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abril 14, 2006

"Nós na Cama"_crônica publicada Fev/06

“ Nós na Cama “

Por Marco Antônio de Araújo Bueno

Se me acompanhou até aqui, meu “carro” leitor, a culpa pela cumplicidade é do pronome pessoal, o “Nós”. Nada pessoal, coisas da linguagem e mais alguma sacanagem (ou...”lacanagem”, se Lacan lhe for algo familiar...) de cunho experimental, científico até, já que estou testando mais uma hipótese, com meu espírito de pesquisador lá no alto; coisa elevada mesmo, mesmo se tratada com humor. Freud, a propósito, é a minha referência predileta quando o assunto é o chiste, o trocadilho, a piada. Ele desmontou deliciosamente a mecânica inconsciente dos “ditos espirituosos” e demonstrou todo o engenho e arte demandados para liberar o riso. Isso, enquanto ia tirando os nós da cabeça de seus pacientes, os conflitos que, via de regra, apontavam para um lugar comum- a cama, este móvel no quarto onde nos deitamos e ficamos imóveis, e sonhamos ou fazemos outras coisas e mais outras, quando a nossa privacidade encolhe, ou a nossa “criatividade” torna-se, assim...prescindível.
A hipótese em questão é sobre o sono, a relação que tem com a idéia de morte, etc., e, aqui, todo o interesse que a crônica despertou é que corre o risco de encolher. Ou não, já que o sono nos mergulha numa obscura zona de prazeres, ainda que decorram da necessidade óbvia de se permanecer dormindo, sonhando. Aliás, dizia o próprio Freud- “O sonho é o guardião do sono”, e, até para as mais “neuras” das neurociências fica meio artificial derrubar esta premissa freudiana, tão original e tão avessa às técnicas de tomografia por pósitrons e outras aferições cientificamente...confiáveis.
E este é o lado bom da questão. O sono também dá nós, como bem o sabe até o bocejante leitor que, a esta altura da crônica, quer mais é mandar dormir o próprio autor e que leve o Freud dele pra cabeceira. Então, para não saturar o nosso já estressado cotidiano, deixemos de lado a morte e outras coisas que a gente não pode comprar e não porque estejam elas “pela hora da morte”. Esta benevolência carinhosa, no entanto, não abre espaço para teorias mais leves e atrativas, essas que embalam o nosso aparelho psíquico em celofane com lacinhos cor-de-rosa para emplacá-lo nos “Top-10” de revistas semanais. Isso sim, seria a morte; do desejo, da inteligência (seguida ou não de adjetivos)...morte da própria morte enquanto tema da filosofia.
Também não quero, até por não querer que meu leitor o queira, uma crônica bula das patologias do sono. Sei da importância clínica da insônia, do ronco, da apnéia do sono que, por interrompê-lo tantas vezes numa noite, escangalha o dia e pode evoluir para problemas cardíacos e...a morte?! Mas me permito um certo “cochilo” a respeito. Até porque existe um lado solar(!) da noite. Lembram-se de como Flemming descobriu a Penicilina? Pois foi sonhando com os fungos de seu dia de trabalho. Eu queria é trazer à tona aqueles “fungos” cotidianos que reverberam e luzem em figurações alucinadas nos sonhos. Antibióticos, a gente compra e o Câncer, “ a gente raspa”, como dizia o antropólogo Darcy Ribeiro. A morte, a gente vive. Todo dia.
