com a pigmentação da pele, da produção de melanina dele, mas com o GPS; não aquelas engenhocas também antigas de localização, e sim com a sigla que remetia a fenômenos relacionados ao Gradiente de Pressão Social , se é que se recorda dessas tentativas ingênuas de compreender-se a velha desigualdade social. O Preto habitava regiões esquecidas pelas reformas mais comezinhas, falava num dialeto alheio à linguagem universal e deslocava-se até o Complexo Sigma por infectos veículos de superfície, sujeito à chuva ácida e às aberrações climáticas de então. Consta que agia como um desafiador dos protocolos vigentes e era dono de uma coragem quase proverbial.
Assim foi que não se intimidou com a valentia robótica de seu parceiro de bancada naquele Box-37/anexo - 15, o tal que fazia fundo com toda a tubulação e a capilaridade da planta baixa do complexo, onde agonizou em cenas que fundiram a escatologia do drama pessoal dele, com o escoamento dos dejetos todos, mais a amônia que vazava, fora de controle.Às vezes viajo no tempo e imagino que ele tenha sido um emblema extemporâneo do tipo de estigma racista ancestral dos tempos em que nos restava alguma fatia da camada de ozônio; delírio de pesquisador melancólico. É que essa história, além de repugnância e náusea, causa-me tristeza, também extemporânea.
O Preto ficou para mim como o signo de uma resistência ao que me estremece pelo obscurantismo, ao que me assusta pela dilatação da experiência diante do insólito, da coisa cotidiana que se transforma num pesadelo, numa monstruosa combinação de infortúnios. A luta visceral dele resultou na crueza da exposição de suas próprias vísceras aos olhos e às narinas de uma escória mercantilista, robotizada, oriunda da imundície atolada nas práticas mais abjetas. Não por acaso ele retorna sempre à fantasmagoria desses submundos, como massa disforme de sangue pisado ou como um guerreiro nobre, em estado eterno de putrefação. Pois ele, conta-se, não se intimidou nem com o GPS que o desfavorecia de forma truculenta, muito menos com as ameaças de agressão de seu parceiro de Box, no Sigma. Enfrentava o primeiro perseverando no incômodo com certo cinismo, até. O outro, ele enlouqueceu de pavor, com a renitência da presença insuspeita de seu próprio cadáver insepulto por dias intermináveis de angústia, suspense e coexistência com a sensorialidade do repugnante, do asqueroso.
O martírio dele foi uma vingança requintada, ele era durão, você pode pensar; não foi bem assim. A princípio ele era maleável, dócil até, quando o parceiro explicava-lhe as regras tácitas que regiam as transações no local, advertindo-o que ele até poderia atingir alguma cota nas operações, desde que não atravessasse o limite. Que limite?
Ele próprio não sabia, nunca saberia. As transações já chegavam pré-agenciadas e o local físico servia apenas para inspeção visual e tátil da mercadoria. Isso mudava o rumo da negociação, às vezes. Aí entrava o carisma do Preto, que falava baixinho, macio, quase que integrando sua corporeidade às muambas, dando-lhes significação adicional, vida própria. Uma prática milenar, aperfeiçoada pela cultura oral; comum aos sobreviventes que chegavam a mimetizar a geografia mais áspera e a ambiência mais hostil conferindo-lhes alguma simpatia, infundindo-lhes algo de mágico. A sossegada magia dos distraídos, daqueles que vivem de domar o susto de viver rente à vida, ao vão das coisas. O Preto não se sabia assim. Sabia que não era daquela estirpe e que morava longe. Também sabia que não tinha medo de trombar com a vida. Não teria medo de ameaças torpes, insinuadas. Vivia sob pressão – mão estendida para o afago, punho cerrado para o soco – continuava a viver, continuava sempre. Continuou ouvindo que, continuando assim, catapultavam-lhe para outro satélite, para mais longe. Ouviu pela tarde toda que morreria de porrada, que lhe quebrariam os ossos e lhe vazariam os olhos. Quando sorria de medo vago, o parceiro gozava ao contar-lhe como o faria mastigar os próprios dentes, depois que lhe extirpasse os testículos em tração lenta e meticulosa. Então desviava o rosto pro longe e o parceiro mirava a sua jugular e lhe falava de sangue espirrando lentamente e regando seus úmeros retorcidos, como um chafariz. O parceiro era mestre em luta com seres intergalácticos e gostava de anatomia.
Houve algum daqueles recorrentes descontroles horários e o poente demorava a chegar. Os demais agentes foram deixando o Box -37 e os dois ficaram insuportavelmente silentes; um respirava pelo diafragma, o outro, pelo nariz até que o sentisse fraturado num golpe seco. Penso que, neste momento, o sensor acusou alteração no batimento cardíaco do Preto. O que se seguiu é indescritível no que tange aos sons que um humano pode emitir em circunstâncias de dor apenas imaginadas. A pressão arterial despencou e uma música eletrônica pulsante mal abafava estrondos impressionantes. Seguidas fraturas de galho seco, atestou um perito, pela escuta. O corpo parecia arremessado seguidamente contra parede a uns três metros, com uma fúria incontrolável, mecânica. Então, rangido de escada em caracol, pesado e, apenas dois dias depois, pelo vão da escada, alguém notou a massa amorfa, a bola de sangue pisado pelo vão da escada. Mesmo com as perfurações, os olhos pareciam esgazeados.
Sim, a Segurança recebera uma denúncia anônima dois dias antes, um gradil da área externa comum aos boxes fora arrombado. Mas não havia testemunhas. Não consta que o agressor tenha acessado os bastidores do Box nesses dois dias. Nada consta quanto aos operadores da Segurança do Sigma que desapareceram desde então. Nenhum filete de expressão na face estertorada de quem descobriu a bola humana em que se transformou o Preto. Tal como o parceiro, que, por dois dias, manteve-se sentado diante de seu monitor, catatônico como sempre, quem viu o Preto nunca mais viu mais nada.
Inverossímil, porém, é forma como descreveram seu desaparecimento, dois dias depois, num outro poente irregular – dirigiu-se à área externa e ricocheteou desbussolado como uma bexiga de gás até sumir da vista. Estranho isso...

