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março 06, 2007

"A Fila"_ Conto breve(500 palavras)INÉDITO_Para coluna "CO

“A Fila”

Por Marco Antônio de Araújo Bueno

Não lhe causou estranhamento algum quando, já na entrada daquele pátio, topou de cara com a tabuleta bem postada, solene, onde se lia: “A FILA”. Em caixa alta, sem serifas, preto sobre o branco e bem à altura da vista. A lucidez com que se impunha excluía e conclamava a presença de uma crase, isso sim, seria de se estranhar? Ao contrário, era quase uma condição, uma essência mesmo da placa, essa simultaneidade. A caminho, no entanto, lembrou-se ter lido “FUNERÁRIA” onde seria mais crível que, pelo recorte urbano do local, pela vizinhança típica, lá estivesse escrito “FUNILARIA”. Mas este petisco caprichoso, já o reservara ao analista, até por uma questão de comodidade, ou de resistência. Não era o caso desta placa. O máximo que ela permitia era conjecturar se teria faltado um ponto de exclamação ou, algo mais sutil – se, por decoro de se evitar um imperativo grosseiro, autoritário, suprimiram elegantemente um “RESPEITE A FILA!”. E era essa condição que impunha respeito.
Tudo isso lhe infundia uma espécie de esperança vaga, de crença em valores substantivos, de confiança pela confiança; acelerou a marcha e perfilou-se aos demais. Não eram muitos, os demais. Silhuetas discretas, deslocamento proporcional aos espaços sucessivamente desocupados pelo atendimento. Pessoas, como ele, ali, na fila. Dispunha de um dispositivo contra o enfado, conversa mole, mas, sobretudo, contra a timidez incorrigível. Era um livrinho em formato seis por cinco que cabia em qualquer canto de bolso, paginação confortável e à prova de olhares bisbilhoteiros. “Padre Antônio Vieira”, uma antologia...viria a calhar; apalpou e, pela espessura percebeu o engano; era um Hamlet cuja impressão, de tão nítida, dava para ler até nos vagões do metrô e, até por isso, ele o reservara para o crepúsculo.
Decepcionado, enfiou as mãos pelo bolso e resignou-se a sua corporeidade perfilada aos demais. Foi então que se instalou um certo caos no recato daquela espera ordenada. Um homem deixou a fila e, ajeitando pasta e capacete pelos braços aproximou-se, agachou-se e ergueu do chão um retângulo de plástico cinza.- “Esta senha é sua, não?” Sim, era dele, escapou do bolso onde guardava o William Shakespeare das horas crepusculares. – “Melhor ficar esperto pra quando a fila bifurcar”, asseverou, num tom de voz sinistro, em baixo profundo e olhando furtivamente para os lados e para cima, em direção ao começo da fila. – “Obrigado, mas que bifurcação é essa?” Olhou para o edifício à frente, era térreo, não havia razão para olhar para cima.
O caos se instalou por uma razão singela e contra cuja obviedade, a menor inobservância parecia implicar em afronta grave. Tinha alguma relação com as senhas e aceitar que a cor da senha determinasse a bifurcação parecia tão consensual aos demais, que apenas uma leve indagação sobre sua razão de ser, soava como um libelo. E tornava o perfilado um contraventor.
- “A minha, senhor, eu sei que é branca. Quando bifurcar lá na frente eu sei pra onde devo me dirigir. E a sua que eu vi que é cinza vai tomar outro destino. Fica mais atento que ninguém aqui é ingênuo nem palhaço!”.
- “Bom, já que” branco “não é cor, deve ter senha preta também...”.
- “Tem sim senhor, mas ninguém viu cair de bolso nenhum!”.
- “Deve ser porque não tem destino nenhum!”

fevereiro 14, 2007

Aniversário de um poema de oficina literária_Cartoom como mote e contra o tempo (20')


.POEMA DESTAQUE DA SEMANA – VENCEDOR Já saiu o vencedor do evento ‘Poema Destaque da Semana’, versão ‘NaturezaPoética’, para o período de 12 a 25.02.07. O poema vencedor foi: ‘Aquele Cuja Fome Espera’, de Marco Antônio de AraújoBueno. Venham conferir e oferecer suas congratulações ao autor. Para tanto, acessem osseguintes endereços:
Natureza Poética:http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=15283065&tid=2511438818051658914&na=4
Blog:http://gritosverticaisdanaturezapoetica.blogspot.com
Um abraço a todos!
Ass.:OS MODERADORES..


Moderadores: .PARABÉNS, MARCO ANTÔNIO... mais uma vez sua poesia saiu vencedora do evento 'POEMA DESTAQUE DA SEMANA', agora na versão ‘Natureza Poética’, para o período de 12 a 25.02.07.Venha conferir a postagem destacada de seu poema, ler comentários e receber as merecidas congratulações, acessando os seguintes endereços:Natureza Poética:http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=15283065&tid=2511438818051658914&na=4
Blog:http://gritosverticaisdanaturezapoetica.blogspot.com
Um abraço, Poeta!
Ass.:OS MODERADORES.
AQUELE CUJA FOME ESPERA
(Marco Antônio de Araújo Bueno).

Aquele cuja fome espera
A fome que estará saciada
No outro, enquanto este, quimera,
Padece de fome engaiolada...

E, se o que sacia a fome está, sempre
Apenas onde nós a pomos,
Pra que enraizar felina fome
Entre patas caninas e alpiste sem nome!?


E se, então, surgir a liberdade
Que desmoronasse a espera em cadeia
E desencadeasse uma fome dual?!


Libertos estariam, um para o outro,
E, ambos, para a saciedade
Ou para uma liberdade de esfomear-se da falta...



posted by Rita Costa & André L. Soares

{Vide comentário postado no wwwaraujobueno.blogspot.com para compreender as circunstâncias
que marcaram a construção do poema e o marcaram como emblemático de uma demarcação diante
da literatura}

dezembro 28, 2006

Ilustração:personagem-narrador- ornitólogo- Conto:"Hora e Vez da Pardoca"

"Butaão & Lullismo"_crônica Janeiro/2007

“Butão & Lullismo”

