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FESTINA LENTE PELO MUNDO

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fevereiro 02, 2010

"A FILA" - Conto lido pelo prof. F.Ficomeno All'Gollen - no blogue coletivo De Chaleira

É questão de prosódia. E de efeito estranhamento (ostraniênie); Eis o link:




No mais, é entrar no www.e-chaleira.blogspot.com que anda consumindo todo meu tempo.Recomento a visita ao blogue Miopia, do Guilherme Salla. Ele sim teve o devido capricho ao descrever o que anda fervendo no De Chaleira.
Ainda assim, tal a velocidade de eventos estéticos por lá, no coletivo, que não deu tempo de acrescentar o escritor Eustáquio Gomes, agora colunista...Crônicas, literárias.
Sintomático isso,´porém - avisos: dia 11/02 agora, entrevista minha ao D'Ambrósio da Rádio Unesp FM . Será perto das 19:00. Pedi que pautasse a questão da especificidade do que seja o 'coletivo' na blogosfera.
Com mais,

janeiro 28, 2010

"SOBRE A EXPLOSÃO NA 'E.H.M."- DESDOBRAMENTOS"

“Sobre a Explosão na “E.H.M.”– Desdobramentos”

Por Marco Antônio de Araújo Bueno


Chamarem de “requentado” esse assunto do acidente ocorrido na “Escola Hibris Mundial”, sinceramente, pouco me importa. Certo ímpeto de humor negro, ao contrário, já me impele a qualificá-lo de “chamuscado” – isso sim –, e me explico: houve, tem havido e é de se esperar que se alastrem desdobramentos tão funestos, que fariam corar toda a corja de “notáveis”, cuja honorabilidade canhestra, hoje, é matéria para carvoeiros: as labaredas destroçaram o arcabouço físico do campus, mas – capricho dos deuses - pouparam a alminha sacana que animava seu extemporâneo prestígio mundial. Toneladas de gigabytes sobreviveram junto aos detritos e eu, envolvido que me achava na ocasião e na condição de vítima sobrevivente, transformá-las-ei em caprichosa história recente valendo-me (que me chamem de posmodernista, pouco se me dá) até dos arcaísmos, das obsolescências mesoclíticas e de todo ferro velho vernacular que lhes provoquem “espécie”.
Pois até do século II ªh. (e que a própria hecatombe não fez submergir) extraí uma expressão belezera que bem qualifica a condição de indigência ética da Escola – “tempos do onça”. Que não me perquiram sobre a etimologia, mas é certo que alude ao anedótico como registro da velha cultura de massas. A “E.H.M” com seus campi espalhados pelo mundo reformado é uma instituição dos tempos do onça, uma ágora estéril e sem estilo, convalescendo de agorafobia (termo que tomo à “P^p” – psiquiatrizações classificatórias pós-cartolagem laboratorial, também do referido século II) e osteoporose pragmática (ossatura conceitual carcomida pela porosidade das investidas multidisciplinares da época). Pois bem, que me inquiram, agora sim - e o que fazia um profissional de linguagem geral perambulando por aquelas bucólicas pastagens no momento em que houve a tal explosão? “Macacos me mordam!”, exclamaria qualquer daqueles ascetas pálidos – Quem é que cora, agora? Onde estavam minhas fidelidades?
Sem constrangimentos (explico depois) de qualquer natureza, apenas um tanto quanto deslocado da ambiência exótica, eu portava um caixilho básico (sou usuário) contendo minha Proposta Reformática Contributiva I, ainda sub-graduada para efeito de renovação de passaporte aos confins do Continente de Suporte – Área 35. Algo suspeito? É que nem imaginam o que andam fazendo profissionais de linguagem geral (os “plg-beta) para quitarem seus créditos junto ao Departamento de Desertificação....Não tinha que me envergonhar; era apenas trocar meu uniforme, tomar as vacinas e uma boa dose de humor sintético, desses genéricos mesmo, de acordo com o poder aquisitivo do meu soldo e o da parteira que me sustentava nesta idade pré-produtiva. E minha idéia era boa: no âmbito contributivo da Sustentabilização, de forma meio difusa, estava subclassificada junto aos biodigestores. Munido de artifícios retóricos de ponta, com muita elegância no jargão e algum cinismo de praxe, lá estava eu com um assuntoso arsenal teórico que se justificava.