maio 06, 2011

INDRISO AO AMOR PARENTAL



Baixou o bonezinho e os olhos
Depois calou-se, em desapego;
Suspendeu contato e identidade.

Então um rio agitado passou entre nós.

De que matéria é feita a origem...a matriz...
Voz solenezinha - 'Não sabemos se você é o meu pai'.
Subiu uns olhos; amarrotou o boné. Suspirou...

Então o rio estagnado virou espelho d'água.

abril 24, 2011

ROTOSCÓPIO I - [FOCO: GONÇALO TAVARES/2010]

ROTOSCÓPIO I

[Philosophemas]

Por Marco A. de Araújo Bueno

Mas de onde vem esta manhã que, apesar de tudo,

não nos abandona? Somos privilegiados.

O mar é mais catastrófico na televisão

E nos sítios onde felismente não estamos.

A terra treme debaixo dos outros

E o sol mantém uma imoralidade média e

{neutra

Sobre grandes assassinatos (...) *

· Canto V ; 44

· Gonçalo M. Tavares

· “Uma Viagem à Ìndia”

· Editorial Caminho, 2010

março 18, 2011

BEM NO CENTRO DO CENTRAL PARK

ILUSTRAÇÃO - Por Felipe Stefani *

BEM NO CENTRO DO CENTRAL PARK

Por Marco A. de Araújo Bueno

Bem no centro do Central Park
Duma cidadezinha provinciana
Eu te interpelaria, assim:
Ei, olhos vesgos:
Saiba que teu magnetismo atroz
Provém desse estrabismo sim !

Que isso vem desde James Dean-
O astro- e, passando pela sestrosa
Atriz de Luz Del Fuego – a Santos
(pós-marqueza, pois sim!) ,
Incendiou o Fidel Castro e,
Inda hoje, enfeitiça a mim ?

E tu, erguendo a lata de energizante:
Well-Welch, vich, poeta do instante,
Dum bardo, o the best!
Te isnpiras uma Readers Digest,
Ou este tédio sem fim
Bem no centro do Central Park ?


* Ilustrador do blogue coletivo De Chaleira

fevereiro 16, 2011

PRÓLOGO MAIS

PRÓLOGO MAIS

Por Marco A de Araújo Bueno

As coisas sobre cuja ciência nada sei – eu as desejo intocadas, encantoadas.
Exercem sobre mim tamanho fascínio, de tão assustadoras e ingênuas, que as prefiro flutuando alhures, sem captura plausível. Não ouso corromper o encanto e o espetáculo que elas encenam quando querem, quando caseiam. Ou quando as fazem casear aqueles que, de bom grado, aceitaram a roupagem de nome e etiqueta com as quais as desnudaram e exibiram.
E não porque sejam sacanas – uma madame Courier e o Rádium dela, o Moëbios e sua ‘banda’; o Einstein com sua sedutora E=M.C 2. Nem Lacan com os matemas, algoritmos.
Nem é casual que assim seja, pois o lingüista Saussure mostra que a relação entre os nomes e aquilo que buscam representar, embora arbitrária, é necessária à significação. Que seja.
A filosofia de toda ciência é um inventário de pequenos a enormes constrangimentos. Gaston Bachelard tanto o soube que dizia das teorias – são a constante reforma de uma ilusão.
Se as desejo intocadas, encantoadas, é justo por fazer da ilusão, a própria condição desse desejo.
Quando, casualmente, surpreendo uns marmanjos do saber – e suas simplificações sedentárias – ou uns ajumentados jovens pensadores (e sua prepotência estressada), quando os flagro tagarelando, excitados, sobre os signos das coisas, cuja representação, convencionaram existir, não raro, também fico excitado.
Tudo se dá como se, por vulneráveis frestas de sentido, eu perscrutasse, ‘voyeur’, a intimidade de um puteiro; ou a própria devassidão dos...adultos.
Será desse despropósito das palavras (não me apraz colocar um Manoel de Barros em nota de rodapé) e pelo fio de humor de um L.F.Veríssimo que, para logo mais (e com muito menos) cruzarei pontes de Safena para atingir plantações de falácias em meus textos. Malgrado.∞