Por Marco Antônio de Araújo Bueno

Pensava no Butão, no Reino do Butão a sete mil metros de altitude, lá nos Himalaias do oriente, entre a China e a Índia, sem mar algum. Você pensou num montão de homofonias, é razoável. Inda mais assim, aproximado de um “ismo” tão recorrente presidindo correntes de idéias, associações de pensamentos e atitudes, essas coisas todas. Mas o “butão” aqui não é de se apertar como num controle remoto e implodir o eixo da Economia, tal como se imaginava com a “bomba”, nos tempos da guerra fria.
Mas vamos indo com calma, uma calma quase tibetana para lembrar que houve um mestre de capela, um compositor, nos tempos de Luis XIV e sua corte e as danças instrumentais de então, até porque, em nossa macroeconomia, não se dançou conforme a música, tenha sido qual for no tempo recente. O nome dele – Lully –, seus seguidores – “lullistas”. Eis o que torna razoável alguma confusão, esta que já vai parando por aqui. Mesmo tendo em conta que as danças que Lully “inventou” para a abertura de suas óperas, aí sim, eram tão populares como as cantigas de rua do século dezoito.
E daí? Daí que, durante toda a Idade Média e até mais adiante, já no período renascentista, as danças eram a única forma de música instrumental e os instrumentistas que acompanhavam os dançarinos eram “classificados” como músicos do povo, meio “desincluídos” da categoria de “grandes” músicos. Então, se era em inclusão que pensava (e, convenhamos, só pode haver inclusão se houver inclusão na Economia, com toda essa conversinha de “respeito às diferenças, etc.), então voltamos ao Butão e pronto.
No Reino do Dragão, como é chamado, instituiu-se, a exemplo do “IDH” (Índice de Desenvolvimento Humano) enquanto baliza da saúde econômica de um povo, pois lá se inventou o “Índice de Felicidade”. E nem por isso deixaram de incorporar a ele o carcomido “PIB” e outros indicadores econômicos. Soa como música, pois não?
Agora veja você, aliás, esqueça o “veja” – ouça você no que deu toda a movimentação fervorosa dos alunos e seguidores de Lully: deu nesse gênero a que se chama “suíte para orquestra”, o mais livre e mais aberto da música barroca; coisa sofisticada, difundida pelos franceses em toda a Europa até chegar à matemática musical de um J.S.Bach! À harmoniosa depuração da alegria dos sentidos e não há neurocientista honesto que o possa refutar.
Claro que as pessoas do século dezoito não dançavam ao som das suítes instrumentais, mas o gênero suíte para orquestra conservou a medieval função recreativa da música de dança e, curioso: de tão utilizada como música de fundo em suntuosos banquetes, passa a se chamar, na Alemanha, Tafelmusik que quer dizer, saberia você? Quer dizer exatamente “música de mesa”.
Mais do que há dez ou quinze anos atrás, se nos impõe agora uma pergunta; mais que isso, - um questionamento - aquele que se tornou, a nós, bem pertinente, e justo pela via musical: - “Você tem fome de que?”.
A propósito, a ceia no seio da sua família...Que ceia?
E isso de “inclusão”...Que seio?
E “que família?”, perguntaria. Não.
Não perguntaria
Que algo de Butão “seja aqui”, antes que aquele deserto enorme alcance a China. Se é que você acompanhou o raciocínio sobre o “lullismo” e não andou comendo algum “L” por distração...Ou pelo hábito, anti-lullista, de “ligar o botão do f...-se” para tudo que não lhe invada a soleira da porta ou lhe ameace de morrer de sede.

novembro 29, 2006

Deslizar e tocar

Conto: "Transcurso de Vida" (inédito)

“Transcurso de Vida”

