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abril 21, 2010

UM BASEADO EM ASSIS [DO SÉC.RETRASADO]


“Tempo Virtual, Mate Real”
Por Marco A. de Araújo Bueno




Logo que percebeu como tratavam aquele que o aguardava na recepção disparou a tomar providências. Trataram-no por Senhor e se isso não era um código de segurança, era sinal para acionar dispositivos adicionais de etiqueta, protocolos de natureza diplomática. O Senhor que o aguardava não abriria mão de suas prerrogativas, das armas e brasões que o precediam. Mesmo sabendo da farsa daquele cerimonial.


Apresentou-se cordialmente, sentaram-se. Notou que o Senhor evitava o confronto visual e mantinha certa rigidez nos gestos; que não se apartava de seu caixilho 9.0, atrelado ao pulso, por um cordão metálico incrustado de minúsculos ornamentos verdes. – “Relíquias do auspicioso clã, Senhor? bonita peça!” , gracejou para quebrar a formalidade. Mas o Senhor respondeu que não, que se tratava de material explosivo.


Configurava-se uma situação de risco, agora sim, mas não tinha como apartar-se do ilustre visitante para os expedientes cabíveis; um “com sua licença, volto num instante” soaria como um “vou chamar a segurança”. Enxadristas vibrariam com a perspicácia resoluta daquele mate real já anunciado. A saída exigia compostura e raciocínio antecipatório.Uma varredura seletiva em seu repertório de alternativas afins.


Havia, para ganhar tempo, um recurso muito eficiente quando se tratava de representantes de aristocracias e portadores de mutações genéticas que potencializavam a estima pessoal e a vaidade. –“Esses caixilhos 9.0, Senhor, um grande privilégio prevalecer-se de dispositivos tais que permitam inibir nossos sensores, esses, também de última geração, que detectam roteadores de tempo real. O valor dessa máquina!”.


Afastando as mãos como se contornasse o caixilho, expressão mais relaxada no rosto, Senhor mordeu a isca, não sem antes desferir uma ofensa de natureza institucional: - “Seus sensores têm a vulnerabilidade típica das instâncias censoras, aguçam nosso ímpeto de desafiar, de descobrir as falhas do sistema...” A expressão não era de riso; era um esgar malicioso de quem já conta com os louros. Vitória por mérito...


Cintilava nos olhos de ambos um indelével desejo de astúcia, de reconhecimento meritório de astúcia de um – o Senhor -, que demandava aplausos da platéia entusiasta que julgava ter no outro, e deste outro que exalava um devir de sobrevivência e instigava: -“Em nossas idades-Terra, Senhor, meninos é que somos nessas circunstâncias, ávidos por imaginar proezas dessas engenhocas, ardemos de contentes!”.


Senhor, abrindo o painel do caixilho, exultava: -“E já que explodiremos juntos, mal me contenho em excitar sua imaginação: imagina o recurso que usei para enganar seus sensores”.-“ Não alcanço!”. –“Uma singela máscara de interface na área do relógio.”, e abriu o código fonte, inclinando o corpo para o exato quadrante coberto por uma das câmeras de vigilância. O outro ergueu os braços, solerte; -“Desenvolvedor!”


Ao erguer os braços, porém, a câmera registrou o dedo indicador direito apontando para o alto e o esquerdo para o painel do caixilho que escancarava o hackerismo, agora, detectado e desfeito com recuso tão singelo quanto o concebido pelo desenvolvedor – uma intervenção no relógio do sistema e subsistemas coadjuvantes tornava virtual toda a sequência do tempo transcorrido desde a chegada do Senhor...


Quando, já no final daquela troca de amenidades tecnológicas, algo nefasto apontava para o imponderável da missão do Senhor, este, lacrando seu caixilho, retesou-se e proferiu, solene: -“ Hora do fim, colega!”-“Ora, ora, temos tempo, Senhor, uma câmera flagrou e desabilitou a contagem. Para todos os efeitos, não tivemos este encontro porque o Senhor não entrou aqui. Prefere seu chá com leite? Seu avatar gosta?”