Tratava-se da pertinência corporativa, na gestão de dados catalogáveis de amplo espectro, de um aparato catalisador de reciclagem que batizei com toda a pompa de “Biodigestor Cognoscitivo na Assepsia de Dejetos Simbólicos”. Muita parcimônia nos gastos e muitos, muitos elétrons de pura ironia recoberta de retórica de confeiteiro, como concluiu, tácita e afetiva, minha rigorosa parteira. O problema físico das agências de dados, suas instalações nos “currais” dos campi ( só recentemente informatizados “em Declive Ótimo”), já estava equacionado. Como comprimir o material cognitivo residual, menor que fosse, sem por em risco o substrato canônico? Eis minha problematização: um reator de baixo custo aliado a filtro operativo, de tipo isonômico e redutor de ambivalências, baixo capital humano, etc., etc., ora – não era tudo o que desejavam os doutos reitores dos últimos feudos acadêmicos, para“otimizarem” armazenagem?Micro-silos ideativos?
“Tens o básico para propor ao que se requer para o próximo “Examem Sazonalis”, mas cabe adverti-lo – é matéria explosiva! Assim vaticinou minha parteira, prudente e flexível –“(...) terreno minado por veleidades, latinidades... vanitas..., cochichava-me. Mas é sítio perfeito para linguagem. E linguagem explode, esqueceu-se?” Não, estava aí a poética da empreitada e eu tinha sorte de contar com o respaldo de uma neopreceptora ágil que, embora sabendo das propriedades de auto-detecção de paradoxos embutida no meu biodigestor de idéias, houve por bem chancelar a empreitada; talvez por flertar, tímida, com paradoxos, inclusive os de prosódia, o que muito me divertia. A metodologia era automática, bastava acionar o programa. Problemas de revisão conceitual contornados, carente de passaporte, voluntarioso típico do pré-produtivo...parti. Eu e meu caixilho básico com o necessário-suficiente, mais a mais que suficiente pulsão de provocar reações.
Cheguei por água ao local, no meu continente mesmo –Área 12, o que me poupou gastos (não contava com Moedagem) e proficiência em Língua Uni-local; tanto que me distraía com as pernas longas da organizadora bem fornida ao perceber que me restava apenas uma cadeira vazia, e descobri o porquê: havia um teatro de arena em cima do local, como pingüim sobre uma geladeira; o posto onde me sentei arqueava-me os ombros sob um dos lances da arquibancada do teatro; o peso do mundo greco-romano em meu trapézio, nos dois – o Átila corcunda – eu, sem minha parteira, trapezista por pressão; nada parturiente de idéias...optei pelo humor, de cuja pílula, potencializada pelo hormônio do estresse, brotou uma impagável introdução: “A massa da produção cultural do antigo Ocidente não passava, para Sigmund Freud (séc. II) do que este associava à produção fecal, via processo simbólico denominado “Sublimação”. Muito do que um biodigestor POUBLOOMn.



Muito se obrou no período e não havia cisterna bacteriologicamente funcional que operasse como um biodigestor de toda PLOBOWNNMMMMMMnnnnnuffffffffBLAHHH (a explosão!) AQUELA M. ERDA-----MERDA, TEM GENTE FERIDA AQUI TEM GENTE MORTA QUE MERDA É ESSA SEM TUMULTO POR AQUI SEM PASSAGEM ESSA PORRA É CALCÁRIO E GESSO SÓ E MAIS AS VIGAS E TRELIÇAS DESPENCANDO MERDA FOI FAÍSCA IRÔNICA QUE CAUSOU PROTEJAM SUAS CABEÇAS AS CABEÇAS MERDA PROTEJAM PROTEJAM SUAS CABEÇAS TODO MUNDO NO SOLO PROTEJAM OLHOS SEUS OLHOS E CABEÇAS TODO MUNDO CALADO PRA OUVIR FERIDOS GENTE MORTA AQUI ESTE AQUI MORREU{...}Protejam cabeças olhos no solo sem pisar cabeças sem massacrar merda merdaVOU RASGAR AQUI..Desdobramentos? Explico depois...