Por Marco Antônio de Araújo Bueno


Ninguém aqui pense que é fácil contar o que se deu com o patureba nesta parte do sudeste. Porque também no nordeste de Minas, no sul da Bahia e mesmo dentro dos lares dele, pouco se sabe do que lhe ia pela cabeça. Eu palpito aqui e ali, já que sou escrevente de relatório pra alto escalão, diretoria, gerências; inda assim, mudo o que conto toda vez que somo palpites, acolho as divergências e recheio a argamassa do contado. Dou fé e passo adiante, peneirando muito fino tudo que tem de exagero quando um depoente já vai alto de água forte. É assunto delicado por demais, mexe com o brio de muita mulher correta e pode arranhar a sina de muita criança de origem incerta. Não tem preto no branco no caso dele, não tem registro escrito pra confiar, pra ser oficial. Quem quer remexer a alma de um homem boa praça, cumpridor de pendências com filhos e mães? E trabalhador muito competente em montagem industrial! Muito menos eu, que não conto dele por contar, mas para proteger a honra dele, apesar dos apesares. O principal, que era um peão de trecho e constituía lares. Que joguem a primeira pedra num peão de trecho sempre alegre e muito atencioso, carinhoso de verdade com filho daqui e dali, não importava a geografia nem quem pariu quem. A religião mesmo era o trabalho e, pra trabalhar sossegado tinha uma só condição: fim da jornada, carecia voltar pra casa direitinho, com mulher certa, filhos e domicílio certo. Disso dou fé.
Disse que não conto por contar. Conto por causa do ilícito maior que o patureba fez, sem querer, que não tinha índole, ou querendo, meio distraído; pudera, tanto cachorro diferente pra dar resto, tanto menino birrento, mulher apegada, caixa de correio, presentinho pra cima e pra baixo e catuaba que dispensava... não tem soldador que remende uns mal feitos, mas fora do trabalho, isso é certo, que eu mesmo nunca trombei com ocorrência oficial dele. Confusão da grande, preguiça de pensar diferente com gente desigual. Não estou pra julgar nem pra intimar concidadão fora do operacional, na alma da noite da vida que leva, lá no aconchego dos seus, no caso dele, dos muitos dele. Natural que vivesse apurado, mas não justifica o ilícito que me da razão de contar e de contar direito. Só isso pra retificar, que todo o resto muda. Muda de juiz pra juiz e de comarca pra comarca. Até o que conto muda e segue mudando pra fazer jus, e toda essa alteração, mesmo dificultosa que é, mesmo assim não me distrai.
Pelo começo é fácil entender porque, de primeiro, eu coincidia com o cronograma dele, período por período, obra por obra, empreitada de quem fosse, lá estava o patureba alegre, trabalhando direitinho. Despedindo de todo mundo no final do trabalho, tomado banho, batendo pra casa dele. Isso durou exatamente quatro trechos e eu acompanhei junto porque calhou de ser. Trecho seguinte, lá chegava escanhoado, fala curta e eu que ia já explicando que era o patureba porque nasceu em Patos de Minas. Mas onde pendurava o boné, já que não freqüentava o rancho de costume nem se amuntuava que nem cigano catinguento, nem batia água de faca pra santo nenhum, bem, aí eu já calava. Fazia o meu trabalho e ele o dele. Nem mais nada. E “até mais vê” noutro trecho. O senhor me pergunta se eu sabia do domicílio dele? Sabia só que era certo, falar o quê!
Mas um dia eu cheguei nele. Os dois, torcedores do América, eu sempre fazendo relatório e ele arremate de platibanda, coisa e tal, umas intimidades dele me contar o principal: chegava na cidade, aprumava documento e ferramenta, dava telefonema e...pra praça. Zanzava sossegado, alegrão, sem ficar se amoitando em sombra, sem carteado nem conversa mole. Um olho na camaradagem e o outro no principal. E o principal dele era achar uma esposa-e-mãe. Não tivesse filho, ele fazia, não importava.
Nem confidência pedia nem o tom da voz baixava: - “Se tenho trabalho em altura, eu num prego meu mosquetão numa ponta segura pra poder sair soldando, garantido na linha-de-vida? Então, a mesma coisa quando desço pro canteiro, tiro as proteção e volto pra minha casa”. Eu brincava, às vezes (devia era de fazer mais comentário...):- “Vai, vai um dia lá você e crava o talabarte numa bela duma eletrocalha, cheia de fio com fio; vai confiando na linha-de-vida sem mais prudência, filho com filha de outra... essas coisas s’encostando, sem estrutura nem nada e patureba vira carvão, pras esposa-mãe soprar no vento!” Mas ele só remendava - “Chô sombração! É meu jeito assim, muleta pra quem sabe andar e no mais eu sou confiante, pode escrevê com letrinha e letrona. Ué seu Esfero, nóis é ou num é América de Minas?”. Esfero era minha alcunha, por causa das canetas esferográficas no bolso. E eu era de Minas sim, mas não constituía família em cada trecho de obra que eu assumo. Não sofro risco de um curto, e no mais já é de foro íntimo, como eu faço ou não faço.
Essas intimidades de falar pegamos mesmo no fim do segundo trecho que calhou, cronograma e tudo, hora-extra com adicional noturno, que é quando a alma do peão precisa falar, falar do aconchego que perdia e, outros, do aconchego que pensava que tinha, linha-de-vida perdida na neblina que nos envolvia em conversa miúda de madrugada. Eu, de tanto plantão além da conta, acostumei, mas o patureba sofria de dar dó; era emotivo e carecia relatar até os detalhes de outras obras idas. Eu sempre presto atenção, eu brinco: “eu preciso ser preciso!”. Eu ia vendo que, no caso dele, que não atinava com essas filosofias, era ele que precisava que alguém, fora do trabalho, precisasse dele chegando em casa, comendo quentinho, dando resto pra cachorro, namorando de ranger a cama na orelha de filho, fosse dele ou não, mas tudo num domicílio certo a cada trecho. Eu tinha um certo respeito por isso. Uma vez, no Machado de Assis, eu tinha lido sobre um homem que tinha mais de um lugar onde pendurar o seu chapéu. Não lembro como era o conto, mas essa condição lhe era importante, talvez a principal. As coisas do patureba começavam a girar na minha cabeça e eu quase perdia um pouco de nitidez no meu trabalho. Às vezes me distraía até; telefonema da Bahia, filha de dezesseis já dando neto, filho do norte do Paraná querendo visitar e ele muito carinhoso mesmo. Tinha brigas de marido e mulher, mas não dava pra saber de onde era, de que quadrante, de que região ou época.
Apesar de eu ter estudo, de ter boa caligrafia, de ser muito preciso e definido no que relato, sempre me atrapalho com os nomes dos graus de parentesco.Concunhado, genro, nora, prima de terceiro grau e relações maiores, mais distantes de família, de famílias grandes, tudo isso sempre foi pra mim uma idéia vaga. Filho único, morei com meu pai, mestre de obras, quando minha mãe desapareceu com outro homem, mas...dentro da “própria” família, dizia meu pai, sem muito mais o que dizer. Ele tinha atenção só para o meu estudo, que ele não teve. Era quieto por trás da prancheta, sempre. Sempre que se falava de família vinha um constrangimento; até da minha própria, com mulher e quatro filhas no domicílio de sempre. Vai daí que eu me confundia com os apuros familiares do patureba, na hora de calcular benefícios, preencher os formulários. Na confusão, deixava passar dúvidas em cima de dúvidas, pra não deixar relatórios duvidosos.
Quando minha caçula engravidou, justo ela, a que nasceu sem muita nitidez para mim que já tinha fechado uma família de três filhos, justo quando eu ia ser pai de um filho homem, único neto de meu pai, tive que me afastar temporariamente. E perdi de vista o patureba. Mas foi a divina providência, porque ele, então estabelecido no sudeste de São Paulo, deu pra beber e foi se afastando de algumas pessoas principais de sua própria família. Recebi telefonemas insistentes, a cobrar, lá para minha cidade. Desligava na cara. Não podia ser conivente com o rumo que estava dando à vida dele, bebendo de não voltar pra casa, causando acidentes com solda, engravidando mulheres muito jovens.
No antepenúltimo depoimento que prestei nesta comarca, na presença daquele juiz já falecido, relatei com detalhes os motivos de força maior que me fizeram faltar ao trabalho por alguns dias.
Inclusive no dia em que se deu o acidente com o patureba, aquela desatenção que fez com que ele ignorasse, segundo os relatórios, uma alteração na estrutura onde alguém atrelou o mosquetão dele. A descarga elétrica liberada pela bandeja da eletrocalha tinha voltagem suficiente para levar a óbito quase quatro homens!
Como? Não senhor, não tenho nenhuma relação de parentesco nesta parte do sudeste. Devo acrescentar também que me confundo um pouco com os pontos cardeais, desde que me internaram nesta instituição.
Sim senhor, estou em plena posse de minhas faculdades.

novembro 24, 2006

"Navalha na Tarde"_Conto curto (publicação:coluna "Cotidiano", que assino na revista 'Showroom"_DEZ/06

“Navalha na Tarde”

Por Marco Antônio de Araújo Bueno

...a mãe virou-se para pegar talco e pomada sobre a cama. Inquieto, ele revirou-se na cômoda e tchof, sem cuspe – quedou-se encestado na cestinha de lixo ao lado, de ponta cabeça. Queda rápida, sem conseqüências; amortecida pelas texturas macias de algodão e outras brancuras do interior da cesta. Nem resvalou o aro. E, como numa retomada da epifania do parto, o pai o resgatou pinçando-lhes os pés segundos depois, triunfante e exclamando em júbilo - É lindo até de ponta cabeça!
Fim de ano, fim de semana, fim de tarde; tarde sem fim. Com o tempo, habituou-se a tratar esses fragmentos inteiros de lembrança, que, da mesma forma como irrompiam do nada, ao nada se recolhiam cheios de nostalgia nebulosa, acostumou-se a denominá-los de vitrais do tédio. Talvez para reaver deles a poética do que se foi, em meio ao tédio do que, apenas, é. Se a vida fosse um quebra-cabeça...e ficou por ali, coçando suas inconclusões.
O próprio Domingo estava inconcluso: seu time quase na ponta do campeonato (se virassem a tabela de ponta cabeça...), um abafamento viscoso estourando barômetros, prenunciando um temporal que não despencava nunca; perspectivas embaçadas pra semana e...a barba por fazer – um estilhaço no vitral!
A barba e o Domingo; os domingos e a barba, a que fora crescendo como picadas no cerrado em sentido aleatório, sem padrão definido pela face, resultado de investida precoce com a lâmina do pai contra sua face de onze anos. Travessura de moleque em férias na praia, quando objetos pessoais perdem privacidade e excitam a imaginação. Especialmente, os perigosos, ainda que apenas para o sentido dos fios da barba de um homem. Toda manhã, uma indagação sobre este sentido, neste sentido...
O Domingo e suas animosidades à flor da pele, aquela irritabilidade posta como a mesa posta e predisposta a todo tipo de encontro - intimidade que ficou à sombra esgueirando-se pelos cantos da agenda blindada ao longo da semana, agora reclama uma forma qualquer de expressão explosiva para romper o dique e azedar a modulação da voz, a truculência dos gestos menores. O monstro oculto pela rotina protocolar do não-dito: - Me passa o azeite e o controle remoto que esqueceu de trazer pra mesa. E, pra seu “controle”, eu prefiro adoçante no meu suco e não na salada. – Nossa, não pode desgrudar da televisão nem pra almoçar? Olhe suas olheiras, que horrível. – Estão na moda, sabia? É, as velhas e boas olheiras do Sérgio Cabral pai, ganharam as eleições no Rio; voltaram por procuração genética, pra lançar um olhar mais “doce” para o morro...Sabia que quarenta por cento de mediação de conflitos é puro senso de humor? O que virou o FHC depois que operou as olheiras? – Ta acabando já o jogo, pelo jeito do seu humor, querido? Nunca vi almoçar tão tarde, meu estômago me pergunta se eu acho que ele é idiota pra ficar esticando essa enganação com queijinho e azeite. – Pois nem começou, conforme você nem viu; deixa a louça que depois eu lavo. Vou esperar o ciclone lá fora. – Que ciclone? – O extratropical com chuva de granizo, no mínimo, pra aliviar minha neurose barométrica. E arrastou a espreguiçadeira para perto das plantas.
Depois eu lavo tudo, o ciclone lava o rebaixamento do time e o vento estilhaça o vitral de tédio. Agora é só realizar o nada. Mas ela esticou as pernas na muretinha, e as observava longas e prateadas, como prateada era a navalha que deslizava por elas. Passa as mãos pelo rosto, irritado. Reclinado, ela decide barbeá-lo.
Trovões anunciam alguma trégua, o vento mais forte os acaricia, silentes.
Debruçada sobre o pescoço dele, entregue, enquanto a navalha, precisa, corrige o relevo da pele dos onze anos, percebe o olhar agudo, imperturbável e o ângulo harmonioso daquelas mandíbulas. Nebulosidades espraiam-se lentas por trás daquele rosto feminino, oval; tão oval. – Você é a mulher mais linda que eu já vi de ponta cabeça! Não me saia por aí de ponta cabeça, viu! – Pára, não mexe. Barbear é preciso...
- Viver não é preciso!