[ILUSTRAÇÃO POR ALAN CARLINE, DO BLOGUE COLETIVO 'DE CHALEIRA"]

SAIU NO DE CHALEIRA - O BLOGUE COLETIVO

Escrevi esse conto para a Stalker, baseado no eixo narrativo de um outro, dos anos 60!Não dos anos sessenta do século passado, é claro;a concepção que norteia o Projeto Portal é plasmada na prospecção, no futuro.Refiro-me ao século retrasado!O título dele - "Segunda Vida" - alude a virtualidades como "Second Life", avatares, errepeges. Futuro. Nem Futuro do Pretérito; Futuro premonitório, no campo da narrativa, da fantasia ficcional. Esculpido a Machado. Machado de Assis.Avancei no tempo para alcançá-lo e cheguei a este, baseado em Assis, o brucho que se defuntava na ficção, e voltava pra contar. O que conto ficou, assim também, cravado em minha coluna Brevidades do www.e-chaleira.blogspot.com e provocou um enorme silêncio...








“Tempo Virtual, Mate Real”




Logo que percebeu como tratavam aquele que o aguardava na recepção disparou a tomar providências. Trataram-no por Senhor e se isso não era um código de segurança, era sinal para acionar dispositivos adicionais de etiqueta, protocolos de natureza diplomática. O Senhor que o aguardava não abriria mão de suas prerrogativas, das armas e brasões que o precediam. Mesmo sabendo da farsa daquele cerimonial.
Apresentou-se cordialmente, sentaram-se. Notou que o Senhor evitava o confronto visual e mantinha certa rigidez nos gestos; que não se apartava de seu caixilho 9.0, atrelado ao pulso, por um cordão metálico incrustado de minúsculos ornamentos verdes. – “Relíquias do auspicioso clã, Senhor? bonita peça!” , gracejou para quebrar a formalidade. Mas o Senhor respondeu que não, que se tratava de material explosivo.
Configurava-se uma situação de risco, agora sim, mas não tinha como apartar-se do ilustre visitante para os expedientes cabíveis; um “com sua licença, volto num instante” soaria como um “vou chamar a segurança”. Enxadristas vibrariam com a perspicácia resoluta daquele mate real já anunciado. A saída exigia compostura e raciocínio antecipatório.Uma varredura seletiva em seu repertório de alternativas afins.
Havia, para ganhar tempo, um recurso muito eficiente quando se tratava de representantes de aristocracias e portadores de mutações genéticas que potencializavam a estima pessoal e a vaidade. –“Esses caixilhos 9.0, Senhor, um grande privilégio prevalecer-se de dispositivos tais que permitam inibir nossos sensores, esses, também de última geração, que detectam roteadores de tempo real. O valor dessa máquina!”.
Afastando as mãos como se contornasse o caixilho, expressão mais relaxada no rosto, Senhor mordeu a isca, não sem antes desferir uma ofensa de natureza institucional: - “Seus sensores têm a vulnerabilidade típica das instâncias censoras, aguçam nosso ímpeto de desafiar, de descobrir as falhas do sistema...” A expressão não era de riso; era um esgar malicioso de quem já conta com os louros. Vitória por mérito...
Cintilava nos olhos de ambos um indelével desejo de astúcia, de reconhecimento meritório de astúcia de um – o Senhor -, que demandava aplausos da platéia entusiasta que julgava ter no outro, e deste outro que exalava um devir de sobrevivência e instigava: -“Em nossas idades-Terra, Senhor, meninos é que somos nessas circunstâncias, ávidos por imaginar proezas dessas engenhocas, ardemos de contentes!”.
Senhor, abrindo o painel do caixilho, exultava: -“E já que explodiremos juntos, mal me contenho em excitar sua imaginação: imagina o recurso que usei para enganar seus sensores”.-“ Não alcanço!”. –“Uma singela máscara de interface na área do relógio.”, e abriu o código fonte, inclinando o corpo para o exato quadrante coberto por uma das câmeras de vigilância. O outro ergueu os braços, solerte; -“Desenvolvedor!”
Ao erguer os braços, porém, a câmera registrou o dedo indicador direito apontando para o alto e o esquerdo para o painel do caixilho que escancarava o hackerismo, agora, detectado e desfeito com recuso tão singelo quanto o concebido pelo desenvolvedor – uma intervenção no relógio do sistema e subsistemas coadjuvantes tornava virtual toda a sequência do tempo transcorrido desde a chegada do Senhor...
Quando, já no final daquela troca de amenidades tecnológicas, algo nefasto apontava para o imponderável da missão do Senhor, este, lacrando seu caixilho, retesou-se e proferiu, solene: -“ Hora do fim, colega!”-“Ora, ora, temos tempo, Senhor, uma câmera flagrou e desabilitou a contagem. Para todos os efeitos, não tivemos este encontro porque o Senhor não entrou aqui. Prefere seu chá com leite? Seu avatar gosta?”