Esses resíduos do dia, o “resto diurno” de que falava Freud e que, para o filósofo Walter Benjamin, interessavam quando enquadrados, delirantemente, na narrativa maluca do sonho (e não, ao contrário de Freud, quando clinicamente “interpretados”...), é dessa piorra do dia que eu queria tratar aqui. Da coisa pequena que vira fagulha, contra as expectativas do próprio sonhante, do seu entorno ardiloso e de todo a marquetagem de realidade à venda na esquina globalizada. O dia nos empurra versões atrativas, leves. O sonho opera a grande transgressão. Até porque, ele mesmo, nasce de uma transgressão à censura que age, para manter inconsciente, toda a poeira do dia. Que, afinal, é a poeira da História, para o Benjamin, e não a versão oficial que nos “oferecem” a respeito dela. O dia nos empalidece de sustos também. O sonho digere o que se engoliu a seco, metaboliza, distorce, liqüidifica e disfarça o seu próprio feito. Numa encenação vertiginosa, dá nó no pingo d’água do dia. Seja de quem for o dia, todo santo dia e seja o dia de que santo for!
Filósofos, garis, economistas...todos sonham, todo dia. Psicanalistas, garimpeiros, cronistas- estes que fazem a história leiga do cotidiano, que é um jeito de desatar nós de linguagem insuficiente, sonham também, têm pesadelos, tudo igualzinho a todo mundo no mundo, exceto aqueles que “deletaram” o mundo sem saber que o fizeram. Casos especiais. No mais, as vias alternativas, as “terceiras” vias, as utopias e os escândalos de toda criação, sem exceção, vivem se abastecendo do alpiste onírico de sonhantes pessoa física que se entrechocam numa arena de choros e risos, de crimes e castigos. De infernos pessoais e redenções coletivas.
Observações ingênuas, espontâneas, que surgem do nada, não raro dão nós, não na cama “da hora”, mas na hora da cama. Um meu exemplo, por exemplo: divagava sobre a altura de uma cama em que repousava, do tipo cama “americana”, alta, compacta. Luxuosa e imponente.Ah, pensava dentro do meu sonho, que conforto dormir acima deste chão de mundo e, derrepente...a angústia de me sentir isolado, sem vida, e que se transformou em medo de cair, bater a cabeça e...dormir pra sempre. Pouca coisa, para um caso isolado de sonhar com isolamento. E é nessas horas que me vem a idéia de Benjamin sobre o “passante” e o medo de não deixar meus traços no mundo; ou , de deixá-los em demasia. Uma oscilação entre a incapacidade de registrar a História e o desejo de, desarticulando-a, rearticulá-la e assim, desatar nós, tantos nós. Um nó apenas!? É que Benjamin escreveu exatamente: “(...) Cada época sonha não somente a seguinte, mas ao sonhá-la a força a despertar” Desata essa...
A propósito de ter contornado a relação entre sono e morte, teria eu adulado meu leitor, poupado-lhe algum desconforto? Mesmo quando alguns de nós sabemos que Ferenczi, psicanalista húngaro da turma do Freud, especulava sobre a vizinhança entre o sono, a morte e...o orgasmo?
Lá na França, aliás, há uma expressão intrigante sobre o orgasmo. Ele é chamado de “la petite mort”...
Bom, eu e a perda dos meus limites!
Foi bom?