setembro 25, 2006

"Sexta"_Crônica Out/06_Rev."Showroom"

“Sexta”
Por Marco Antônio de Araújo Bueno


Sexta-feira, manhã nublada, era um daqueles dias em que ela mal acordava e, antes mesmo do café solúvel, deixava-se dissolver pelas poucas páginas do jornal do bairro. Sem pressa, sem ânimo, sem prioridades; entre a letargia e um leve impulso masoquista. Pulava o editorial e as primeiras matérias pagas com fotos de gente familiar ao seu cotidiano. Deixaria pro fim os fragmentos naturalistas que lhe devolvessem algum senso de realidade. Pularia a leitura de seu próprio signo no horóscopo e a de seu próprio obituário se fosse o caso, baixa probabilidade, de que o jornal, desculpando-se alhures, fizesse menção à existência dela ao noticiar seu passamento. Baixa probabilidade, pois jornais de bairro não trazem obituários, tratam a morte pelo seu avesso. A programação cultural então, nem pensar. Ficaria aflita com a idéia de diversão compulsória para mais aquele “f.d.s.”. “Ótimo “f.d.s.”! Ou “Curta bem o seu “find”!, era o que lhes desejariam seus e-mails ao final do dia, referindo-se ao sábadoedomingo, inexorável.
Adorava começar e interromper a leitura de mini-matérias edificantes, novidadeiras de ruminações. Suspendia-lhes qualquer desfecho moralizante, rindo-se da idéia, segundo a qual, escrever é como falar sem ser interrompido. Pois não só interromperia como completaria a leitura com um outro assunto qualquer, buscado a esmo, de trás pra diante, de qualquer jeito. Importava manter a letargia plena de significados desconexos, abertos; e que a manhã se mantivesse nublada, sem chuviscos nem meio-sóis.
Se passava algum desconforto numa vista d’olhos pela coluna social, logo o aplacava, divertindo-se: isso sim é que seria probabilidade baixa! Mas, sabe-se lá, por um capricho de angulação imperfeita, em evento qualquer...e ela ali capturada fora de foco, em movimentação bizarra - um escotoma, ela! O ponto cego de um fotógrafo. Foi quando notou, em ângulo aberto, uma figura conhecida, ainda que anônima. Sentiu o reverso de um encantamento, uma familiaridade brutalizada, esvaziada de toda uma certa magia que, certa vez, a recobrira. A tal senhora que lhe parecia tão enigmática na ocasião em que proferiu uma sentença quase mística, oracular como no horóscopo: - “Cuidado para não perder a sua identidade!”.
Foi numa floricultura do bairro (entrara só por entrar) e, logo ao sair, perplexa com a suposta profundidade da sentença proferida pela cotidiana senhora, notou que a carteira de identidade lhe saltava quase um terço pra fora do bolso traseiro do jeans.
E como o incidental da coisa não lhe chegasse a provocar algum riso, da mesma forma não mais prazer conseguiria com aquela desleitura de jornal de bairro.

agosto 17, 2006

Grupo literário "TURMA3"(vide Yahoo groups)em laçamento livro do oficineiro- Nelson de Oliveira

Literatura "Infantil" e Psicanálise-Ensaio sobre "A História sem Fim" de M. Ende

" 'A HISTÓRIA SEM FIM': Ensaio sobre Teoria da Técnica psicanalítica na desconstrução da ficção de M.Ende"