ILUSTRAÇÂO PARA "SOBRE A EXPLOSÃO..."


janeiro 12, 2010

FIM DA CONEXÃO PAULISTA D'O BULE"!

Perplexo com a deslealdade de um intrahakerismo em texto meu (fundamento do blogue coletivo), ontem, 17:10, retiro-me com minhas postagens (e respectivos comentários de leitores, pelo que me desculpo)desse blogue que alcançou, em dez dias de vida, mais de setenta seguidores, além de propiciar uma verdadeira sabatina pela imprensa escrita (pelo crítico João Nunes, do Caderno C do Correio Popular de Campinas-SP)no que fui seguido pelos colegas Maurício de Almeida (escritor) e Alan Queiroz (artista plástico).Publicarei aqui o conto "Sem Nome" previsto para o próximo número do Projeto Portal.Retornaremos arrastando talentos forjados nos encontros do Sesc, com prosadores, memorialistas, poetas, haikaístas, microcontistas e quejandos da Revista Roda*, breve, muito breve, fotalelecido nas minhas Brevidades literárias. Desconsiderem enlaçes quaisquer de textos meus com o que restou d'O Bule" (Carlos Abreu - sua laboriosa sugestão de nome tãmágico ficou pelo caminho, desencantada; sei que compreenderá), no twetter d'Bule, nos 'restícios' requentados no natimorto blogue coletivo.
Fervido 2010, pois não?!

dezembro 02, 2009

RESENHAS? Existem sim - Lépida, abarcante e lúcida, esta:

P R O J E T O P O R T A L B L O G F E E D
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
RESENHA AO STALKER POR Daniel Serrano-do PQP

FONTE: www.postoqueposto.blogspot.com
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Sobre Portal Stalker


Portal Stalker é uma revista literária; dedica-se à ficção científica e é o terceiro número (são seis previstos) de projeto do escritor Nelson de Oliveira, que tem se mostrado excelente agregador de bons escritores. A Portal Neuromancer, hão alguns de lembrar, passou por aqui em resenha, há já quase um ano. Para o número novo, algumas considerações: bem mudado vem o time de escritores — Portal Stalker atua com elenco justo de onze. Dos que tinham disputado o outro torneio, é de se reconhecer que mantiveram a forma. Roberto de Sousa Causo, Marco Antônio de Araújo Bueno, Tiago Araújo e Luiz Bras não só mantêm firme a bola ao pé como arriscam novos dribles, sem que com isso saiam a equilibrar-se em altos saltos, coisa de contrário tão comum no futebol, irmão rico da literatura. É ainda certo que põe-se um time sempre novo, à busca de coisa nova que lhe dê brilho aos espetáculos. Entram aí fortes as estréias: Sérgio Tavares, Brontops e Ivan Hegenberg, presenças-mais-que-preciosas nesse penetrar ofensivo à língua. Desses, afinal os que mais gostaram a este confuso resenhista, fazem-se breves comentários.




Roberto de Sousa Causo
Ágil seu conto O novo protótipo — preciso nos cortes do texto. O início vai a levar o leitor, até que se anuncia, como a negar pirulito: “Gostava do bairro. Seria bom morar nele, mas ela estava ali para matar um homem”. E aí está-se dentro. A narrativa consegue envolver e curiosos são os experimentos de vocabulário, que têm no colocar-junto de duas palavras ordinárias o efeito grandioso: metrômaglev, lixôrganico, foramundo.


Sérgio Tavares
Sagrado é assustador e realíssimo. Grande empresa de marketing, de mercado, toda a organizar mega-evento religioso. Há no narrador um distanciamento como que obrigatório, mas também uma ânsia de envolvimento. Quer pôr-se longe e para isso indica “procurar bibliografia em MKULTRA, ARTICHOKE, BLUEBIRD, MKDELTA, MKNAOMI e outros”, além de cuidar da precisão, indicando numericamente velocidades médias e acelerações. Mas deixa-se levar, enchem-se seus olhos com o “espetáculo de chamas e choro” e chega a desabafar: “Por fim me perguntou se, para mim, filho da puta, havia algo realmente sagrado". Incorpora humor, e aí tem-me um ponto.