fevereiro 08, 2011

PRIMEIRO POEMA SENTADO

Primeiro Poema Sentado - (Vi-me)

Por Marco A. de Araújo Bueno







PRIMEIRO POEMA SENTADO

Por Marco Antônio de Araújo Bueno



E quando deito a mão no texto,

Espreguiçando interjeições;

E quando estico os travessões

A incestuar uns meus vocábulos;

E quando tudo se coliga

E se tensiona no espreguiço,

Eu me desato e vou à lona,

Insatisfeito de capricho.

Eu me aboleto à Barcelona,

Em vã desforra minimal

Que, em sua forma de cadeira

(E conteúdos ancestrais)

Em pós-modernas intenções,

Só bem me acolhe se me oprime

As tantas vísceras demais;

Que não derrapem no seu couro.

janeiro 23, 2011

NOVEMBRO/3001 - CONTO MATRIZ DA NOVELA HOMÔNIMA (no prelo)

Novembro / 3001

O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão…
Chico Buarque de Holanda
Geni e o Zepelim


ESTAS ANOTAÇÕES PODERIAM servir a propósito bem delimita-do. O registro, porém, colhido graças a um desses humanos nada propo-sitivos (com quem estive envolvido de forma delituosa), jazia numa pasta de avulsos que mantenho com desleixo de arqueólogo, hoje, errante e dispersivo. São fragmentárias, avulsas. Se as coloco sobre uma mesma lâmina aqui, não terá sido por razões metodológicas, mas por diversão.

E, se diversão tornou-se palavra-de-ordem nesse presentismo que nos escalda num hedonismo de final de milênio, seria falacioso julgar meu empenho como mero sintoma de milenarismo. Derrocada de valo-res, desorientação generalizada e toda a promiscuidade inaugurada pela era do pós-humano, para além de sintomas típicos, de pré-determi-nações típicas, tornam a diversão, aqui, uma estratégia transgressiva.

Dito isto, fodam-se as categorias científicas de análise, os paradigmas ensebados e presunçosos que teimam em dar conta das representações simbólicas de cavernas e florestas. Habitamos cavernas de silicone trans-lúcido e as florestas não existem mais; então, que eu me ocupe da histó-ria singular de cada árvore que agoniza, sem teorias e fiel à minha própria perspectiva dos seres e coisas que me cerqueiam.

Sei que, de fato, a vida dos humanos não é mais precocemente ceifa-da e a nossa longevidade aumentou, comparativamente. Mas me ocorre que isso se deva à nossa condição de dependência prolongada na pri-meira fase, o que abastece o mercado de cuidados com a infância — à sua mais absoluta revelia —, e mantida pela medicina predatória na ter-ceira, o que desautoriza a nossa mais justificada ânsia de morrer.

Sei também que passo dois terços do meu tempo presumido de vida, quase imune ou refratário às demandas da grande ordem de mercado que configurou o rol das escolhas desde quando viveu minha bisavó-de-genoma. Mas me ocorre que, se percebo assim minha ligação com o consumo, se me percebo agindo no mundo material de um modo meio extemporâneo, isso me custou o preço de uma constante vigília.

Sei, por fim, que choquei as expectativas de meus ascendentes (não gerei descendentes; sei que soa extemporâneo este vocabulário, depois do fim da família nuclear) ao mostrar-me espaçofóbico. Extrapolar a órbita da Terra, nas excursões mais comezinhas no período da tutela educacional,causou-me horror.Optei por fincar raiz no meu quadrante. E tenho relações ambíguas com pós-humanos; outra linha evolutiva.

É um paradoxo desconfortável isso — parecer aos olhos de humanos e pós-humanos, ou ser, por eles, interpretado como produto de uma robótica ao avesso, como um retardado cibernético —, o que explica o meu enquadramento na classe dos Desviantes de Grau II. Fosse de Grau I, teria entrado para o PRP (Programa de Reabilitação Primária), para ser um agente compulsório da doxa estatal de conduta.