Por Marco Antônio de Araújo Bueno






Há pelo menos uma razão plausível para se falar em fantasia: a de refazer um percurso de concavidade. Pensar, aliás, nessa palavra é quase poder tocá-la... tocar o côncavo, sensual e distraidamente, eis um exercício de puro Princípio do Prazer.
Há o contato com o próprio livro, contato materialmente erótico, de cheiro de gráfica, de cores discretas e saborosas, de barulhinhos e sonzinhos da primeira cartilha, da infância. O livro vem de dentro do livro ("... ele agora está nas suas mãos...") e o côncavo se oferece como um figo recém abocanhado. Suculento como um figo, misterioso como uma caverna.
O livro é um brinquedo novo e ocupa muito pouco espaço: ele ocupa o seu próprio espaço de dentro!
Côncavo, caverna, dentro, figo mordido... há também uma razão mais antipática para se propor uma quebra de encanto, uma "lize" do erótico. Trata-se, é claro, de uma razão acadêmica, exorcisante de prazer, que só faz restaurar o convexo. Puro Princípio de Realidade.
Assim, se a Psicanálise que Lacan reescreve, preciosista, barroco, passa como um feixe intrincado de conceitos complexos (se isso é, por certo, quase que metodológico nele), se o "lacanês" é pedante e chato e auto-centrado e delirantemente complicado, isso só acontece porque há um caso de amor. Não se deixa um objeto de amor em mãos inábeis, sob os olhares pervertidos de uma psicologiazinha do ego norte- americana, sob os carinhos grosseiros de um adaptacionismo pragmático e imbecilizante, no colo da mais ingênua "ilusão" do sujeito.
Não é complicado achar em Lacan a assunção de uma hábil e estratégica forma de sedução. A palavra freudiana o toca como uma flauta mágica. Ele não apenas escuta as notas, ele as nota deslizando... metonimizando-se. Entra floresta adentro na melodia, sabe-se perdido e torna-se perdinte instituindo a "beance" , a falta- carbono da palavra. Ele acredita nessa mística xamânica da palavra, e é pela palavra que nós nos perdemos nele.
Eu o reencontro nesse livro, um livro roubado ( "...La Letre Voullé" de Baudelaire), uma história sem fim, como a figura de um pai cristalizado em um subterrâneo dos sonhos esquecidos (o significante primeiro, inadmitido à consciência?), de esfinges que compendem toda a sabedoria e paralisam... pelo olhar.
Como a partir de uma igrejinha dogmática só se avista discursos confirmatórios, os discursos confirmatórios de Lacan estão aí para mostrar que, pior que o puchassaquismo da ortodoxia, é a chatice da ortodoxia do puchassaquismo, o que o próprio Lacan já denunciava como o "não estilo".
O próximo passo poderia ser justificar as justificativas introdutórias. Prefiro, no entanto, sair pelo livro adentro para tentar sugerir uma semelhança: a que se insinua entre o texto (apesar das sinalizações de trânsito que, por questão talvez de segurança, alternam cores de impressão para legitimar ou não a entrada pela fantasia que, afinal, só tem sentido, se for a "minha fantasia") e o percurso do sujeito no processo da análise.
A análise também tem sua concavidade. Não se pode usá-la a torto e a direito. Uma espécie de imanência. Entra-se numa análise pelo meio e começa-se pelo lado de dentro. Um exemplo de abuso dos recursos e instrumentos da análise, no caso, poder-se-ia se ilustrar com uma inquietação, meio anedótica, meio "lingüistérica" :Por que razões (o inconsciente é feito de palavras) alguém chamado Michael Ende (... Das Ende?!) se põe a escrever uma história sem fim? Algo mais sério poderia ser: porque sinalizar os caminhos em um texto mais próximo a uma Banda de Moëbios, sem lado de dentro, sem lado de fora, sem direito e sem avesso, como o próprio inconsciente em seu estado de sótão (tão só) onde Bastian lê o livro, em seus estado de discurso, de texto?
Tenho a intenção de propor aqui algo menos lúdico que esse patinar por livre- associações.Dentre as quatro consagradas modalidades de crítica psicanalítica ( voltar-se para o autor como na "Gradiva" de Jensen; para o leitor; para o conteúdo ou para a construção formal do texto) escolho a segunda, até para privilegiar ramificações intertextuais. Não perderia o lúdico de vista. A propósito desta visada, é bom que se lembre- Kafka disse algo como(...) um texto deveria chegar ao leitor como a notícia de morte de um ente querido...
A leitura desse texto provocou-me certos lutos e algumas escotomizações, uma das quais insejou-me declinar de categorias tomadas às sociologias e às histórias, tão diacrônicas.
Se cada leitura é uma re-escritura, essa minha reflexão sobre o texto do alemão Ende, há de desejar, em fim, uma certa univocidade, um tanto singular; de espelhos, um silêncio potencializado, quem sabe.
Interessante- a linguagem de Ende é absolutamente pictórica e em "Signes", Merleau-Ponty conclui: "... As vozes da pintura são as vozes do silêncio...". Também há um pouco do Borges de "OJardim dos Caminhos que se bifurcam"; intertexto do lado íntimo , côncavo da obra- personagens que se citam de livro para livro do autor. Importa começar pelo meio e entrar pelo lado de dentro. A costura é costura de significantes e o bordado mora no seu avesso.
Bárbara O'Brian escreve também sobre uma viagem psicótica solitária e sobre o caminho de volta. Puseram o livro sob suspeita, afinal, ela ousou voltar e escrevê-lo, algo impensável para uma "esquizofrênica" . Em "Operators and Things", Bárbara está numa estação de ônibus. As vozes (operadores, entidades persecutórias que desenham uma "grade" em seu cérebro e o manipulam como "coisa", como nos "milagres" do presidente Schreber) ordenam-lhe que retire sua carteira de identidade da bolsa e a rasgue. Nesse momento, tudo fica escuro e o chão da estação ergue-se em direção a seu rosto. Bárbara passa seis meses viajando de ônibus pelos EUA e, já no final do "raptus" psicótico, sente que pode escrever à máquina sobre sua experiência... "É como se um pouco de praia seca voltasse após um tenebroso período de maré cheia..."
O cartunista de humor negro- Roland Topor- termina seu livro "O Inquilino" operando em seu personagem um duplo salto suicida da janela do prédio. Primeiro como seu duplo (a fantasia- Simone) e depois, alquebrado e sangrando por todo o corpo, como o próprio personagem (representado por Roman Polansk). Algo como não poder morrer por consignação; é preciso voltar da fantasia, nem que seja só para morrer.
Por aí se vê que as associações estão bastante livres e se retomo o indigesto Lacan é por estar intrigado com algumas contingências evocadas pela obra dele. Uma escritora como Hilda Hilst, para quem Deus é "... uma superfície de gelo ancorada no riso..." (segundo uma equação a que chegou um de seus personagens, Amós Keres, matemático) alguém assim, para quem toda a questão é uma questão de religiosidade (a da "Obscena Senhora D" por exemplo) alguém que sofre as agruras de ver seu texto tido e havido como uma espécie de "tábua etrusca"(sic), tem verdadeira ojeriza ao tom frio, quase que maoísta de Lacan.
Pensando assim, que, de um Lacan autodificultado, não se tira frutos. É uma árvore seca que acaba por esterilizar as livre- associações. Haveria de se tornar, aqui, enquanto instrumento, apenas um breve artesanato de metonímias pluralizáveis, circulares e compulsivas, sem fim? Eis, então, uma história sem final pelos caminhos de uma crítica sem finalidade. História e crítica sem fim.
Ao contornar também o hedonismo festivo, proponho algo como um play-game. Tanto assim, que as regras da segmentação que passo a operar, criam a segmentação como um artefato, ligeiro como um caleidoscópio pode ser, se as mãos que o girarem forem ligeiras igualmente...
Tal segmentação vale-se de palavras chaves, apenas por seu caráter remissível, então:

I) Atreiú - As três portas mágicas
II) O velho da montanha errante
III) A casa dos loucos
IV) A Dama Aiuola - A casa mutante - A mãe
V) O pai - Caverna dos sonhos esquecidos
VI) Volta para o mundo

Se pode ser surpreendente certa obediência à própria cronologia do texto (já que sugiro uma aproximação ao processo da psicanálise) chega a ser espartana a disciplina para não ceder a sedução da simbologia explícita.
A crítica aqui, se infla de indolência. Por uma questão de tropismo, estaria até feliz em tender ao poema. Prefiro, no entanto, segurar-me no nível do "espinafre amarelo", "salsicha escova" ou "pinta-pescoços" (p. 339- fala de Argax) por não dispor de centenas de milhares de anos. E só o tempo dá sentido a uma combinatória de significantes.