Brontops
Na vista ampla, o tema é batido: fim do mundo. Mas chega a ser triunfal a saída que lhe encontra em Kripton. Sem também deixar tombar o humor, sai-se muito bem com o conto {Os quereres}, verdadeira ode ao acaso em tempos (estes e os que provavelmente vêm) de controle de variáveis. Dá no que dá — o verdadeiro apocalipse é o que se vive, ou se viveu, o que aliás lhe tira o tom dramático, embora não tanto. Trata disso seu terceiro gol na revista, sob o longo título Buraco no céu ou 22 de dezembro de 2012.


Marco Antônio de Araújo Bueno
É o do esquema tático. Atenção para a composição muito pouco casual dos parágrafos, em números de linhas. No fantástico Holograma, 4/4/4/4/4/8/4/4/4/4/4; ajuda-nos a subir a montanha e depois tomba-nos de lá, carinhosamente. As frases são curtas, rápidas, tomam da poesia certo paralelismo, metrirritmando a prosa. Também assim são Tempo virtual, mate real e Nonsensal. Wharia avariada, cativante já no título, é tripartido: I, II, III. Atos-corte, fissuras no espaço-tempo, com costura precisa, enxuta.


Tiago Araújo
Quando anuncia “Os quatro ou cinco centímetros de espessura — dependendo da vontade do casal”, suspendendo a função da medida, Tiago Araújo me tira um riso do lábio. E segue assim ao levar-nos por seus três contos [Artigo 15.720 (Provisório), Artigo 16.831 (Translúcido) e Artigo 20.053 (Revelação)], sempre a jogar com o dúbio e esticar, suspender. Das boas lições, uma delas é um verdadeiro manual para a sobrevivência dos relacionamentos conjugais.


Luiz Bras
Volta e volta com suas perseguições. Tem-se a missão, sai-se a cumpri-la, queimam-se arquivos. Gostoso mesmo é o jeito por que nos leva a história, em lances de engano e enganação. Singularidade nua é um dos mais longos da revista, mas tanto se sustenta que flutua; atrito, mesmo, só tomado por boa coisa — atrito de faísca.


Ivan Hegenberg
O personagem de seu Esquizóide está confuso, mas confunde-nos ao notar-se personagem. Não se sabe “at home” ou “at Rome”, nem se Júlio César é Jesus Cristo. Nem importa; o conto dá margem a algumas das mais criativas brincadeiras de linguagem da revista: “Um ou vários vírus. Vèro. Vi, vi, vi, vi, vi, vrrrrrrrrrrrrrrr...” ou “Tróia dos portos dos fortes das troças trapaças...”. Mas confuso, em verdade, é o que não está o personagem. Ou não será isto sinal de lucidez: “Será isso o que se passa comigo? Não um experimento científico, mas um experimento artístico?”

novembro 17, 2009

"Um Trato Retrô"- Conto;ficção literária

“Um trato retrô”