abril 01, 2010

LACAN, J.FORBES MINHA QUESTÂO SOBRE O 'REAL" NA SEGUNDA CLÍNICA

"Sábios nos encantam e estúpidos nos cansam. Os meios digitais apenas ampliaram o poder de ambos mas a escolha de quem ouvir ainda é nossa"(Jorge Forbes em "Jacques Lacan e a psicanálise do século XXI", transmitido ao vivo pela internet pela cpfl, com o Dr. Marco Antonio no ar)

http://www.cpflcultura.com.br/video/integra-jacques-lacan-e-psicanalise-do-seculo-xxi-jorge-forbes [Entre os 101 e os 107 minutos finais, reservados às perguntas ao conferencista]

Este post buscar colocar em relevo um ponto crucial na Segunda Clínica de Jacques Lacan onde, ao contrário do que afirmava antes sobre o Registro do Real (que 'não tem fissuras', seria inapreensível, exceto pela experiência do psicótico, 'foracluído' da órdem simbólica, coextensiva à linguagem), vem a confirmar que (...) 'Há furos no Real", em seu Seminário XXVII - "Sinthome".
Minha questão ao colega Jorge Forbes alude à idéia de Epifania (tal como é posta por Joyce, no sentido laico) e incorpa a argumentação de minha tese de doutorado "Brevidade e Epifania na Micronarrativa Contemporânea" (Unicamp/2008)

março 23, 2010

HOLOGRAMA (Um Prosimetrum sci-fi)

“Holograma”




Com seus parcos recursos, morando distante dos Núcleos de Segurança, aquele colapso da energia desconfigurou-lhe em sua noção de pertença, de conexão mínima com os seres de qualquer natureza. Prudência, Mitcei!, ruminava. Sensação de cessação...
Dos medos, o da putrefação de suas provisões, parcas, e dos micro-organismos morais que o assaltariam, puntiformes ou em bloco, precavia-se com algas e mantras. Plantou em si alguma ira. Medo e raiva que se excluíssem mutuamente. Dormiu.
O que o despertou de um sono branco foi a barulheira do silêncio. Um silêncio geométrico e pantanoso conspirava por onde quer que a vista tocasse. E que o tocava também; pupilas dilatadas, turbulência circulatória – serpentário virtual, onipresente.
Tempo e silêncio, este binômio do luxo e privilégio de castas predatórias, pois sim, mas Mitcei sabia que a falta deste era suportável pela impossibilidade daquele.Acuado, viu-se refletindo como filósofo. Refletir, agora, – outro luxo. Agir, sim.
Refazer o trajeto civilizatório, recuperar tecnologias – agir com as mãos, esculpir objetos! Então, reaver imagens que confirmassem sua condição humana, de civilidade, ainda que parca, porque ele era assim recluso, refratário aos elos civilizados.
Usou resina antiga para moldar uma dançarina com espátula – ei-la! Tosca, porém – tangível, direto de sua imaginação sedentarizada. Mitcei apelidou-a: Altamira. Arriscou-se a capturar algo de Sol, na falta do laser, e da reconstrução do campo óptico dentro de um cilindro surgiu a holografia de Altamira, posta em pedestal. Não se movia, não dançava a dançarina; caberia a ele orbitar à volta dela, recitando os mantras que ela lhe inspirasse, oscilante como os feixes de luz solar. Teve alucinações; pensou ouvi-la recitar.
Às vezes pensava no seu tarefário, no tudo que deixara de fazer. Prudência, homem! E desabava soterrado pelo dever de fazer, de plantar. Por quanto tempo essa inflação de tempo? E cessada a cessação, que outra sensação?
Masturba-se às vezes, noutras, deambulava a esmo pelo iglu que recobriu de lã sintética. Às vezes, apavorado e desnutrido, esbarrava em vultos. Por onde teriam violado seu recanto? Teriam descoberto Altamira? Altamira sequestrada, dessacralizada?
Armou-se, inflamou a ira para neutralizar o medo. Altamira suplicou-lhe proteção, já não mais recitava nunca! Retirou-a do cilindro, destruiu o pedestal e o campo óptico. Envolta em celofane, pensava ouvi-la sussurrando, como se privada dos sentidos.
A espessura daquele silêncio...O espectro da insanidade. Quanto tempo dura uma privação assim? Um fenômeno global? Dariam falta dele, o Mitcei refratário, recluso?Saberiam da tutela de Altamira que sussurrava entre suas luvas congeladas? O fim?
Uma draga que percorria a região pousou à distância segura. Pandemia de malária, nômades revoltosos, vazamento radioativo...sabe-se lá. Do interior do sítio, murmúrios indecifráveis. Alguém registrou (à margem): “Assemelha-se à cantiga de ninar”.