I - Pensem no processo de uma análise. Em que pese toda uma gama de motivações pessoais, há apenas uma entrada possível: quando se está captado no próprio jogo de imagens. Vitimado pelo narcisismo, apostando toda a verdade num ego que se acha fonte de significações. Não é à toa que se adoece nesse social, que é uma casa de espelhos cujo morador não mora lá.
Todo o esforço do analista é o de possibilitar via "atenção "Flutuante",distraidamente (já que o social é tão pregnante) uma certa transição- da esfera do pedido (dessa mímica social jubilatória que leva o analisando a identificar-se narcisicamente com o duplo de si mesmo, a uma miragem que lhe permita apenas reconhecê-lo) à esfera do desejo. É dessa alienação que se parte. É por um apelo que ela se dá.
Atreiú, o duplo de Bastian no mundo da fantasia ,funciona como um guia a conduzi-lo para uma nomeação.
Ora, a nomeação funda a própria possibilidade do que Lacan chamou de simbólico e o coloca como a saída do imaginário especular, narcísico, relação de presença. O símbolo que instaura a relação de ausência (já que é presença da ausência da coisa) se dá pela permissão de uma possibilidade de se nomear, agora sim, na esfera do desejo, do deslocamento, de metomímia.
Bastian precisará gritar:- "Filha da lua". É a sua parte no acordo , já que inserido nesse inconsciente-tour intrigante; em alemão "Die Tochter von der Mund". Teria escapado ao alemão Ende a homofonia Lua/Boca - Mund/Mond?
A saída desse imaginário é a palavra. A princípio pede-se ao analisando que apenas fale (já que se encontra captado em sua fala) e se o enxergará caminhando para uma palavra plena- "la parole pleine", conforme Lacan.
Rompe-se o imaginário pela boca. Há uma rainha-criança(!) que compende toda a órdem (Simbólico) no mundo da fantasia. Bastian caminha, como numa análise, em busca de providenciar sua própria inserção nesta Órdem simbólica. D
Antes, porém, Bastian-Atreiú haverá de se confrontar com as esfinges, o espelho e a porta do silêncio Prova-certificado da saída do imaginário? A propósito Lacan afirma que não basta que o in-fans se veja "se"vendo no espelho, é preciso que ele se veja sendo visto pelo olhar comprobatório de um outro.Isto o retira da fragmentação do Imaginário.
Até então, Bastian-Atreiú se vê claramente subjugado à mãe (detentora do falo). O reencontro com o pai (cristalizado tal como se pode pensar de um significante primeiro) reporá o falo em seu devido lugar. Para chegar a essa substituição de significantes, para chegar a essa metáfora paterna que lhe permitirá, por fim, voltar ao mundo, Bastian deverá passar pela prova dos olhares das esfinges (... "E elas não vêm nada. Mas o olhar delas a tingiria da mesma maneira" (Enguivuck) -a prova do espelho (penetrar em si mesmo como na análise) e a última das portas, a que... "só aparece depois de se ter passado pela Segunda" (idem, p. 85). A passagem por esta porta, esbarra no silêncio da fantasia (o analista comete silêncios significativos) que é para Enguivuck "absolutamente indestrutível".
Se isso não lembra a recusa do analista em fazer concessões ao "pedido", ao sintoma enquanto queixa, o trecho que se segue torna a analogia mais clara: "Quanto mais queremos entrar mais hermética se torna a porta. Mas se alguém conseguir se esquecer de todas as suas intenções (Ego, imaginário, ilusão do sujeito) e não quiser absolutamente nada (associar livremente idéias)... a porta se abrirá sozinha perante essa pessoa.".
É claro que me recorda Nietzsche (o meu corpo-grande razão-tem idéias diferentes de mim) mas há de se reconhecer também certa esterilidade de algumas das aproximações aqui sugeridas. Daí, penso que seja infrutífero julgá-las dogmática ou canonicamente. Afinal, a "curiosidade puramente científica" de Enguivuck não o levou a conhecer Uiulala!
Tentadora a aproximação entre o "diálogo" de Atreiú com Uiolala e a Teoria da Técnica psicanalítica no que diz respeito ao contato analítico (vide Freud, in " Conselho aos Médicos...")
"Quem sou eu? Murmurou (Atreiú, que à pergunta "quem é você" recebeu um eco "quem é você"?) Um analista poderia dizer como Uiulala:
" Pois aquilo que não escuto em verso (relevo fônico do significante) entendo sempre de modo diverso (pregnância do social)"; ou, "Quem sabe é quem? Agora te entendo bem". Uiulala, a voz do silêncio, continua como em um contrato analítico: -"Mesmo que não me vejas/ Ainda estarei lá". Mostra ainda que é apenas um ponto na cadeia de significantes, um representante da ordem simbólica, um semblante, fazendo o gosto da rima: "... não sou visível na luz/ Como tu és ao te olharem (social)/Pois meu corpo é nota e tom/Por isso apenas audível/ E nesta voz tens o som "do meu único ser possível".
Faz-se o convite ao simbólico: "Porém, se novo nome encontrar-mos/ Seu mal será logo banido" (a relação dual, o imaginário na relação simbiótica com a mãe romper-se-ia e daria lugar a palavra). Lembra, também, a essência do processo:- "E tudo dependerá/ de seres capaz, ou não"; e, finalmente, propõe-se como ausência:- "Tal resposta a ti te cabe/meu dever é avisar/chegou a hora, já é tarde, já é tarde/ temos de nos separar"
Poder-se-ia também aproximar a concepção lacaniana de Tempo lógico, com a fala de Enguivuck (p. 104):
"O espaço e o tempo, disse Enguivuck, eram talvez diferentes no lugar onde você esteve..." O inconsciente desconhece tempo cronológico e categorias de negação!

II - O velho da montanha errante.
Nessa passagem, Bastian emerge aos limites do consciente, e mergulha na fantasia, como leitor e personagem, numa infinita cadeia de ler-se lendo. É o ponto de tensão maior, quando em ultima cartada desvenda-se o eterno retorno, o fim e o princípio que deixam de existir em pró do círculo: são as cobras se comendo que formam o Aurin. Voltando a questão da análise, refaz a vivência da compulsão da repetição, que traz sempre o presente resignificando o passado e lançando para o futuro o que se fez em passado. Isso engatilha a idéia de que os futuros vindouros serão apenas nostalgia de algo perdido. Assim é que, na seqüência d'A História sem fim", quanto mais Bastian "cumpre" seus desejos, mais seu passado é apagado e menos capaz de desejar ele se torna, ou seja, não há desejo sem memória: "a esperança é a saudade virada ao avesso."

O paralelo traçado aqui entre o processo de análise e a trajetória de Bastian aponta necessariamente para uma diferença sutil: Bastian não inventa seu percurso, ele o recria e o refaz. A busca aparentemente eufórica no texto corresponde a um desejo de busca que perpassa o texto, refaz um percurso e ancora num significante.
No mundo da fantasia, portanto, não há lugar para o acaso, que só se dá na diacronia e no sintagma(vide Jakobson, um outro Roman...in "Lingüística e Comunicação") e precisa do contrapondo da realidade para a concessão de toda a sua carga de "loucura" que dele deriva. Ou seja, ali onde os significantes podem dançar em entrechoques, atropelarem-se e saindo de cima voltarem por baixo (Banda de Moëbios) não há lugar para surpresas. Veja-se, por exemplo, a seguinte passagem:- "Ora, na realidade estamos à sua espera há muito mais de cem anos, respondeu a mulher. Já a minha mãe, e a minha avó, e a avó da minha avó esperaram por você. Veja bem... estou contando à você uma história que é nova e, no entanto, refere-se a tempos muito remotos".
Enfim, é como se o passeio de Bastian fosse a hipérbole de um reconhecimento que, em dado contrato, corresponderia aos "insights" do analisante , rumo à idéia ("Angst") de como a sua liberdade é algo muito mais restrito do que ele supunha. Só há liberdade, a propósito, dentro dos limites deste confinamento estrutural, lingüístico (vide "Cours de Lingüistic General" de Ferdinand Saussure), aliás!