Por Marco Antônio de Araújo Bueno

Nas semanas depois do acidente tudo estava confuso, sobretudo a identidade dela, sua auto-imagem. Cirurgias seguidas, rotinas alteradas e intoxicação medicamentosa – dessa geléia plasmada na pressa, na dor e na urgência, precisava extrair uma nova matriz identitária, urgente, na pressa; com dor e tudo. Tempo lhe sobrara, um tempo flácido de esperar o tempo passar entre as pontualidades dos remédios, das consultas. E foi nessa oficina do capeta que surgiu a idéia de juntar suas fotos três por quatro e organizá-las numa tomada de vista única. O efeito foi arrebatador. Tudo lá, simultâneo e chancelado pelo olhar oficial de fotógrafos profissionais lidando com o que chamavam de “o cu da profissão”. Ei-la, em fotogramas manchados por marcas de carimbo, distribuída pelo tempo linear; comovente – retratos, só.
Só? Uma constelação de achados sobre si mesma. Ela, uma pedra Roseta a lhe propor uma espécie de arqueologia do próprio rosto; a convocá-la à descoberta de recorrências e revelações tão sutis sob a lupa da maturidade. Sim, o retrato oficial é um tipo de seqüestro da imagem, constatou. O negativo entregava, pelo afã do bem-parecer, os desastres todos que, foto a foto, repetiam-se na captura de um rosto angustiado aqui, outro tão amargo mais adiante, tão falso-relaxado por vezes. Tão pouco e muito – ela, sempre. Sempre o desafio de contornar a precariedade do registro com algum artifício improvisado. Sorriria? Posaria solene conforme o destino institucional do retrato – um RG, uma CNH, uma matrícula. E sempre só mais tarde a idéia de que aqueles retratos que a precederiam em inscrições e situações protocolares, numa surpresa perpétua ou quase, fariam a reedição de sua pertença por um rosto que já pouco lhe pertencia.
Mas a visada agora era diferente. Tratava-se de lançar mão do que fosse a potência de alguns traços, de reeditá-los mentalmente e construir um compósito de rosto certo, autêntico e quase heróico por ter sobrepujado a aflição dos momentos alinhavados, com vistas a moldar um rosto leal a si mesma, abstraída a linha do tempo.
Com tantas restrições de movimento, de ações mínimas do rosto, vinha notando um empobrecimento da gestuária e da expressão facial. Reduzido a deslocamentos estereotipados, o rosto que emergia do colar cervical levou-a a perceber-se como uma tartaruga ou com uma pomba de anel no pescoço. Os olhos, olhos apassivados, acomodando-se à passividade, oscilavam entre a máscara da dor e a contemplação resignada dos momentos de trégua. Assim, somado à construção do compósito redentor, ocorreu-lhe eleger uma dentre as fotos para identificar-se com ela, imitar-lhe o semblante e recriar alguma vivacidade, alguma expansão a partir do que jazia capturado ali, eivado de vida. Parecer-se consigo, imitar as ações correspondentes, injetar-se vida. Mas vida lastreada, avalizada por uma biografia retrospectiva. Ideal e fiel ao que fora, um dia, a máscara que melhor podia representá-la para o olhar do mundo administrado que lhe exigira os retratos desidratados de vida. Vida seca? Ora, vida...
Estava há horas no editor de fotos, olhos secos, pernas dormentes e completamente magnetizada. É este! E no exato momento em que proferiu a escolha percebeu-se impregnada pelo repertório completo subjacente ao retrato. Agora chega, Vilma – a voz firme e benevolente do marido – Faça algum alongamento, você está impregnada de remédios opíóides, do campo eletromagnético do computador, de inércia! Vilma, chamada pelo nome, sem apelidos, diminutivos, girou a cabeça na direção da voz e, plena de seu repertório resgatado, ergueu a cabeleira com as duas mãos, lançou-a para trás, sorriu mordendo o cantinho da boca e, sedutora como aos dezessete, elevou os olhos para o teto em busca de um vazio prontinho para ser colonizado por uma fala nova. Original porque a origem era ela; original pela ruptura com as falagens mornas com que vinha recobrindo sua convalescença:
-Impregnada, ual! Opióides, é? Já acabei aqui, vou passar um protetor e tomar um sol; fodam-se os edemas. E mais, uma cervejinha ou duas não vão me matar.
Na tela, a vestibulanda audaciosa, cheia de verdades indizíveis e congelada no tempo, emanava vibrações e hormônios tempestuosos e...vida, direto para essa nova Vilma, já publicitária interrompida , libido em concordata e um calvário por rotina aos trinta e oito, incompletos. Na tela, a Vilma poderia secar, diria um Oscar Wilde. Um trato; belo trato dionisíaco em plena vigência do tratamento apolíneo. Vida chama vida, ora. E ecos de leituras juvenis ocupavam seus devidos espaços na parte de dentro da cabeça, em cujo rosto pálido, os olhos agora cintilavam.

novembro 01, 2009

"Eu?"-Conto (Fantasia) selecionado para P.FUNDAÇÃO

Eu?