{Publicado originalmente em Portal Stalker, ed, esgotada e no blogue coletivo www.e-chaleira.blogspot.com em minha coluna Brevidades}

março 05, 2010

FRAGMENTÁLIA - A Genitália do Fragmento [Coluna do blogue DE CHALEIRA]

FRAGMENTO TEÓRICO I
Por Marco A. de Araújo Bueno


Prezados Senhores: Universidade Harvard, Camdridge, Mass, conferências Norton, ano letivo de 1985-1986, em meio às considerações sobre a rapidez, Ítalo Calvino refere-se a Borges e Bioy Casares, assim: - “(...) organizaram uma antologia de Histórias breves e extraordinárias. De minha parte, gostaria de organizar uma coleção de histórias de uma só frase, ou de uma linha apenas, se possível. Mas até agora não encontrei nenhuma que supere a do escritor guatemalteco Augusto Monterroso: Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí [Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá]”. Eram as “Seis propostas para o novo milênio”, das quais, a última, Calvino levou consigo; sua morte interrompera conjecturas preciosas sobre a narrativa. Um limite, limite que excitaria a imaginação de escritores e leitores, estes seres que protagonizam a angústia da escrita (face às escolhas a que os obriga) ou a ela submetem-se de alguma forma (face à interpelação suscitada) neste peculiar processo de abertura ao infinito das imaginações.Todo este processo, tributário das condições basilares da existência do animal da fala: sua finitude e sua inserção nos “bosques da ficção” no caso e no reino do simbólico, no geral. A propósito, com esta metáfora do bosque, Umberto Eco intitula suas seis conferências de Norton, ano letivo de 1994, recobrindo a “literatura-bosque”, a homenagem ao amigo falecido e a questão, aqui fundamental, da presença do leitor na história narrada. Trata-se, portanto, aqui, de um estudo que tematiza o efeito da escrita, muito especialmente, de uma modalidade de escrita – a interrompida, esta que é deliberadamente sustada para suscitar um efeito no leitor. Epifania - assim tratarei da idéia de efeito; narrativas monofrásicas tecidas com dez palavras - assim consignarei metodologicamente, a guisa de ilustração das possibilidades de tessitura de peças narrativas brevíssimas, o desejo expresso por Calvino, no bojo da hipermodernidade, tal como a descreve o filósofo francês Gilles Lipovetsky; em pleno novo milênio. Calvino dizia que sua obra “(...) se compõe em sua maior parte de short stories”; segundo ele, questão de “temperamento” pessoal. Há, quanto à extensão, evidências de que a prosa literária vem rendendo-se a um processo de redução formal ao longo do tempo. Neste início de milênio o termo usado por Calvino para definir sua predileção pela brevidade não se aplica ao seu próprio “As Cidades Invisíveis”, com a mesma concepção com que se aplica à idéia de conto. E ainda que brotado no século XIX, com certidão de nascimento estadunidense, traz consigo um entusiasta defensor, prescritivo, já em 1847(escrevendo sobre os contos de N. Hawtorne) de cânones que rejeitam o “juízo nefasto de que a simples extensão de uma obra deva pesar na estimação de seus méritos”. Seu nome – Edgar Allan Poe; Suas propostas ponderavam a ‘aparição’ das revistas, dos jornais, a dimensionarem a percepção literária face ao progresso dos novos tempos. O presente estudo o convoca, oportunamente.
Até o próximo domingo;

DROPS TEÓRICOS : "UNO DECÁLOGO"

Por ( pequeno suspense metodológico...)