"O Ceni e outras cenas"_ crônica publicada Mar/06

“ O Ceni e outras Cenas “


Por Marco Antônio de Araújo Bueno

Todo mundo discute futebol. Eu, exultante, comemorarei.
Todo mundo fala de política. Eu, enfastiado, tripudiarei.
Todo mundo persegue a bomba. Enrolado não comerei. Todo mundo vai ao circo.
Eu também.
E já que “ A bola não é a inimiga/ como o touro, numa corrida”, e que, quando parar de rolar na Alemanha, estaremos respingados de todo o sangue simbólico de uma corrida eleitoral virulenta (sem trocadilhos com a aviária), invoco o João Cabral para comemorar uma alegoria chamada Ceni, o goleiro que ousou inverter a lógica poética dos versos que diziam: “(...) usar com malícia e atenção / dando aos pés astúcias de mão” . Não tão assim, é claro, uma inversão exata, anatômica. Há muita poesia numa saída de bola com endereço certeiro, quase digital. E uma emoção indizível num certo brincar com a lei da gravidade, nas cobranças de falta, fora da área. É que o goleiro , enfim convocado, convoca todas as suas vísceras no ato de tocar a bola, de sair a conduzi-la até a metade do campo, de catimbar o adversário com o cavalheirismo de um neurocirurgião- tensão sob medida e fidelidade total ao rito. E a bola passeia com saliva, acarinhada por boniteza e também...”por percisão”. Vai dar gosto de ver e, mesmo que o paciente acabe “evoluindo” para óbito, se poderá dizer da cirurgia, que terá sido um sucesso.
Terá sido uma homenagem à pupila, que também é redondinha e vem sendo esquartejada por uma violência retangular. E mesmo que o poeta diga que a bola tem reações de bicho, gente gosta é de carinho frontal, que acaba ganhando do “carrinho” por trás e o assunto já rolou, matuto, para outra esfera, sem trocadilhos também, deu pra sentir? É viscoso tematizar o futebol sob um temporal de palavras, metáforas turbinadas. Mas já dá pra ver a cara de quem quebrou as pernas no jogo político. Engraçado...tentaram derrubar o alambrado, mas torcida não invadiu o campo e o povão ficou na dele, matutando, matutando. Qual dos atores da cena política terá sido um completo bufão?
Quem mesmo será tido como líder, ao final de 2006, se não levarem pra casa a bola do jogo? Eu não descarto nada, nem a idéia de transmitirem a Copa por computação gráfica.
A estória da bomba é mais ficcional, quer dizer, se faz alguma diferença isso de ser história. Digamos que a bomba aqui seja metáfora, já que tanta metáfora virou bomba...retangular.
A sensação gelada já tinha passado, quando aconteceu a coisa da bomba, aquela sensação de precipitação de tantas neves na TV a plasma, que me fez “zapear” em busca de um locutor mais pra rádio de pilha que pra banco de dados. É que rolava um jogo catimbado também, quase uma guerra, quando percebi a urgência daquela bomba, a idéia da bomba plasmada na tela.
Antes um pouco, a figura de um ex-presidente, de altíssima definição, pela textura de tantas neves sobrepostas à cabeleira co-gelada (não corrijam!), pela fala fácil e oblíqua e cheia de ambigüidades que sibilava, textualmente, em rapidíssima entrevista: “ Política é conversa!”...
E eu retrucava, matuto, silente...ah, conversa,né, o que conta é o poder...,resistindo à idéia de ver um senhor tão honoris-causa (própria?), inteligente como um príncipe (de Maquiavel), retocado como um produto clintoniano ( não corrijam, apesar da tentação...), enfim, tão sabedor de que a arte política é filha da arte retórica, de vê-lo falando que política é conversa, como se conversa fosse diálogo e não conversa mesmo, no sentido de “conversinha” fiada, de conversa pra “touro” dormir. Tem boi na linha, pensei, ah tem. É muita desfaçatez, e tripudiei e odiei ouvir aquilo que parecia um desvio de rima, tanto para o poeta, quanto para o neurocirurgião.
E quanto à bomba? Enriqueceu heim!? Não, me responderam, “ não é tão dispendiosa assim, a bomba, mas requer cuidado ao transportá-la ao veículo”. Era um Sábado de carnaval, eu andava meio distraído mesmo, meio sonolento. E pensei ver uma passista da “Gaviões” sambalizando chamuscada pelos cantos da avenida. Mas foi verídica esta estória, houve algumas gambiarras em carros alegóricos, etc., nada sério, se comparado às gambiarras da ala da imprensa que vem chamuscando a evolução da democracia no país, mas isto é outra estória.
Toda essa coisa de sobreposição de imagens, de noticiário fragmentado em plena folia do terrorismo internacional, muita gente embriagada de tudo e poucos seres abstêmios neste carnaval, tudo isso conspira e deixa a narrativa um pouco confusa. Mas é da natureza da crônica equilibrar muitos vetores de significação, pratos recheados de guloseimas parodiadas que imitam a vida, assim como a vida imita a arte.
Importante mesmo, é o reconhecimento, é reconduzir as pessoas aos seus devidos lugares, já que notáveis se mostram as suas legítimas habilidades e competências. Reconfortante!
Estou falando do Ceni, o goleiro artilheiro, se é que me faço entender, mas o faço sem olvidar da artilharia pesada em volta. A propósito, na manhã do Domingo de carnaval, lá estava a bomba intocada, em repouso na geladeira. Plasmada como bomba de chocolate, ora...
Só uma curiosidade semântica: se aparecerem “fantasmas” numa TV a plasma, como acontecia nas valvuladas, a Parapsicologia os consideraria “Ectoplasmas”? Deixa pra lá.

Oficina Literária_poema a partir de um cartum

Aquele cuja fome espera
A fome que estará saciada
No outro, enquanto este, quimera,
Padece de fome engaiolada...

E, se o que sacia a fome está, sempre
Apenas onde nós a pomos,
Pra que enraizar felina fome
Entre patas caninas e alpiste sem nome!?

E se, então, surgir a liberdade
Que desmoronasse a espera em cadeia
E desencadeasse uma fome dual ?!

Libertos estariam, um para o outro,
E, ambos, para a saciedade
Ou para uma liberdade de esfomear-se da falta...