Por Marco Antônio de Araújo Bueno


Me? Se me virem fazendo barulho é que deu briga. Tenho pouco tempo pra estar nas coisas que não prezo muito. Só queria meu lápis vermelho, por fora, que por dentro tem meu traço da infância. Pencil, pensei – o veneno dele vinha do grafite e eu deixei perder tudo numa aulinha, num lanchinho do curso de inglês. Vim buscar o meu costume de sempre, só. E topo com esse turbilhão na idéia. Não entendo a filosofia dessas pessoas, querendo sempre o mesmo feijão, de tempero igual. O jeito de fazer o tempero muda sempre, mas não comem o jeito, mandam o mesmo requentado goela adentro para ficarem parecidos com eles mesmos. Quase derrapo nesse erro. O lápis trazia meu traço de infância. Procurei até ficar nervoso e vir aqui, e, aqui, entendo que outro lápis pode dar em outro jeito de infância, que esta não muda nunca. Um distanciamento, uma maturidade sobre as mesmas paisagens; fiz meu trabalho, ficou bom sim, mas quero meu vermelhinho, meu talismã. Estou desprendido dele agora e ele ficará à vista, num pote grande, de grandes pincéis inúteis. E como a infância não desgruda de mim, essa barulheira toda é para marcar uma mudança de tela, para jogar umas cores nessas caras de azulejo.Precisava mesmo metralhar pigmentos, questions-tags se quiserem, contra essa idéia de comer requentado, de temer temperos desconfortáveis, têmperas de um deslizar incômodo. Por exemplo, essas ilustrações que eu compro nas apostilas e que ficam agredindo meu senso de alguma coisa verdadeira, de cara limpa... Pois chega dessa merda, eu não aprendo com essa merda e a cara de vocês me causa pena de mim mesmo. Se respeito quando ficam ridículos atrás de um chupa-cabras, de um blutufe encharcado de material que nem é seu, ilustrado por um idiota de avental, então por que dar risada de quem procura seu lápis sossegado? Filhos da puta, robozinhos de merda, don’t you? Quero a porra do meu vermelhinho porque inventava coisas com ele, ora. E os caras me zombando: - “Is the pencil red? Are you shure?” – o caralho é red, o lápis é cinza 0,7, ignorantes. E vai voar apostila e notebook nessa espelunca se meu lápis não aparecer!
Se quero um copo d’água, quero sim, mas pra jogar na tua cara e ver borrar esse olho de peixe morto, tia. Tia... ridículo eu aqui, cumprindo as vontades de uma menina bobona, eu repetente, sempre. Repeti o terceiro ano três vezes, três vezes três, nove e noves fora, zero. Zero de recurso, zero de Geografia, zero na carteira pra conta da luz. Já estudou matemática com vela? Dependendo da posição dela, dependendo do vento, uma equação vira um animalzinho esperto, os olhinhos vivos, procurando umas figuras, mais amiguinhos. Eu só ficava aceso assim, imaginando, temperando minha tristeza de ser deslocado, com as figuras que já estavam inventadas, mas uma luminária vermelha como a do Robson não mostrava. “Vira ela assim, torce pra lá, olha agora... Deu pra ver?”. Não, não estava vendo nada e a mãe dele achando que aquela luz era sacanagem sexual, idéia minha – só podia dar nisso, estudar com moleque mais velho, dispersivo: -“Repete de ano e fica bulindo com meu filho, retardado!”. Hoje penso no tanto de sombra naquela cabeça de mãe novinha, que parava em casa e trazia lanchinho, os peitinhos loiros aparecendo na camiseta moderna.
Essa espelunca tem cheiro de lanchinho, de achocolatado. Se a Geografia ficou me atrasando a vida, as equações viraram personagens, lagartos com língua bifurcada, dinossauros. E o Inglês da tia não é pra mim, é pra cumprir minha palavra na editora. Acho que a “tia” se enjoou desse cheiro e fica no passo do que ela adivinha por baixo desta bermuda estampada, um caralho bem red, gostoso como a rebolada pra escrever morango em inglês, de pé, na lousa. Quer que desenhe, tia? E todo mundo rindo com ela vermelha, raiva de mim, tesão de mim. Ora, tia, uma fruta tão simples, nunca viu madura assim? E se encostando levinho na perna dela, só pra sentir a macieza duma tela em branco, e ela, a dureza duma vida de verdade, com cheiro de Tietê, de Marginal atravessada a pé pela Ponte do Limão, pra chegar naquele prédio com símbolo verde com meu lápis vermelho só, e pureza de grafite por dentro. Cumpria passar vergonha de escrever “s/ número” no endereço e a palavra saía com duas línguas sibilando como lagarto. E “profissão” saía com cedilha, encolhida de constrangimento. Falta o Inglês... Será mesmo que falta? E se der um bico nesta porra e fizer barulho entre as pranchas, esparramando tecnologias pelas baias dos colegas: - “Eu faço isso aqui de olho fechado e faço melhor que todos vocês. Ok? Então não vai ter Inglês pra inglês ver, certo?”, e voltava aqui só pra comer a “tia” sibilosa... Desprendido do meu lapão vermelho-red, sujo de tanta imaginação, eu lá do outro lado da Marginal vendo a minha infância chorando de desamparo. Foda-se a infância, vou chorar alto; vou chamar pro pau! You liked these, don’t you, belo rabo?