En el “Decálogo del escritor” de Monterroso, incluido en su libro Lo demás es silencio (1978), se reconoce la referencia metatextual del Decálogo del perfecto cuentista de Horacio Quiroga (1925), y la referencia architextual de los doce mandamientos de la Ley de Dios. A toda esta fábrica de intertextualidades se suman “Los diez mandamientos del escritor”, microcuento del uruguayo Fernando Aínsa. {De livro e autor que oportunamente citerei; sintam um pouco da rarefação teórica sobre o gênero. Menos é mais, mais ralação!}


1.-Te amarás a ti mismo sobre todas las cosas.
(Amarás a si mesmo acima de todas as coisas.)

2.- No mencionarás el nombre de Borges en vano.
(Não mencionarás o nome de Borges em vão.)

3.- Seis días descansarás y uno escribirás.
(Seis dias descansarás e um escreverás.)

4.- Te inventarás tu propia filiación literaria.
(Inventarás sua própria filiação literária.)

5.- Si cometes parricidio generacional, será con pudor y disimulo.
(Se cometer parricídio generacional, será com pudor e disfarse.)

6.- No seducirás a la poetisa en busca de prólogo.
(Não seduzirás a poetisa em busca de prólogo.)

7.- No robarás las metáforas del poeta inédito.
(Não roubarás as metáforas do poeta inédito.)
8.- No llamarás palimpsesto intertextual a la simple copia banal.
(Não chamarás de palimpsesto intertextual a simples cópia banal.)

9.- No desearás el éxito de ventas del prójimo escritor.
(Não desejarás o sucesso de vendas de escritor algum.)

10.- No eliminarás las comillas de las citas ajenas.
(Não eliminarás as aspas das citações alheias.)

fevereiro 02, 2010

"A FILA" - Conto lido pelo prof. F.Ficomeno All'Gollen - no blogue coletivo De Chaleira

É questão de prosódia. E de efeito estranhamento (ostraniênie); Eis o link:




No mais, é entrar no www.e-chaleira.blogspot.com que anda consumindo todo meu tempo.Recomento a visita ao blogue Miopia, do Guilherme Salla. Ele sim teve o devido capricho ao descrever o que anda fervendo no De Chaleira.
Ainda assim, tal a velocidade de eventos estéticos por lá, no coletivo, que não deu tempo de acrescentar o escritor Eustáquio Gomes, agora colunista...Crônicas, literárias.
Sintomático isso,´porém - avisos: dia 11/02 agora, entrevista minha ao D'Ambrósio da Rádio Unesp FM . Será perto das 19:00. Pedi que pautasse a questão da especificidade do que seja o 'coletivo' na blogosfera.
Com mais,

janeiro 28, 2010

"SOBRE A EXPLOSÃO NA 'E.H.M."- DESDOBRAMENTOS"

“Sobre a Explosão na “E.H.M.”– Desdobramentos”