Fosse o que enquadram como Terciário, seria perseguido pelos contra-bandistas de órgãos, pelas milícias tribais que habitam o litoral ou, uma vez pego, seria designado para as tropas que trabalham por soldo míni-mo, na função de roteador de DSP (Dispositivos de Segurança Máxima), ou seja, um morto-vivo, sem qualquer pertença ou perspectiva de amparo nem inserção estatutária. Sou um limítrofe social, inominável.

Meu perfil é o de um criminoso em potencial, aos olhos do Estado Mundializado, ou de pária, que pratica delitos na sombra e à margem da delinqüência com alguma pertença institucional, como os mandatários do capital privado ou dos que possuem privilégios de urbanidade na Polis ou na Polícia. Se é que me compreendem agora, resta-me alguma dignidade pessoal; algum estilo, até…

Na esteira desse meu perfil, e com a observação que faço de crianças humanas, de linhagem darwinista clássica (quanto às de linhagem híbri-da, portadoras de aplicativos cibergenéticos, essas me confundem —, focadas demais, nada dispersivas, vacinadas no pós-epidêmico surto mundial de TDAH, Transtorno do Distúrbio de Atenção e Hipera-tividade, síndrome forjada, em parte, nos próprios laboratórios que desenvolveram a vacina), de crianças comuns que escaparam à vigilância sanitária, delas mimetizo o modus vivendi — ocupadas, sempre, com o que seja divertido em si, capturadas, livre e intensamente, num constante estar distraído —, o que lhes torna possível escapar aos condicionamen-tos, tutelados ou subliminares, que as idiotizem e as tornem adestradas; dóceis. Delas tiro meu molde, ocupando-me — distraído.



Passo meus ciclos em campo, coletando informações difusas, quanto mais qualitativas melhor (não as quero transformadas em bits, compar-tilhadas), e fragmentos de biografias marginais, periféricas, que não pos-sam ser exportadas para quaisquer arquivos de sistemas operacionais. São registros manuscritos com pontas de 0,3 milímetro, que passam por cri-terioso sistema codificado de notação. Aprendi a desnaturalizar minhas sensações mais banalizadas e corriqueiras ao mover-me entre párias e marginais sem me comover com a precariedade da existência deles. Eles, por sua vez, trombam comigo como quem anda a esmo, um excêntri-co; uma toxina ou um mal necessário com que contemporizam. Somos a mútua contraface de sobrevivência um para o outro, clandestinos de pouca fala. Não há julgamentos de lado a lado nem ofensas judiciosas.

Não obstante, não se iludam. Não se trata de tolerância, de convívio harmonioso com o que seja a diferença. Que não se subestime, pelo caráter fragmentário deste registro, seu propósito subjacente — o de ser confessional. Pós-humanos, com quem guardo sentimentos ambíguos, ou representam obstáculos para mim (e são eliminados; meu perfil de criminoso…), ou estabeleço com eles uma relação de comensalismo, ou seja, nossas existências justificam-se mutuamente. Se me entendem me-lhor agora, meu envolvimento delituoso não é brando, apesar dos meus valores extemporâneos — exterminei a vida de um deles, da falange litorânea dos mortos-vivos, tão logo que, ao passar da distração ao ato, percebi meu foco ameaçado. Foi no mercado negro do setor energético, ou químico, como queiram. Mas esta parte requer algum prelúdio.

Arqueólogo em tempos de arquivos seqüestrados, de suportes pere-cíveis ou deletados, de sucateamento massivo dos caixilhos 9.0, enfim, da mais irresponsável pulverização de pistas e rastros e sítios na contumácia da digitalização; arqueólogo com abstinência de massa documental, ao se aproximar do lixo civilizatório todo reciclado em pós-lixo, de tal modo aos dejetos aspira, que se transforma em dependente químico de… Va-lores. Outro paradoxo — minha subsistência caótica aproximando-se do limite acaba por subvertê-lo. Sublime transgressão! Importante registrar a transformação de fenótipo a que me conduzi. Ou de genótipo, se é que a radioatividade agiu tão logo… Não raspo as sobrancelhas, por exemplo; protejo-me dos UVs. Ao contrário do que se pensaria, não é porque cometa delitos nas sombras. Sem nome.