outubro 16, 2009

http://www.bookess.com/read/634-quotbrevidades-ao-pontoquot/

http://www.bookess.com/read/634-quotbrevidades-ao-pontoquot/



Cingular Phones
Ali Aboutaam

Eis o meu e-book "Brevidades ao Ponto" que dei por encerrado, mas o site ainda não (!).Trata-se de uma recolha de vinte contos, entre breves e microcontos de dez palavras, com algumas inconveniências de diagramação. Gosto muito de todos eles; nastalgia+insistência em época de mudanças nos "Kindles" e suportes de leitura de textos digitais.

outubro 09, 2009

"O Preto" -Conto sci-fi inédito para o PORTAL FUNDAÇÃO

“O Preto”

Por Marco Antônio de Araújo Bueno

Sim, evito mesmo contar o que se passou com aquele humano que, por causa da Síndrome do Infravermelho, ficou conhecido como “o Preto”. Trago ainda nítidas as sensações de horror que me provocaram os detalhes horripilantes da história de suas últimas horas de vida na Terra. Alguns inclusive registrados, em seus detalhes escabrosos, pelo dispositivo sensório que portava como condição para prestar serviços naqueles antigos complexos de escambo de mescadorias-refugo, de resíduos arcaicos da tecnologia da época da convergência de meios digitais.E nada tinha que ver com a pigmentação da pele, da produção de melanina dele, mas com o GPS; não aquelas engenhocas também antigas de localização, e sim com a sigla que remetia a fenômenos relacionados ao Gradiente de Pressão Social , se é que se recorda dessas tentativas ingênuas de compreender-se a velha desigualdade social. O Preto habitava regiões esquecidas pelas reformas mais comezinhas, falava num dialeto alheio à linguagem universal e deslocava-se até o Complexo Sigma por infectos veículos de superfície, sujeito à chuva ácida e às aberrações climáticas de então. Consta que agia como um desafiador dos protocolos vigentes e era dono de uma coragem quase proverbial.
Assim foi que não se intimidou com a valentia robótica de seu parceiro de bancada naquele Box-37/anexo - 15, o tal que fazia fundo com toda a tubulação e a capilaridade da planta baixa do complexo, onde agonizou em cenas que fundiram a escatologia do drama pessoal dele, com o escoamento dos dejetos todos, mais a amônia que vazava, fora de controle.Às vezes viajo no tempo e imagino que ele tenha sido um emblema extemporâneo do tipo de estigma racista ancestral dos tempos em que nos restava alguma fatia da camada de ozônio; delírio de pesquisador melancólico. É que essa história, além de repugnância e náusea, causa-me tristeza, também extemporânea.
O Preto ficou para mim como o signo de uma resistência ao que me estremece pelo obscurantismo, ao que me assusta pela dilatação da experiência diante do insólito, da coisa cotidiana que se transforma num pesadelo, numa monstruosa combinação de infortúnios. A luta visceral dele resultou na crueza da exposição de suas próprias vísceras aos olhos e às narinas de uma escória mercantilista, robotizada, oriunda da imundície atolada nas práticas mais abjetas. Não por acaso ele retorna sempre à fantasmagoria desses submundos, como massa disforme de sangue pisado ou como um guerreiro nobre, em estado eterno de putrefação. Pois ele, conta-se, não se intimidou nem com o GPS que o desfavorecia de forma truculenta, muito menos com as ameaças de agressão de seu parceiro de Box, no Sigma. Enfrentava o primeiro perseverando no incômodo com certo cinismo, até. O outro, ele enlouqueceu de pavor, com a renitência da presença insuspeita de seu próprio cadáver insepulto por dias intermináveis de angústia, suspense e coexistência com a sensorialidade do repugnante, do asqueroso.