Por Marco Antônio de Araújo Bueno


Chamarem de “requentado” esse assunto do acidente ocorrido na “Escola Hibris Mundial”, sinceramente, pouco me importa. Certo ímpeto de humor negro, ao contrário, já me impele a qualificá-lo de “chamuscado” – isso sim –, e me explico: houve, tem havido e é de se esperar que se alastrem desdobramentos tão funestos, que fariam corar toda a corja de “notáveis”, cuja honorabilidade canhestra, hoje, é matéria para carvoeiros: as labaredas destroçaram o arcabouço físico do campus, mas – capricho dos deuses - pouparam a alminha sacana que animava seu extemporâneo prestígio mundial. Toneladas de gigabytes sobreviveram junto aos detritos e eu, envolvido que me achava na ocasião e na condição de vítima sobrevivente, transformá-las-ei em caprichosa história recente valendo-me (que me chamem de posmodernista, pouco se me dá) até dos arcaísmos, das obsolescências mesoclíticas e de todo ferro velho vernacular que lhes provoquem “espécie”.
Pois até do século II ªh. (e que a própria hecatombe não fez submergir) extraí uma expressão belezera que bem qualifica a condição de indigência ética da Escola – “tempos do onça”. Que não me perquiram sobre a etimologia, mas é certo que alude ao anedótico como registro da velha cultura de massas. A “E.H.M” com seus campi espalhados pelo mundo reformado é uma instituição dos tempos do onça, uma ágora estéril e sem estilo, convalescendo de agorafobia (termo que tomo à “P^p” – psiquiatrizações classificatórias pós-cartolagem laboratorial, também do referido século II) e osteoporose pragmática (ossatura conceitual carcomida pela porosidade das investidas multidisciplinares da época). Pois bem, que me inquiram, agora sim - e o que fazia um profissional de linguagem geral perambulando por aquelas bucólicas pastagens no momento em que houve a tal explosão? “Macacos me mordam!”, exclamaria qualquer daqueles ascetas pálidos – Quem é que cora, agora? Onde estavam minhas fidelidades?
Sem constrangimentos (explico depois) de qualquer natureza, apenas um tanto quanto deslocado da ambiência exótica, eu portava um caixilho básico (sou usuário) contendo minha Proposta Reformática Contributiva I, ainda sub-graduada para efeito de renovação de passaporte aos confins do Continente de Suporte – Área 35. Algo suspeito? É que nem imaginam o que andam fazendo profissionais de linguagem geral (os “plg-beta) para quitarem seus créditos junto ao Departamento de Desertificação....Não tinha que me envergonhar; era apenas trocar meu uniforme, tomar as vacinas e uma boa dose de humor sintético, desses genéricos mesmo, de acordo com o poder aquisitivo do meu soldo e o da parteira que me sustentava nesta idade pré-produtiva. E minha idéia era boa: no âmbito contributivo da Sustentabilização, de forma meio difusa, estava subclassificada junto aos biodigestores. Munido de artifícios retóricos de ponta, com muita elegância no jargão e algum cinismo de praxe, lá estava eu com um assuntoso arsenal teórico que se justificava.
Tratava-se da pertinência corporativa, na gestão de dados catalogáveis de amplo espectro, de um aparato catalisador de reciclagem que batizei com toda a pompa de “Biodigestor Cognoscitivo na Assepsia de Dejetos Simbólicos”. Muita parcimônia nos gastos e muitos, muitos elétrons de pura ironia recoberta de retórica de confeiteiro, como concluiu, tácita e afetiva, minha rigorosa parteira. O problema físico das agências de dados, suas instalações nos “currais” dos campi ( só recentemente informatizados “em Declive Ótimo”), já estava equacionado. Como comprimir o material cognitivo residual, menor que fosse, sem por em risco o substrato canônico? Eis minha problematização: um reator de baixo custo aliado a filtro operativo, de tipo isonômico e redutor de ambivalências, baixo capital humano, etc., etc., ora – não era tudo o que desejavam os doutos reitores dos últimos feudos acadêmicos, para“otimizarem” armazenagem?Micro-silos ideativos?
“Tens o básico para propor ao que se requer para o próximo “Examem Sazonalis”, mas cabe adverti-lo – é matéria explosiva! Assim vaticinou minha parteira, prudente e flexível –“(...) terreno minado por veleidades, latinidades... vanitas..., cochichava-me. Mas é sítio perfeito para linguagem. E linguagem explode, esqueceu-se?” Não, estava aí a poética da empreitada e eu tinha sorte de contar com o respaldo de uma neopreceptora ágil que, embora sabendo das propriedades de auto-detecção de paradoxos embutida no meu biodigestor de idéias, houve por bem chancelar a empreitada; talvez por flertar, tímida, com paradoxos, inclusive os de prosódia, o que muito me divertia. A metodologia era automática, bastava acionar o programa. Problemas de revisão conceitual contornados, carente de passaporte, voluntarioso típico do pré-produtivo...parti. Eu e meu caixilho básico com o necessário-suficiente, mais a mais que suficiente pulsão de provocar reações.
Cheguei por água ao local, no meu continente mesmo –Área 12, o que me poupou gastos (não contava com Moedagem) e proficiência em Língua Uni-local; tanto que me distraía com as pernas longas da organizadora bem fornida ao perceber que me restava apenas uma cadeira vazia, e descobri o porquê: havia um teatro de arena em cima do local, como pingüim sobre uma geladeira; o posto onde me sentei arqueava-me os ombros sob um dos lances da arquibancada do teatro; o peso do mundo greco-romano em meu trapézio, nos dois – o Átila corcunda – eu, sem minha parteira, trapezista por pressão; nada parturiente de idéias...optei pelo humor, de cuja pílula, potencializada pelo hormônio do estresse, brotou uma impagável introdução: “A massa da produção cultural do antigo Ocidente não passava, para Sigmund Freud (séc. II) do que este associava à produção fecal, via processo simbólico denominado “Sublimação”. Muito do que um biodigestor POUBLOOMn.