Poderia acrescentar os delitos menores que pratiquei no litoral até que me foi dado operar o grande salto, mas seria menos importante que narrar as circunstâncias de submundo que me levaram a conhecer Cleo-cênio, o pós-humano, quase andróide, especialista em Física e Química Quântica. Em todo caso, para infiltrar-me no tráfico de material radioa-tivo precisei cometer delação, queima de arquivo, felação etc., além de rou-bo de água potável, pequenos subornos e grandes quantidades de subs-tâncias ilícitas que estocava sob o calçamento milenar dos lugarejos litorâneos de alto risco, dada a incidência de tsunamis etc. Por debaixo da geometria perfeita desses paralelepípedos que reluziam ao sol escal-dante, quase insuportável — preciosos containers acondicionando nano-cápsulas poliméricas de duzentos e cinqüenta nanômetros de Qa aguar-davam, fotoprotegidas, blindadas como a pele dos mulas.

Um dos mulas era justamente Cleocênio — o Cléo —, andrógina criatura sobre cuja competência não pairava a menor suspeita, se um sexívoro apetite o tornasse portador de uma obsequiada compulsão de cumprir meus comandos mais limítrofes ao operar a distribuição do Quantônio pela malha metroviária urbana. Refiro-me ao mesmo radioisótopo que a ciência recente inscreveu na Tabela Periódica de Elementos, os mandatários — em suas planilhas de investimentos; os políticos em seus discursos conspiratórios e a Polícia em sua receita não tributável. Fotoprotegido, o Qa circulava das reservas estatais para recep-tadores em plataformas de metrô, iguais àquela em que Cleocênio pre-cisou se explodir, face à vigilância implacável do renomado projeto Segmento Dezenove, o que o tornou um morto-morto.

Se é que me compreendem, por fim, eu — um humano extempo-râneo, sem nome, com seu arquivo truncado, ao se perceber visível pelo serviço de inteligência, tão sofisticado quanto corruptível, que investi-gava o deslocamento de um seu não-semelhante, explode-se em infla-cionada visibilidade. Apaga mais um arquivo pós-humano e refugia-se no litoral inóspito com o segredo do Quantônio. Constitui-se, singular como não antropólogo na clandestinidade nos confins da face oposta do espaço sideral — o oceano —, como uma criança comum; capturado, livre e intensamente, pelas distraídas regularidades e pelo movimento ondulatório do eterno e inesgotável tornar a ser constante, tão distraído e agora tão focado no brilho de tão poderoso duplo radioisótopo, ei-lo ali-mar Quantônio.

dezembro 30, 2010

SUS-EPIFANIAS l_ MINICONTOS CIRÚRGICOS





SUS-EPIFANIAS - l
Por Marco A. de Araújo Bueno

- Primeiro, examiná-la. Se a clínica falhar, então far-se-á Diagnóstico por Imagens.
- O doutor não é agnóstico? Se a Clínica farseá, só resta rezá. Tenho imagem de S. Bento*.

[Microconto bifrásico de trinta palavras]

* São Bento é o santo protetor da ganganta...

dezembro 29, 2010

COLETIVO DE CHALEIRA - 1 ANO !

Bia Pupin, Alan Carline, Luiz Contro e Marco Bueno -SESC
FOTO - A. Toresan

Em 13 de Janeiro de 2010 o blogue coletivo De Chaleira foi estabelecido. Em 13 de Fevereiro, um encontro na chárara da Ju Ramasini confirmaria o escopo editorial e o cimento afetivo subjacente à proposta. O blogue do colunista Guilherme Salla (Miopia) publicou quatro tomadas visionais. No próximo dia nove de Janeiro, o grupo se reúne novamente.

novembro 30, 2010

PASPATU

PASPATU

Por Marco A. de Araújo Bueno

Para R. Magritte






E era uma festa linda, e bonitos
Seres se riam sem gargalhar;
Enterneciam-se de palavras ouvidas
Sem que ruidosas melancolices
Amaldiçoassem, na ira, o lugar.


E nunca olvidando do feltro
Prediluviano no olhar, filtravam
Entre frutas vermelhas,
Absintos mineralizados, cristais
De tâmaras e aves suaves demais,
A vermelhidão, assustada, de estar
Entre tantos demais convivas,
Sem se estilhaçarem, animais.


Animados de alma, não mais
Além de seus contornos-umbrais.