III - Se a única possibilidade de liberdade radical reside na loucura (na medida em que ela se instale no "reino da semelhança", no "eixo paradigmático", conforme explica Michel Foucault n'As Palavras e as Coisas") e se nada ao acaso ocorre, Bastian tinha de se defrontar com o medo da insanidade, pelas mãos irônicas de Ajax. E aí que ele se encaminha para a "Cidade dos Antigos Imperadores". Local reservado àqueles que, ao perderem totalmente sua memória, são desligados do "mundo" e tornam-se incapazes de "desejar". Só se deseja aquilo que já se conhece. Apagar o passado é impossibilitar o futuro, e se perder no paradigma, que é a própria loucura. Para eles só resta brincar da paradigma (jogo de letras, o "estado de dicionário" a que aludia Drummond, a palavra "in absentia") até que alguns sintagmas comecem a surgir, e quem sabe forme-se outro livro. Há sempre a alusão a princípios, nada é final absoluto.
A saúde mental de Bastian está no horror que a cidade dos loucos lhe causa. É só o seu pavor ao vazio que o breca em seu insano caminho pela fantasia. Restam-lhe apenas poucas lembranças, mas agora compreende sua peregrinação. Até então considerava-se o mais sábio da Fantasia, tanto que almejou o poder supremo pertencente a "ilha da Lua". E torna-se, agora, o mais miserável na fantasia, pois busca algo que já não se recorda, e vislumbra, no futuro, o desvario. Tal como Édipo, cujo drama, bastante próximo, se desenrola todo no decurso de apenas um dia.

IV - Todo o percurso na análise não passa de uma revisitação, via transferência, às figuras parentais, arcaicas. Se, pelo início dessa reflexão, falou-se de imaginário e simbólico, nessa ordem, é porque a primeira tarefa existencial é alienar-se num desejo de um outro materno. É enquanto a criança almeja tornar-se objeto de prazer e gratificação de uma mãe, marcada pela carência do "falus" ("penis-neid", para Freud)) que se pode pensar no registro do imaginário: a criança vive simbiótica e indiscriminadamente, o drama de submeter-se à mãe como representação do falus que lhe falta. É exatamente o que Bastian, num primeiro momento, vivencia: Veja-se o diálogo sobre a questão das frutas: -"Não sei, disse Bastian perplexo. Não se podem comer coisas que crescem em outra pessoa. Por que não? Perguntou a Dama Aiuola. Os bebes também mamam o leite de suas mães. É uma coisa muito bonita./ pois é, interrompeu Bastian, corando um pouco, mas só enquanto são muito pequenos./ Então, disse Dama Aiuola radiante, você precisa se tornar outra vez pequenino, meu lindo menino". Toda essa dinâmica tem início em uma separação: a mãe vê separar-se de seu útero a criança. O útero "é maior por dentro do que por fora" (p. 356), como a casa mutante do livro de Ende.
A Dama Aiuola é a imagem da sedução que se constituiu para o intrigado Bastian na idéia de uma mulher gerando frutos de seu corpo inesgotavelmente. É a própria captação no "Éden" do Imaginário. No entanto, na dinâmica do Édipo está implícita a idéia de que só se pode sair do narcisismo, do erotismo simbiótico e dual, enfim, só se consegue amar (no sentido de investimentos objetais) quando se rompe o idílio do imaginário com o estabelecimento de uma triangulação. Deverá haver um terceiro social a mostrar à criança que ela poderá ter o falus e o amor se renunciar a ser o falus materno, e sucumbir às instâncias pré-simbólicas. Novamente há o paralelo com o caminho de Bastian que, ao sentir necessidade do amor, está pronto para quebrar o idílio da casa mutante e partir em busca das águas da vida.
Bastian descobre seu último desejo: amar. Para isso deve se encaminhar para a Fonte da Vida:- "Só poderá fazê-lo quando tiver bebido das Águas da Vida, respondeu ela, e não pode voltar ao seu mundo sem levar dessa a um outro" (fecha-se outro círculo). Bastian deverá separar-se de Dama Aiuola:- "Só preciso de alguém a quem possa dar o que tenho a mais"', ela lhe diz, quando a mensagem poderia ser: "a minha carência constitui você como objeto da minha falta, daquilo que tenho a menos".

V - É preciso que se escave fundo no terreno das fantasias para que se chegue ao que Lacan chamou de "point de capiton". Lá, onde se ancora o significante primeiro, o significante "Nome do pai" ("Le nom du pére"). Bastian deverá descer mina onde jazem os sonhos esquecidos- substrato da fantasia- para alcançar esse Pai que é possibilidade de nomeação. Tendo, portanto, contornado a psicose (é por não ter "foracluído" tal significante que seu retorno é bem sucedido) e emergido do imaginário, que Bastian descobre esse rosto triste de pai cristalizado na placa de mica. As últimas linhas do livro dão conta do retorno de Bastian à realidade e da presença de um pai que também precisou ser redescoberto e que, por fim, lhe concede e lhe permite a possibilidade de autonomia: agora Bastian pode se autonomear e nomear sua própria falta, última etapa de uma análise. Bastian é, então, essa espécie de pervertido, porquanto a sua viagem toda não tenha passado de uma versão da fantasia em direção ao simbólico. De uma versão para o pai. De uma "pére version".

-"Há muitas portas para a fantasia meu rapaz. Há muitos outros livros mágicos. Muitas pessoas nunca percebem isso. Tudo da pessoa em cujas mãos o livro vai parar".
Há pelo menos uma razão plausível para se falar em fantasia: a de refazer um percurso de concavidade. Pensar,nessa palavra é quase tocá-la... tocar o côncavo, sensual e distraidamente- eis um exercício de puro Princípio do Prazer...

julho 25, 2006

"Gordo"_Crônica Jul2006_Coluna "COTIDIANO" da revista "Showroom"

““Gordo!”