Muito se obrou no período e não havia cisterna bacteriologicamente funcional que operasse como um biodigestor de toda PLOBOWNNMMMMMMnnnnnuffffffffBLAHHH (a explosão!) AQUELA M. ERDA-----MERDA, TEM GENTE FERIDA AQUI TEM GENTE MORTA QUE MERDA É ESSA SEM TUMULTO POR AQUI SEM PASSAGEM ESSA PORRA É CALCÁRIO E GESSO SÓ E MAIS AS VIGAS E TRELIÇAS DESPENCANDO MERDA FOI FAÍSCA IRÔNICA QUE CAUSOU PROTEJAM SUAS CABEÇAS AS CABEÇAS MERDA PROTEJAM PROTEJAM SUAS CABEÇAS TODO MUNDO NO SOLO PROTEJAM OLHOS SEUS OLHOS E CABEÇAS TODO MUNDO CALADO PRA OUVIR FERIDOS GENTE MORTA AQUI ESTE AQUI MORREU{...}Protejam cabeças olhos no solo sem pisar cabeças sem massacrar merda merdaVOU RASGAR AQUI..Desdobramentos? Explico depois...

ILUSTRAÇÂO PARA "SOBRE A EXPLOSÃO..."


janeiro 12, 2010

FIM DA CONEXÃO PAULISTA D'O BULE"!

Perplexo com a deslealdade de um intrahakerismo em texto meu (fundamento do blogue coletivo), ontem, 17:10, retiro-me com minhas postagens (e respectivos comentários de leitores, pelo que me desculpo)desse blogue que alcançou, em dez dias de vida, mais de setenta seguidores, além de propiciar uma verdadeira sabatina pela imprensa escrita (pelo crítico João Nunes, do Caderno C do Correio Popular de Campinas-SP)no que fui seguido pelos colegas Maurício de Almeida (escritor) e Alan Queiroz (artista plástico).Publicarei aqui o conto "Sem Nome" previsto para o próximo número do Projeto Portal.Retornaremos arrastando talentos forjados nos encontros do Sesc, com prosadores, memorialistas, poetas, haikaístas, microcontistas e quejandos da Revista Roda*, breve, muito breve, fotalelecido nas minhas Brevidades literárias. Desconsiderem enlaçes quaisquer de textos meus com o que restou d'O Bule" (Carlos Abreu - sua laboriosa sugestão de nome tãmágico ficou pelo caminho, desencantada; sei que compreenderá), no twetter d'Bule, nos 'restícios' requentados no natimorto blogue coletivo.
Fervido 2010, pois não?!

dezembro 02, 2009

RESENHAS? Existem sim - Lépida, abarcante e lúcida, esta:

P R O J E T O P O R T A L B L O G F E E D
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
RESENHA AO STALKER POR Daniel Serrano-do PQP

FONTE: www.postoqueposto.blogspot.com
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Sobre Portal Stalker


Portal Stalker é uma revista literária; dedica-se à ficção científica e é o terceiro número (são seis previstos) de projeto do escritor Nelson de Oliveira, que tem se mostrado excelente agregador de bons escritores. A Portal Neuromancer, hão alguns de lembrar, passou por aqui em resenha, há já quase um ano. Para o número novo, algumas considerações: bem mudado vem o time de escritores — Portal Stalker atua com elenco justo de onze. Dos que tinham disputado o outro torneio, é de se reconhecer que mantiveram a forma. Roberto de Sousa Causo, Marco Antônio de Araújo Bueno, Tiago Araújo e Luiz Bras não só mantêm firme a bola ao pé como arriscam novos dribles, sem que com isso saiam a equilibrar-se em altos saltos, coisa de contrário tão comum no futebol, irmão rico da literatura. É ainda certo que põe-se um time sempre novo, à busca de coisa nova que lhe dê brilho aos espetáculos. Entram aí fortes as estréias: Sérgio Tavares, Brontops e Ivan Hegenberg, presenças-mais-que-preciosas nesse penetrar ofensivo à língua. Desses, afinal os que mais gostaram a este confuso resenhista, fazem-se breves comentários.