novembro 24, 2010

CAMAFEU




CAMAFEU

Por Marco A. de Araújo Bueno


Deixando o restaurante bandejão, lá vinha a Roxana equilibrando mochilinha nas costas, tonelada de xerox na mão esquerda e um saco plástico contendo uma baguete de pão murcho e uma laranja não descascada. Eu acompanhava a cena de um ponto do campus onde, aos trancos, sacolejando, desembestando pela turba, ela trombaria comigo, surpresa, mas agradecida: - “Ah, o cara, meu anjo da guarda, o carinha que deixou a Psico pra entrar pra História!”. Assim me enquadraram quando, alguns anos de formado, consultório claudicante, entrei para o curso de História querendo esquentar um projetinho de mestrado que me levaria a muitos, muitos pontos do campus. A gente conversava papos-cabeça enquanto eu lia seu tronco e membros. Ela achava meu olhar “algo penetrante...” essas conversas sobre Eros e Tânatos, e eu sentia alguma ternura melancólica pela sua libido-algo dispersa- ali distribuída entre os textos pesados para os dezenove da menina e o pão murcho, que pegava por pegar, do jeitinho mesmo como pegava meu membro e enlaçava meu tronco. E nada, nada sabíamos sobre a laranja e o que já significava àquela altura. Tratarei de descascá-la aqui, com um leve arrepio na espinha e muita dificuldade de recordar a fluência com que passeávamos por tantos labirintos simultâneos, com o fio de Ariadne que nos oferecia a nossa condição de “membros”. Proust acreditava que o passado residia nos objetos.
Que a laranja me faça as vezes da Madeleine no chá que trouxe toda a infância do escritor, em Combray. E eu os conduzirei pelas andanças de um outro objeto, por corpos, por lugares e por instâncias vertiginosas entre tânatos e o que tínhamos de Eros.
Ela e eu nos sentamos de frente um para o outro com as pernas abertas ao modo de sempre. Entre as dela, duas sedinhas, uma pro digestivo, outra para envolver um camafeu microscópico preso à argola de um piercing. “O passado (apontei para o pão), o presente (para o baseado) e. o futuro?” Uuuuu...
-Acho que não vai acreditar - falou arrastado - envolvendo a peça insólita com a sedinha e erguendo o polegar esquerdo enfiado até a metade da laranja cuja casca rompeu por cima, sem ferir os gomos. Imagina o que se pode esconder entre estas suculências cítricas, como se cravasse na rocha... e dissolvesse, assim...
Eu perdi a seqüência dos movimentos desviando o olhar para o trote, nada abstrato, das ancas e peitos de Luciana que se aproximava explodindo em sol, transpiração banhada e aromas de cânfora, rangidos de calçados aquáticos e mais a volúpia animada pela convicção de trepar comigo, depois do almoço, como gostava. Era a hora do nosso itinerário pelos recantos preguiçosos do campus pós-prandial, entre laboratórios de Física, abandonados- “Bom, eu já curto endorfinas e coisas parecidas, assim, viagem de pele, sem maldade. O que rola com os de ervas, to trocando por serotonina e toda dopamina da minha lata mesmo, ô caras, sai dessa!”.
“Aceite esta laranja aqui, Luciana, vem, a gente caminha pelo fumódromo e então vai me contando como curte o cara, sem maldade...” Afastaram-se, e eu fiquei vendo quase mudo como uma lentificava a outra, enquanto se dissolvia o enigma da fruta, com um camafeu preso ao piercing metido pelas estranhas. Piercing de língua. A propósito, a Roxane pesquisava línguas nativas de tribos não aculturadas. A tarde passou. Manhã seguinte, depois do intervalo, a notícia corre: morreu de congestão! Comeu carne e foi pra piscina, já era, a gostosona.. Uma tragédia, coisa horrível de ver, enrolou a língua, ficou roxa roxa, ta estendida no lava-pé esperando a enfermaria, mas já foi, todo mundo acha, choradeira, que morte estúpida, coisa besta...as amigas querendo nem ver, a fruta no chão... O frio na espinha veio com minha manobra bem sucedida que, num vacilo dos para-médicos, logrou retirar-lhe o piercing da língua e, mais tarde, arremessá-lo ao lago central do fumódromo, na ala sul. Não me perguntem a razão. É muito cedo ainda. Um impulso, de protegê-la, talvez. Até hoje não sei. Nas semanas seguintes, quando a observava de longe, sentada, catatônica, fitando a pouca profundidade do laguinho, na ala sul, oposta à saída do bandejão, ficava sem pensar. Ela, sem textos nem pretexto; sem pão nem laranja. Parecia encantada. E estava.
E eu estaria assim, até agora, se um varredor que me espiava enquanto eu olhava Roxani espiando o lago, se ele não tivesse comentado que ela deu em cima do Jonas, naquela semana em que o funcionário achara uma jóia no laguinho. “Devia de ser valorosa, pois se a branquela do lago num tava maluquinha, querendo até pagar o menino!” E o cara, perguntei, - ué, pois num sumiu do laboratório, daqui, do mundão? “De primero ele queria avaliar direitinho a coisa, depois voltou pra cá numa sengraceza, falando que devolvia, mas comia ela antes, a moça. Pegaram os dois nuínho na Física, ela enrolava ele com fibra ótica, que ele tava todo marcado. Pois num sumiu objeto... prisma, os avental, umas chave também! E ele também, ué, e ela fica aí olhando pro nada dele”.
Pois agora digo eu- não é que, no dia da laranja estuprada pelo dedão dela enfiado, o normal não teria sido eu ter arrastado a gostosona da Educação Física para o laboratório de Física e, ao modo de sempre, esquadrinhá-la com filetes de fibra ótica! E depois caminharmos, nus sob os jalecos, pelas espirais do Observatório a Olho Nu (às vezes, nem dava tempo de chegar a Lua e outros astros que poderíamos contemplar, luze e lume agora mesmo, Luciana, fosforesce por baixo do tecido branco e arreganha luz no meio do meio da tarde ociosa do campus pisoteando os chapados, as chapadas e as obscuridades todas, chupa agora Luciana, chupa enquanto eu peno as chaves pra despistar esses delitos, chupa a obscuridade de todo conhecer!). Nunca ninguém mais achou o prisma.
Mas... se não acharam nunca mais também o Jonas, quem era eu pra chegar na moça, encantada, e perguntar. Perguntar de quê? Ousaria descobrir como teria reproduzido a minha delirança toda com quem luzia, enquanto ela se enterrava nos próprios gomos a fundo, sem anjo-da-guarda (Ó!) e, agora, tadinha... sem um camafeu?
Uuuuu...