Acho que estamos às voltas com um novo patamar ético,
quero dizer - nas nossas escalas de valor. Acho que achei, pelo
menos, uma palavrinha, um adjetivo potente e explosivo que aponta
para a pontinha deste fenômeno. Foi por acaso, vinha dirigindo para o
consultório após o jogo contra o Japão. Trânsito tumultuado, eufórico
e nervoso. Gente querendo escapar da folia da comemoração e muito
mais gente tentando impedir que isso fosse possível. Então, por um
pequeno trecho do caminho, mais fluído e tranqüilo, senti que havia
uma” pedra “: uma garota cortou a frente do motorista da pista ao lado
e ouviu dele um desaforo imbatível: -” Gorda! “. E então ocorreu o
mais inusitado, o tal fenômeno. Veio de um “comemorante” trincado de
todas as marcas de cerveja: - “É gordo, mas faz!”.
Era o ano de 2006 (disso eu sabia) e rolava um
campeonato mundial de futebol muito mundializado e, quanto a isso, eu
já tinha outras referências temporais mais remotas - achava que havia
começado no início dos anos noventa do século passado e remetia a
protagonistas estranhos ao mundo do futebol, como uma “dama de ferro”
e um ex-ator, então presidente dos EUA. Mas na vida das minhas
fatigadas retinas, jamais esquecerei a fisionomia da garota
ofendida...mas nem tanto, e isso me intrigava. Lá estava ela, vestida
com a camisa nove e mais as estrelas de todas as marcas de banco,
petrificada e perplexa, entre um desaforo tão moralmente estético e
uma apreciação atenuante, tão benevolente quanto eficaz.
Um paradoxo, caro leitor! Estivera diante de um
curioso impasse de natureza estritamente...ética, vá lá. O desaforo
do motorista - amortecido, neutralizado quase, pela lógica da velha,
mas nem tanto, política de resultados. E eu todo intoxicado pela
mídia do espetáculo, confuso no meio da galera e filosofando
bovinamente, extemporâneo, pra japonês ver. É que o “homi”, não é que
fez, e depois fez de novo? Em plena Quinta-feira gorda e eu lá,
abafando uma gargalhada e analisando um fenômeno novo que acabara de
presenciar: fulminante dieta moral recompensa auto-imagem de mulher
xingada com tanta crueldade, apesar de sua quase anorexia sarada.
Muita corneta estridente saldando o meu pavilhão auditivo; martelo no
estribo e minha paciência na bigorna.
Agora que já é inverno, férias escolares (essa moçada
precisava descansar mesmo, já que este ano não dará trégua...) e eu
sobrevivi às profundezas das minhas análises porque subi os vidros e
coloquei o “Inverno” das “Quatro Estações” do Vivaldi no toco pra
seguir caminho, agora sim, podemos passar uma régua no pagode e
pensar com serenidade nas conseqüências da tal Cláusula de Parreira,
de Barreira, perdoe. Aquela que oferece ao candidato da oposição o
dobro do tempo de propaganda televisiva, sobre o da situação. Que
situação! Isto sim é “show”, porque “show” é ganhar e ganhar é
muito “show”. Ocorre que ninguém é “mané” a ponto de jogar pra
perder; perder seus curraizinhos regionais, além da própria eleição
presidencial...seria coisa de “mané”, num país sobre cujas
prefeituras municipais, a corrupção campeia, perdoe, vigora, num
patamar estatístico além dos 70%. Parece mesmo que o que não mata,
engorda e o que engorda é “matador”...De “mané” só sobrou o
Garrincha, para o orgulho do nosso Pavilhão. Mas não pra saúde dos
nossos fatigados ouvidos, nossas Trompas de Eustáquio.
Portanto, leitor, que entre a “Primavera” do Vivaldi
pela primavera eleitoral. Até porque o nepotismo fará entrar pra
máquina estatal, muitas primas e primas das primas de muitos
candidatos, assim, eleitos. Se futebol é caixinha de surpresas,
política é coração de mãe; acolhe e alimenta seus diletos.
Especialmente, permite gerá-los em suas Trompas de Eustáquio, de
Falópio, perdoe, pela última vez, gordo leitor. E não se ofenda,
porque lhe ofereço este “gordo” como uma espécie de “valor agregado”,
de sortilégio. Uma lembrança da Copa, na redenção da cozinha.
Pois assim começou essa conversa, com a idéia de uma
espécie de salto para um novo patamar ético que se deu pela inversão
de sinal de um valor estético, sob um pano de fundo caótico da Copa
do Mundo, marcada pela lisura da bola e pela altura da grana, grama,
mil perdões!
Apesar de todo o ceticismo quanto à lisura –não da
bola, o jogo da linguagem não é apenas um termômetro, um
estetoscópio, uma balança...vá lá. Em que pese todo o atual cenário
de lambança generalizada, significados novos emergem do cotidiano
mais pueril, mais prosaico mesmo. Doravante (que palavrinha mais “pra
cima”, não!), quando alguém gritar - “Gordo!” este estigma vocabular
não vai soar como antes. Soará, talvez, como...suor, como superação
de lágrimas. Só o tempo poderá mostrar as condições de emergência
desse novo “gordo”, nem que seja pela autópsia dos bastidores
do “show-resultado”. Será preciso mastigar bem a palavrinha renovada,
até para extrair de seu entorno algum saber, ou qualquer sabor, o que
dá no mesmo.
Será preciso investigar a que ganhos leva o ganhar.
Ou descobrir o que o “professor”, o “homi” mastigava metodicamente lá
do banco (de reservas, do jogo) para gritar suas palavras de ordem. E
se há uma palavra de ordem no momento, esta palavra é “votar”.
Sempre, e sem muitos advérbios de modo. Tudo o mais é burrice. Pura
burrice!
- “Dê show!”, mastigou o “Homi”...
Aliás, perdoe.

junho 22, 2006

"Agenda"_ Oficina-Mote: Depressão, pressão...

“Agenda”

Por Marco Antônio de Araújo Bueno

Depressão é a Quarta da semana
Espremida entre uma segunda Terça
E outra Quinta que profana
A sexta em que a precipita.

Vem de pressão em pressão, decaída.
E cai, despenca; rebenta balaio consumido.
Precipitação de um fora para o fundo
Liquefeito na evasão insana. Um Sancho
De Quixote prescindido.

E emenda vazios com vazio não cerzido.
E no frio, respinga ainda suor na agenda,
Comprimindo risco, cuspe e fato
Num garrancho esquartejado.
Compreensão? Coisas da vida? Não!
Depressão é a letra tremida.

junho 08, 2006

"Odisseu" _ Mote: Clichê no cinema_Oficina 08-08-06

Odisseu

Por Marco Antônio de Araújo Bueno

Ele estava imbuído de um estilo Chacal.
(Confeitos de cânhamo embebidos em mate);
Vestiu rigoroso traje anti-suspeição e o retocou.

Ganhou a rua, solene, dobrou a echarpe; café!
Acenou ao táxi que não parou, seguiu a pé.
Economia de atos, beirava o trivial, rito e rigor.

Transeuntes pelo museu, ele em transe, trivial.
Pés e mãos gelados em pleno local calafetado.

O cânhamo dilatou a escultura do Canhão. Acenou:
“Leve a peça até a moto, lado a lado, comigo, espeto-lhe!”

Na saída, desarmado da caneta Picasso que nada espetou,
Só via o Canhão reposto ao pilar, soar de sirene e camburão.

Em cana, em fim, apenas uma beatitude e cabeça oca.
Suspeitou: há xixi no traje todo; irretocável. E sorriu.
Depois chorou, exausto. Pediu um mate, alguém gargalhou.







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