Roberto de Sousa Causo
Ágil seu conto O novo protótipo — preciso nos cortes do texto. O início vai a levar o leitor, até que se anuncia, como a negar pirulito: “Gostava do bairro. Seria bom morar nele, mas ela estava ali para matar um homem”. E aí está-se dentro. A narrativa consegue envolver e curiosos são os experimentos de vocabulário, que têm no colocar-junto de duas palavras ordinárias o efeito grandioso: metrômaglev, lixôrganico, foramundo.


Sérgio Tavares
Sagrado é assustador e realíssimo. Grande empresa de marketing, de mercado, toda a organizar mega-evento religioso. Há no narrador um distanciamento como que obrigatório, mas também uma ânsia de envolvimento. Quer pôr-se longe e para isso indica “procurar bibliografia em MKULTRA, ARTICHOKE, BLUEBIRD, MKDELTA, MKNAOMI e outros”, além de cuidar da precisão, indicando numericamente velocidades médias e acelerações. Mas deixa-se levar, enchem-se seus olhos com o “espetáculo de chamas e choro” e chega a desabafar: “Por fim me perguntou se, para mim, filho da puta, havia algo realmente sagrado". Incorpora humor, e aí tem-me um ponto.


Brontops
Na vista ampla, o tema é batido: fim do mundo. Mas chega a ser triunfal a saída que lhe encontra em Kripton. Sem também deixar tombar o humor, sai-se muito bem com o conto {Os quereres}, verdadeira ode ao acaso em tempos (estes e os que provavelmente vêm) de controle de variáveis. Dá no que dá — o verdadeiro apocalipse é o que se vive, ou se viveu, o que aliás lhe tira o tom dramático, embora não tanto. Trata disso seu terceiro gol na revista, sob o longo título Buraco no céu ou 22 de dezembro de 2012.


Marco Antônio de Araújo Bueno
É o do esquema tático. Atenção para a composição muito pouco casual dos parágrafos, em números de linhas. No fantástico Holograma, 4/4/4/4/4/8/4/4/4/4/4; ajuda-nos a subir a montanha e depois tomba-nos de lá, carinhosamente. As frases são curtas, rápidas, tomam da poesia certo paralelismo, metrirritmando a prosa. Também assim são Tempo virtual, mate real e Nonsensal. Wharia avariada, cativante já no título, é tripartido: I, II, III. Atos-corte, fissuras no espaço-tempo, com costura precisa, enxuta.


Tiago Araújo
Quando anuncia “Os quatro ou cinco centímetros de espessura — dependendo da vontade do casal”, suspendendo a função da medida, Tiago Araújo me tira um riso do lábio. E segue assim ao levar-nos por seus três contos [Artigo 15.720 (Provisório), Artigo 16.831 (Translúcido) e Artigo 20.053 (Revelação)], sempre a jogar com o dúbio e esticar, suspender. Das boas lições, uma delas é um verdadeiro manual para a sobrevivência dos relacionamentos conjugais.


Luiz Bras
Volta e volta com suas perseguições. Tem-se a missão, sai-se a cumpri-la, queimam-se arquivos. Gostoso mesmo é o jeito por que nos leva a história, em lances de engano e enganação. Singularidade nua é um dos mais longos da revista, mas tanto se sustenta que flutua; atrito, mesmo, só tomado por boa coisa — atrito de faísca.


Ivan Hegenberg
O personagem de seu Esquizóide está confuso, mas confunde-nos ao notar-se personagem. Não se sabe “at home” ou “at Rome”, nem se Júlio César é Jesus Cristo. Nem importa; o conto dá margem a algumas das mais criativas brincadeiras de linguagem da revista: “Um ou vários vírus. Vèro. Vi, vi, vi, vi, vi, vrrrrrrrrrrrrrrr...” ou “Tróia dos portos dos fortes das troças trapaças...”. Mas confuso, em verdade, é o que não está o personagem. Ou não será isto sinal de lucidez: “Será isso o que se passa comigo? Não um experimento científico, mas um experimento artístico?”