setembro 22, 2010

TEORIA DA TÉCNICA PSICANALÍTICA NA ‘HISTÓRIA SEM FIM’, DE MICHAEL ENDE

ILUSTRAÇÃO: Alan Carline [BLOGUE DE CHALEIRA]




TEORIA DA TÉCNICA PSICANALÍTICA NA ‘HISTÓRIA SEM FIM’, DE MICHAEL ENDE

Por Marco Antônio de Araújo Bueno

PARTE I





Há pelo menos uma razão plausível para se falar em fantasia: a de refazer um percurso de concavidade. Pensar, aliás, nessa palavra é quase poder tocá-la... Tocar o côncavo, sensual e distraidamente, eis um exercício de puro Princípio do Prazer.
Há o contato com o próprio livro, contato materialmente erótico, de cheiro de gráfica, de cores discretas e saborosas, de barulhinhos e sonzinhos da primeira cartilha, da infância. O livro vem de dentro do livro (“... ele agora está nas suas mãos...”) e o côncavo se oferece como um figo recém abocanhado. Suculento como um figo, misterioso como uma caverna.
O livro é um brinquedo novo e ocupa muito pouco espaço: ele ocupa o seu próprio espaço de dentro!
Côncavo, caverna, dentro, figo mordido... Há também uma razão mais antipática para se propor uma quebra de encanto, uma “lize” do erótico. Trata-se, é claro, de uma razão acadêmica, exorcisante de prazer, que só faz restaurar o convexo. Puro Princípio de Realidade.
Assim, se a Psicanálise que Lacan reescreve, preciosista, barroco, passa como um feixe intrincado de conceitos complexos (se isso é, por certo, quase que metodológico nele), se o “lacanês” é pedante e chato e auto-centrado e delirantemente complicado, isso só acontece porque há um caso de amor. Não se deixa um objeto de amor em mãos inábeis, sob os olhares pervertidos de uma psicologiazinha do ego norte- americana, sob os carinhos grosseiros de um adaptacionismo pragmático e imbecilizante, no colo da mais ingênua “ilusão” do sujeito.
Não é complicado achar em Lacan a assunção de uma hábil e estratégica forma de sedução. A palavra freudiana o toca como uma flauta mágica. Ele não apenas escuta as notas, ele as nota deslizando... metonimizando-se. Entra floresta adentro na melodia, sabe-se perdido e torna-se perdinte instituindo a “beance”, a falta- carbono da palavra. Ele acredita nessa mística xamânica da palavra, e é pela palavra que nós nos perdemos nele.
Eu o reencontro nesse livro, um livro roubado (“... La Letre Voullé” de Poe), uma história sem fim, como a figura de um pai cristalizado em um subterrâneo dos sonhos esquecidos (o significante primeiro, inadmitido à consciência?), de esfinges que compendem toda a sabedoria e paralisam... pelo olhar.
Como a partir de uma igrejinha dogmática só se avista discursos confirmatórios, os discursos confirmatórios de Lacan estão aí para mostrar que, pior que o puxa-saquismo da ortodoxia, é a chatice da ortodoxia do puxa-saquismo, o que o próprio Lacan já denunciava como o “não estilo”.
O próximo passo poderia ser justificar as justificativas introdutórias. Prefiro, no entanto, sair pelo livro adentro para tentar sugerir uma semelhança: a que se insinua entre o texto (apesar das sinalizações de trânsito que, por questão talvez de segurança, alternam cores de impressão para legitimar ou não a entrada pela fantasia que, afinal, só tem sentido, se for a “minha fantasia”) e o percurso do sujeito no processo da análise.
A análise também tem sua concavidade. Não se pode usá-la a torto e a direito. Uma espécie de imanência. Entra-se numa análise pelo meio e começa-se pelo lado de dentro. Um exemplo de abuso dos recursos e instrumentos da análise, no caso, poder-se-ia se ilustrar com uma inquietação, meio anedótica, meio “lingüistérica”: Por que razões (o inconsciente é feito de palavras) alguém chamado Michael Ende (... Das Ende?!) se põe a escrever uma história sem fim? Algo mais sério poderia ser: porque sinalizar os caminhos em um texto mais próximo a uma Banda de Moëbios, sem lado de dentro, sem lado de fora, sem direito e sem avesso, como o próprio inconsciente em seu estado de sótão (tão só) onde Bastian lê o livro, em seus estado de discurso, de texto?