O martírio dele foi uma vingança requintada, ele era durão, você pode pensar; não foi bem assim. A princípio ele era maleável, dócil até, quando o parceiro explicava-lhe as regras tácitas que regiam as transações no local, advertindo-o que ele até poderia atingir alguma cota nas operações, desde que não atravessasse o limite. Que limite?
Ele próprio não sabia, nunca saberia. As transações já chegavam pré-agenciadas e o local físico servia apenas para inspeção visual e tátil da mercadoria. Isso mudava o rumo da negociação, às vezes. Aí entrava o carisma do Preto, que falava baixinho, macio, quase que integrando sua corporeidade às muambas, dando-lhes significação adicional, vida própria. Uma prática milenar, aperfeiçoada pela cultura oral; comum aos sobreviventes que chegavam a mimetizar a geografia mais áspera e a ambiência mais hostil conferindo-lhes alguma simpatia, infundindo-lhes algo de mágico. A sossegada magia dos distraídos, daqueles que vivem de domar o susto de viver rente à vida, ao vão das coisas. O Preto não se sabia assim. Sabia que não era daquela estirpe e que morava longe. Também sabia que não tinha medo de trombar com a vida. Não teria medo de ameaças torpes, insinuadas. Vivia sob pressão – mão estendida para o afago, punho cerrado para o soco – continuava a viver, continuava sempre. Continuou ouvindo que, continuando assim, catapultavam-lhe para outro satélite, para mais longe. Ouviu pela tarde toda que morreria de porrada, que lhe quebrariam os ossos e lhe vazariam os olhos. Quando sorria de medo vago, o parceiro gozava ao contar-lhe como o faria mastigar os próprios dentes, depois que lhe extirpasse os testículos em tração lenta e meticulosa. Então desviava o rosto pro longe e o parceiro mirava a sua jugular e lhe falava de sangue espirrando lentamente e regando seus úmeros retorcidos, como um chafariz. O parceiro era mestre em luta com seres intergalácticos e gostava de anatomia.
Havia algum daqueles recorrentes descontroles horários e o poente demorava a chegar. Os demais agentes foram deixando o Box -37 e os dois ficaram insuportavelmente silentes; um respirava pelo diafragma, o outro, pelo nariz até que o sentisse fraturado num golpe seco. Penso que, neste momento, o sensor acusou alteração no batimento cardíaco do Preto. O que se seguiu é indescritível no que tange aos sons que um humano pode emitir em circunstâncias de dor apenas imaginadas. A pressão arterial despencou e uma música eletrônica pulsante mal abafava estrondos impressionantes. Seguidas fraturas de galho seco, atestou um perito, pela escuta. O corpo parecia arremessado seguidamente contra parede há uns três metros, com uma fúria incontrolável, mecânica. Então, rangido de escada em caracol, pesado e, apenas dois dias depois, pelo vão da escada, alguém notou a massa amorfa, a bola de sangue pisado pelo vão da escada. Mesmo com as perfurações, os olhos pareciam esgazeados.
Sim, a Segurança recebera uma denúncia anônima dois dias antes, um gradil da área externa comum aos boxes fora arrombado. Mas não havia testemunhas. Não consta que o agressor tenha acessado os bastidores do Box nesses dois dias. Nada consta quanto aos operadores da Segurança do Sigma que desapareceram desde então. Nenhum filete de expressão na face estertorada de quem descobriu a bola humana em que se transformou o Preto. Tal como o parceiro, que, por dois dias, manteve-se sentado diante de seu monitor, catatônico como sempre, quem viu o Preto nunca mais viu mais nada.
Inverossímil, porém, é a forma como descreveram seu desaparecimento, dois dias depois, num outro poente irregular – dirigiu-se à área externa e ricocheteou desbussolado como uma bexiga de gás até sumir da vista. Estranho isso...