Tenho a intenção de propor aqui algo menos lúdico que esse patinar por livre- associações. Dentre as quatro consagradas modalidades de crítica psicanalítica ( voltar-se para o autor como na “Gradiva” de Jensen; para o leitor; para o conteúdo ou para a construção formal do texto) escolho a segunda, até para privilegiar ramificações intertextuais. Não perderia o lúdico de vista. A propósito desta visada, é bom que se lembre- Kafka disse algo como (...) um texto deveria chegar ao leitor como a notícia de morte de um ente querido...
A leitura desse texto provocou-me certos lutos e algumas escotomizações, uma das quais insejou-me declinar de categorias tomadas às sociologias e às histórias, tão diacrônicas.
Se cada leitura é uma re-escritura, essa minha reflexão sobre o texto do alemão Ende, há de desejar, em fim, uma certa univocidade, um tanto singular; de espelhos, um silêncio potencializado, quem sabe.
Interessante- a linguagem de Ende é absolutamente pictórica e em “Signes”, Merleau-Ponty conclui: “... As vozes da pintura são as vozes do silêncio...”. Também há um pouco do Borges de “O JARDIM dos Caminhos que se Bifurcam”; intertexto do lado íntimo, côncavo da obra- personagens que se citam de livro para livro do autor. Importa começar pelo meio e entrar pelo lado de dentro. A costura é costura de significantes e o bordado mora no seu avesso.
Bárbara O’Brian escreve também sobre uma viagem psicótica solitária e sobre o caminho de volta. Puseram o livro sob suspeita, afinal, ela ousou voltar e escrevê-lo, algo impensável para uma “esquisofrênica”. Em “Operators and Things”, Bárbara está numa estação de ônibus. As vozes (operadores, entidades persecutórias que desenham uma “grade” em seu cérebro e o manipulam como “coisa”, como nos “milagres” do presidente Schreber) ordenam-lhe que retire sua carteira de identidade da bolsa e a rasgue. Nesse momento, tudo fica escuro e o chão da estação ergue-se em direção a seu rosto. Bárbara passa seis meses viajando de ônibus pelos EUA e, já no final do “raptus” psicótico, sente que pode escrever à máquina sobre sua experiência... “É como se um pouco de praia seca voltasse após um tenebroso período de maré cheia...”
O cartunista de humor negro- Roland Topor- termina seu livro “O Inquilino” operando em seu personagem um duplo salto suicida da janela do prédio. Primeiro como seu duplo (a fantasia- Simone) e depois, alquebrado e sangrando por todo o corpo, como o próprio personagem (representado por Roman Polanski). Algo como não poder morrer por consignação; é preciso voltar da fantasia, nem que seja só para morrer.
Por aí se vê que as associações estão bastante livres e se retomo o indigesto Lacan é por estar intrigado com algumas contingências evocadas pela obra dele. Uma escritora como Hilda Hilst, para quem Deus é “... uma superfície de gelo ancorada no riso...” (segundo uma equação a que chegou um de seus personagens, Amós Keres, matemático) alguém assim, para quem toda a questão é uma questão de religiosidade (a da “Obscena Senhora D”, por exemplo) alguém que sofre as agruras de ver seu texto tido e havido como uma espécie de “tábua etrusca” (sic), tem verdadeira ojeriza ao tom frio, quase que maoísta de Lacan.
Pensando assim, que, de um Lacan autodificultado, não se tira frutos. É uma árvore seca que acaba por esterilizar as livre- associações. Haveria de se tornar, aqui, enquanto instrumento, apenas um breve artesanato de metonímias pluralizáveis, circulares e compulsivas, sem fim? Eis, então, uma história sem final pelos caminhos de uma crítica sem finalidade. História e crítica sem fim.

setembro 12, 2010

ILUSTRAÇÃO PARA ENSAIO PARTES I E II -De Chaleira

Por Alan Carline

{Acompanhe o ensaio sobre "A História sem Fim" (Michael Ende)" em 12 e 14/09 no blogue

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